O estúdio fica numa casa de madeira na comunidade ribeirinha Porto da Ceasa, à beira do Rio Guamá, em Belém. Ali, o cientista social e comunicador Ãngelo Madson Tupinambá produz os programas da Rádio Murukutu, que chegam das periferias de Belém ao interior da Amazônia paraense pelas ruas e redes, em diferentes linguagens e formatos: pelos alto falantes de uma bicicleta – a Bike Som Maria Lira FM -, pelas rádios escolares, criadas na rede pública de ensino, por outras emissoras comunitárias. E multiplica sua proposta de educomunicação, através dos cursos e oficinas de formação teórica e habilitação técnica para jovens agentes multiplicadores de comunicação popular e comunitária, com ênfase em áudio digital e podcasts.
Muito tem se falado a respeito da participação popular na COP da Amazônia, da importância estratégica das comunidades tradicionais ribeirinhas, indÃgenas, quilombolas, mas o que a gente viu no Diálogos Amazônicos é que ainda existe muita distância entre intenção e gesto
No começo de dezembro, Ãngelo Tupinambá estará em Dubai, nos Emirados Ãrabes, para produzir seus programas diretamente da COP28 – a Conferência do Clima. “Tive a felicidade de ser um dos 10 selecionados e vou fazer o Copcast Belém, que vai abordar os dilemas de Belém do Pará para receber a COP30 em 2025, através da perspectiva da participação popular”, conta o comunicador, de 43 anos. “Como é que ocorre a participação popular? Como é que se dá dentro do espaço da conferência? Vamos levantar esses questionamentos e promover essas discussões”, acrescenta.
Ãngelo foi escolhido para o projeto Get Ready for the COP, cooperação internacional desenvolvida pelas ONGs Saúde e Alegria e DW Akademie com o objetivo oferecer a comunicadores e jornalistas da Amazônia a oportunidade de participar da próxima Conferência do Clima. “Muito tem se falado a respeito da participação popular na COP da Amazônia, da importância estratégica das comunidades tradicionais ribeirinhas, indÃgenas, quilombolas, mas o que a gente viu no Diálogos Amazônicos é que ainda existe muita distância entre intenção e gesto”, destaca o criador da Rádio Murukutu.
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Além da oportunidade de estar em Dubai para cobrir a COP28, o programa ainda garantiu uma bolsa para a Rádio Murukutu produzir uma reportagem sobre a crise climática e seus impactos na região amazônica. “à preciso pensar a qualidade de vida das pessoas como indicador do sucesso ou fracasso das polÃticas climáticas. Não há justiça climática sem a voz dos povos Amazônidas”, afirma Ãngelo.
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Veja o que já enviamosEm 2004, Ãngelo Madson, que adotou o Tupinambá depois de pesquisar seus ancestrais e se autodeclarar oficialmente indÃgena em 2020, trabalhava na Rádio Comunitária Resistência FM, onde apresentava o programa âReversão Radioativa, a Subversão Radiofônica”. Quando a PolÃcia Federal e a ANATEL fecham a rádio comunitária em 2005, ele decidiu criar uma organização para promoção e defesa da comunicação popular, através de cursos e oficinas para agentes multiplicadores.
Em 6 de junho de 2006, surgiu o Instituto Idade MÃdia como plataforma de Educomunicação e produtora de áudio digital. “Nossa proposta era a criação de um Centro para Formação e Capacitação de Agentes da Radiodifusão Comunitária, o que iniciamos junto ao CMI (Centro de MÃdia Independente, Indymedia) Brasil”, conta o cientista social, formando pelo Universidade Federal do Pará e pai de três filhas.
O desdobramento natural foi a fundação da Rádio Idade MÃdia, uma radioweb voltada para comunicação comunitária. Após a Idade MÃdia ser chamada para desenvolver trabalho contra a desinformação pela Internews, organização internacional que apoia comunicação popular e comunitária em mais de 170 paÃses, o instituto abriu uma sede no Centro Histórico de Belém. Mas a pandemia fez secar as fontes de receita: rádio e instituto quase fecharam as portas e abandonaram as transmissões. “Mudamos para o território Murukutu, graças a doações de incentivadores e apoiadores de nosso trabalho”, conta Ãngelo Tupinambá.
Rádio e resistência
Com os recursos levantados através da campanha nas redes sociais, a emissora – agora Rádio Ribeirinha Murukutu – instalou seu estúdio, também sede do instituto, na comunidade Porto do Ceasa, no bairro do Curió Utinga, na periferia de Belém, à s margens do Rio Guamá. O comunicador conta que a comunidade está situada num território histórico, arqueológico e ancestral, originalmente ocupado pelos indÃgenas no Levante Tupinambá de 1617, durante a luta contra a dominação colonial e a destruição das tabas indÃgenas para fundação de Belém. Foram os indÃgenas Tupinambá denominaram o lugar de Murukututú.
Essa mudança para o território Murukutu significou mais uma etapa de transformação nos formatos e modo de produção dos conteúdos da rádio, com lançamento de site e canal no Youtube, além de mais oficinas para comunicadores. “Erguemos alicerce neste território para afirmar que somos o espÃrito guerreiro Tupinambá que ronda o Murukutu, guardiões das matas do Utinga, em batalha da retomada ancestral”, frisa Ãngelo. A comunidade onde fica a sede da rádio é vizinha a uma área de preservação ambiental (o Parque Estadual de Utinga) e ao engenho Murucutu, cujas ruÃnas são tombadas como patrimônio histórico e arqueológico. “Difundimos informações e debates sobre questões ambientais e os direitos dos povos originários”, conta o comunicador.
à uma oportunidade para amplificar o alcance da comunicação popular e comunitária na Amazônia, potencializando lutas populares por justiça climática nos territórios e comunidades tradicionais
A Rádio Murukutu e o Instituto Idade MÃdia estão desenvolvendo os Laboratórios de Comunicação Popular sobre Mudanças Climáticas, Territórios e Segurança Alimentar, um programa de educação ambiental sobre os impactos das mudanças climáticas e suas consequências nos territórios e comunidades tradicionais – também com apoio da Internews – e conta com a participação de jovens comunicadores. A emisssora também lançou campanha “Vozes do Murukutu – Ribeirinhos por Participação Popular”, que Ãngelo Tupinambá define como uma “jornada de mobilização e formação” – são debates promovidos pela rádio para a ajudar na elaboração de Protocolos de Consulta Prévia Livre e Informada, pelas comunidades tradicionais localizadas na Ãrea de Proteção Ambiental Metropolitana (APA) de Belém do Pará.
Recentemente, a Rádio Murukutu ficou entre os 30 selecionados do edital oferecido pela Agência de Impacto Social IARA (Inovação e Aceleração na Região Amazônica)v, oltado para organizações que atuam e contribuem para o avanço da justiça climática nos territórios amazônicos. E desenvolve ainda outros projetos de comunicação comunitária como o curso livre de LÃngua Geral da Amazônia Nheengatu, o Podcast Escrita Parawara, série de episódios para podcast e streaming sobre o exercÃcio da escrita e oralidades poéticas, com entrevistas de escritores paraenses. e COPCast Belém, que debate temas ambientais com foco na cidade sede da COP30. Serão especiais do COPCast Belém que Ãngelo pretende produzir nos Emirados Ãrabes.
Empossado em outubro, após ser eleito por sua comunidade, como integrante do Fórum Municipal sobre Mudanças Climáticas (FMMC), um órgão consultivo formado por 68 representantes da sociedade civil, de instituições de ensino e pesquisa e de órgãos governamentais, o comunicador pretende levar as vozes dos ribeirinhos e dos povos originários para os debates. O fórum vai promover também reuniões periódicas abertas de mobilização visando a participação popular participará da organização da COP30, marcada para 2025, em Belém.
Na última semana de outubro, o criador da Rádio Murukutu esteve em Alter do Chão, ao lado dos outros nove selecionados pelo projeto Get Ready for COP, para debater a emergência climática e, principalmente, seus impactos na região amazônica: estavam presentes ainda lideranças indÃgenas e ribeirinhas locais, além de especialistas do clima, jornalismo e comunicação popular. O encontro fez parte da preparação do grupo para o trabalho durante a COP28, nos Emirados Ãrabes. “à uma oportunidade para amplificar o alcance da comunicação popular e comunitária na Amazônia, potencializando lutas populares por justiça climática nos territórios e comunidades tradicionais”, afirma o comunicador., frisando que sua emissora ribeirinha é uma trincheira de luta polÃtica e um espaço de diálogo democrático que busca reunir articulações, redes e coletivos. “A Rádio Murukutu é resistência e vamos transmitir isso de Dubai”.
