Portugal goleia o Brasil em número de praias sustentáveis

Vista aérea da praia de Nazaré, Bandeira Azul há vários anos e uma das mais apreciadas pelos surfistas. Foto Manuel Romano/NurPhoto via AFP. Abril/2022

Portugueses chegam a 393 praias com Bandeira Azul, contra 22 do Brasil. Certificação premia qualidade da água, gestão ambiental, segurança e serviços

Por Agostinho Vieira | ODS 11 • Publicada em 9 de maio de 2022 - 10:24 • Atualizada em 13 de maio de 2022 - 10:16

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Vista aérea da praia de Nazaré, Bandeira Azul há vários anos e uma das mais apreciadas pelos surfistas. Foto Manuel Romano/NurPhoto via AFP. Abril/2022

Enquanto os brasileiros discutem acaloradamente se proibir caixa de som na praia é uma medida elitista ou não, os portugueses comemoram mais um recorde no número de praias certificadas com a Bandeira Azul. Das ondas disputadas de Nazaré até a tranquilidade cristalina de Albufeira, Portugal abriga 393 praias que podem ser chamadas de sustentáveis, com direito a selo de qualidade. A Bandeira Azul é uma certificação internacional concedida pela Foundation for Environmental Education (FEE). Trata-se da mais importante do mundo no setor e leva em conta itens como a qualidade da água, a gestão ambiental da região, o bem-estar dos frequentadores, a segurança e os serviços. No Brasil, da escassez de saneamento e do lixo jogado despretensiosamente na areia, temos 22 praias certificadas, doze em Santa Catarina, quatro no Rio de Janeiro, três na Bahia, uma em São Paulo, uma em Alagoas e uma no Espírito Santo (Veja a lista abaixo).

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É verdade que a certificação Bandeira Azul já está em Portugal há 25 anos, o que não deixa de ser uma vantagem. A primeira versão foi em 1987. Naquela ocasião, 71 praias conquistaram o direito de ostentar a tradicional bandeira azul e branca com ondas. Desde então, o número de galardoados, como dizem os lusitanos, só faz crescer. A premiação não avalia apenas as praias, mas também marinas e embarcações. Quando incluídas, a diferença entre os dois países aumenta. Lá são 18 marinas e 20 embarcações ecoturísticas reconhecidas. Por aqui temos seis marinas e nenhuma embarcação premiada.

A cobiçada Bandeira Azul, símbolo de praia sustentável. Foto Divulgação

Mas, afinal, além de massagear o ego com água salgada, qual a importância de poder hastear uma bandeira azul na sua praia? Toda. Para começar, esse é um critério muito utilizado por turistas do mundo todo quando pensam em escolher um balneário para passar as férias. Ou seja, há uma razão econômica. Um diferencial competitivo, como diriam os executivos do setor. Mas as vantagens da certificação vão muito além do tamanho do caixa no fim do verão. Estamos falando também de transparência nos números, de educação ambiental e de segurança. A qualidade da água, por exemplo, é um quesito chave na hora da escolha. E o objetivo não é avaliar se a praia está própria ou imprópria para o banho, nomenclatura que os cariocas conhecem bem. Não basta garantir a balneabilidade das águas, elas precisam estar realmente limpas, com um nível de pureza elevado: “para que uma praia possa ser Bandeira Azul, deve apresentar um percentil de 95% de atendimento aos limites de qualidade de água excelente”, diz o regulamento.

A belíssima praia de Astir, na Grécia. O país é o segundo no mundo em número de Bandeiras Azuis. Só perde para a Espanha. Foto Hellenic Society for the Protection of Nature

Ou seja, as cidades que conquistam a Bandeira Azul podem se orgulhar de receberem o maior prêmio mundial dedicado à sustentabilidade de praias, marinas e embarcações. Contudo, para isso, precisam cumprir algumas regras que até podem parecer rigorosas num primeiro momento, mas que deveriam ser básicas para a saúde dos banhistas e para a convivência das pessoas com a natureza. Aliás, quem ganha o selo não tem garantia alguma de que ele será renovado na próxima temporada.

Foi o que aconteceu com Jurerê Internacional, em Florianópolis, a primeira praia brasileira e latino-americana a receber a Bandeira Azul. O prêmio foi recebido em 2009 e renovado em 2010, mas em 2011, uma nova vistoria retirou a classificação da praia. Um dos principais motivos teria sido a falta de cuidado com o meio ambiente, em especial a quantidade de lixo encontrado nas areias.

Para Leana Bernardi, coordenadora do Programa Bandeira Azul no Brasil, o país enfrenta muitos desafios, inclusive para tornar o programa mais conhecido: “No Brasil, as dificuldades são grandes, mas as principais são a falta de saneamento e a ocupação irregular em áreas públicas nas praias”.

No Brasil, a certificação existe desde 2005 e quem coordena o trabalho por aqui é o Instituto Ambientes em Rede (IAR), com sede em Florianópolis. Em sua página na internet é possível conhecer os detalhes do programa, o calendário das candidaturas e os critérios de avaliação. Veja alguns deles:

  • Qualidade da água e cumprimento das normas de amostragem;
  • Existência de instalações sanitárias em boas condições;
  • A praia deve ter lixeiras de coleta seletiva;
  • Existência de salva-vidas e se serviços de primeiros socorros
  • Ambiente limpo, sem algas e restos de matérias vegetais;
  • Proibição de veículos ou camping não autorizado;
  • Equipamentos em bom estado de conservação;
  • Ter ao menos seis atividades regulares de educação ambiental;
  • Transparência na divulgação dos dados sobre qualidade da água;
  • Segurança no acesso ao uso da praia;
  • Fontes de água potável;
  • Clareza nas normas para a presença de cães e outros animais na praia
A Prainha, no Rio de Janeiro, uma das 22 praias brasileiras agraciadas com a certificação. Foto Image Source via AFP

A lista de praias com bandeira azul é atualizada anualmente, a próxima lista de praias brasileiras será divulgada no fim do ano. A lista atual, da temporada 2021/2022, é esta:

  • Praia Grande – Governador Celso Ramos/SC
  • Praia do Tombo – Guarujá/SP
  • Praia de Ponta de N.Sra. de Guadalupe, Ilha dos Frades – Salvador/BA
  • Praia do Estaleiro – Balneário Camboriú/SC
  • Praia do Estaleirinho – Balneário Camboriú/SC
  • Prainha – Rio de Janeiro/RJ
  • Praia da Reserva – Rio de Janeiro/RJ
  • Praia do Peró – Cabo Frio/RJ
  • Praia de Guarajuba – Camaçari/BA
  • Praia de Itacimirim – Camaçari/BA
  • Praia de Piçarras – Balneário Piçarras/SC
  • Praia da Saudade (Prainha) – São Francisco do Sul/SC
  • Praia do Forte – São Francisco do Sul/SC
  • Praia de Quatro Ilhas – Bombinhas/SC
  • Praia de Mariscal – Bombinhas/SC
  • Praia da Conceição – Bombinhas/SC
  • Praia Grande – Penha/SC
  • Praia da Bacia da Vovó – Penha/SC
  • Praia da Saudade – Penha/SC
  • Praia da Sereia – Vila Velha/SC
  • Praia do Sossego – Niterói/RJ
  • Praia do Patacho – Porto de Pedras/AL

Atualmente, mais de 50 países têm pelo menos uma praia, marina ou embarcação turística com o título internacional. São exatamente 4.831 certificados em vigor. Os países com o maior número de praias de Bandeira Azul são: Espanha (615), Grécia (544), Turquia (519), Itália (416), França (410) e Portugal (393). Não é por falta de praia que o Brasil está fora desse ranking. Nem por falta de praia bonita, natureza e biodiversidade. Talvez se ligarmos algumas caixas de som bem alto seja possível entender o que nos distancia desses países.

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. É um dos criadores do Projeto #Colabora.

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