Para ajudar uma pessoa que vive na rua, é viciada em drogas, perdeu todos os vÃnculos familiares, o primeiro passo é interná-la em um centro de reabilitação, conseguir que tire seus documentos, encaminhá-la a um emprego, e, aà sim, apoiá-la na busca por um lugar para morar. Certo? Nem sempre. Uma metodologia que tirou milhares de pessoas das ruas nos Estados Unidos, usada também no Canadá, Japão e paÃses da Europa, está sendo aplicada pela primeira vez no Brasil e inverte completamente essa lógica. à o Housing First (Habitação Primeiro). O participante do programa, antes de qualquer coisa, ganha um teto para chamar de seu. A partir daÃ, sempre acompanhado por um voluntário, começa a contar com serviços que lhe permitam ter uma vida saudável: sessões com psicanalistas, consultas médicas, noções de alfabetização financeira… âEle vai cumprindo as etapas do que a gente chama de Plano de Desenvolvimento Individual, já morando sozinho, no tempo dele, sem cobrançasâ, diz Allini Fernandes, funcionária de uma multinacional e uma das fundadoras do RUAS (Ronda Urbana de Amigos Solidários), no Rio de Janeiro. O projeto carioca é o primeiro da América Latina a aplicar a metodologia criada pelo canadense Sam Tsemberis, radicado nos EUA. âVamos fazendo o acompanhamento até que a pessoa adquira autonomiaâ.
[g1_quote author_name=”Murillo Sabino” author_description=”Co-fundador do Projeto RUAS” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]A pessoa não precisa estar sem usar drogas ou ser alfabetizada, por exemplo, para participar do programa. Se ela pode sobreviver na rua porque não vai conseguir dentro de uma casa?
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Veja o que já enviamosNão é um processo fácil e disso Allini sabe perfeitamente bem, escaldada pelas frustrações que fazem parte do trabalho voluntário com pessoas nessa situação extrema. Mas ela tem milhares de razões para acreditar no sucesso do Housing First, que faz parte das polÃticas públicas do governo federal americano e contribuiu para o número impressionante de 87 mil pessoas retiradas das ruas do paÃs, entre 2010 e 2016. Nos EUA, o programa é aplicado também por diversas ONGs. Entre elas, a reStart, que tirou 1.967 veteranos de guerra das calçadas de Kansas City, nos EUA. Eram dois mil, no total. Apenas 33 retornaram para a vida ao relento. Murillo Sabino, outro co-fundador do RUAS, esteve em Kansas, em 2016, e conheceu o projeto de perto. Ele foi como um dos 248 selecionados para fazer parte do Young Leaders of Americas Initiative, programa de desenvolvimento de jovens lÃderes, do governo americano.
Após participar de workshops em Dallas, os participantes, das mais diversas nacionalidades, se espalharam por 21 cidades dos EUA. Murillo foi para Kansas City, onde passou quatro semanas acompanhando o trabalho da reStart. Voltou entusiasmado com o sucesso da metodologia âque praticamento zerou a população de rua na cidadeâ e cheio de vontade implantá-la por aqui. âFiquei impressionado com os númerosâ, diz. âO programa coloca a casa como um direito básicoâ. Não há pré-requisitos para participar. âA pessoa não precisa estar sem usar drogas ou ser alfabetizada, por exemplo. Se ela pode sobreviver na rua porque não vai conseguir dentro de uma casa?â.
Antes de conhecer o Housing First, o RUAS já havia feito uma experiência parecida, alugando uma casa no morro Dona Marta para um rapaz que vivia nas ruas de Botafogo. G. acabou voltando para as calçadas e, por causa do vÃcio em drogas, se internou em uma clÃnica de reabilitação. âEle ficou envergonhado e se afastou de nós, na épocaâ, lamenta Allini. “Depois, retornou a sua cidade natal e está trabalhando”.
A primeira experiência após a volta de Murillo dos Estados Unidos, já com a metodologia do programa americano, não foi muito diferente. âMobiliamos a casa, apoiamos S. na busca de um novo trabalho, demos um celular para ele e seguimos com o programa. Na terceira vez em que estava indo ao dentista, o deixei na porta no Metrô e entreguei R$ 70, para que pagasse a conta de luz. Ele sumiu. Eu tinha acabado de pagar o aluguel…â, lamenta Allini. S., de 33 anos, é soropositivo. Quando o contato foi rompido, já morava há três meses na casa alugada pela turma do RUAS. âEstávamos nas nuvens”, diz Allini. Mas a queda não a fez desanimar. “Cada um tem o seu tempo para vivenciar mudanças profundas na vida”.  Segundo ela, o importante é que a “abordagem seja leve e humana”.
Um outro piloto está sendo feito com M., que já completou cinco meses no programa. O rapaz veio do Nordeste e viveu cerca de dois sem um teto. Ele andava por Botafogo, um dos bairros onde os voluntários do RUAS (são mais de 500, no total) realizam os encontros semanais e rodas de conversa com desabrigados. Além de Botafogo, os outros bairros atendidos são Copacabana e Leblon. âM. tem vários desafios emocionais, como todos nós â, conta. âà acompanhado por um psicanalista voluntário e chegou a frequentar reuniões do AA. Hoje, trabalha entregando remédios de uma farmácia e vendendo relógios e bijuterias numa banquinha. Estamos por perto, torcendo pelo seu desenvolvimentoâ.
[g1_quote author_name=”Allini Fernandes” author_description=”Co-fundadora do Projeto RUAS” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]As estatÃsticas dizem que, aproximadamente, 35%  vão para as ruas por causa das drogas, mas 85% dos que estão nelas são usuários de alguma droga
[/g1_quote]Outra que está sendo atendida pelo programa é V., que ganhou um teto graças à iniciativa de uma das voluntárias do RUAS. “Ela liderou uma campanha de crowdfunding, pela Benfeitoria, e nos convidou para aplicar o programa de Habitação Primeiro”, conta Allini. “Hoje, V. mora num apartamento alugado, tem subsÃdio para as despesas básicas e os serviços de apoio disponÃveis para seu desenvolvimento e para alcançar sua autonomia, em médio e longo prazos”.
São as drogas que acabam levando uma pessoa a morar na rua ou é a dura vida nas calçadas que leva ao vÃcio? âAs estatÃsticas dizem que, aproximadamente 35% vão para as ruas por causa do uso de drogas, mas 85% dos que estão nelas são usuários de alguma drogaâ, diz Allini. âEntão, o percentual cresce muito. E tratar isso é muito difÃcilâ.
No Brasil, não há dados confiáveis da quantidade de pessoas em situação de rua. A última pesquisa nacional foi feita há dez anos, em 2008. Eram 31.922, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social. Mas, de acordo com estimativa do IPEA, com base em dados de 2015, esse número pulou para 101.854 mil. Só no Rio de Janeiro, em 2016, eram 14. 279 pessoas vivendo nessa condição, segundo a secretaria municipal de Assistência Social e Direitos Humanos – um aumento de 156% em relação a 2013.
[g1_quote author_name=”Allini Fernandes” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]EstÃmulo é a palavra-chave do nosso trabalho. à muito importante o vÃnculo, a relação de confiança que criamos com eles, o volume de informações que conseguimos compartilhar
[/g1_quote]Mas ninguém precisa de estatÃsticas para concluir que o número de pessoas dormindo no chão duro, em cima de folhas de papelão, debaixo das marquises, aumentou muito nos últimos anos. Basta andar pelas grandes cidades. Entre outros fatores que levam ao crescimento da população de rua, Allini cita o desemprego, mas diz acreditar que o mais forte seja a âdesestabilização familiarâ. São situações complexas e muito difÃceis de lidar. âEstÃmulo é a palavra-chave do nosso trabalho, o vÃnculo, a relação de confiança que criamos com eles, o volume de informações que conseguimos compartilharâ.
O RUAS não tem nenhum apoio governamental. âNem queremos, somos apartidários e laicosâ, diz Allini. Para conseguir levar o projeto à frente, eles contam com uma rede de conexões, com sistema de financiamento coletivo, através da Benfeitoria, e com o programa Troco Solidário, em parceria com o Alô, Madruga e o restaurante Salete, na Tijuca. âTrabalhamos em rede e temos uma força incrÃvel assim. Quando chegamos em um bairro, incentivamos que os próprios moradores e comerciantes cuidem de sua comunidade. Em Botafogo, tem um mercado que fornece pães, em Copacabana e no Leblon, o Hortifruti oferece os ingredientes da sopa…â
As conexões também ajudam na hora de conseguir emprego para desabrigados, outra grande dificuldade. âEles não têm endereço fixo, não têm lugar certo para tomar banho, isso gera preconceitoâ. Mas com a ajuda dos voluntários, alguns conseguem vencer essa barreira. Um exemplo é o de um rapaz de 21 anos, que vendia thinner (solvente usado como entorpecente) para crianças que perambulam pelas calçadas e passou a trabalhar, inicialmente como ajudante de cozinha em um restaurante de Botafogo. âNosso voluntário, o Leo, foi com ele na entrevista do emprego. A namorada do rapaz, de 14 anos, ficou grávida e foi levada, também pelo Leo, para um abrigo da prefeitura. O bebê nasceu em julho do ano passado e o casal não vive mais nas ruas. âSão muitos desafios, mas histórias assim e a força dos voluntários unidos vão nos dando estÃmulo para continuarâ.
