Penápolis, no interior de São Paulo, está a 905 quilômetros da Passarela do Samba, e Vila Formosa, na Zona Leste paulistana, a 429 quilômetros da Marquês de SapucaÃ. Em comum, os dois endereços improváveis forneceram integrantes estreladas para a comunidade do samba carioca, ajudando a redefinir as noções de (como se diz hoje em dia) pertencimento e comunidade da festa. De lá, vieram respectivamente Sabrina Sato, rainha de bateria da Vila Isabel, e Camila Silva, ocupante do posto na Mocidade Independente de Padre Miguel.
AlienÃgenas no paticumbum? Sem chance â integradas à tribo do samba, arrebatam corações pela avenida e fora dela, para ensinar que o Carnaval pertence a quem quiser se chegar. Além disso, elas integram o time de rainhas que não nasceram geograficamente próximas de suas escolas, mas transformaram-se em âlocaisâ por mérito e atitude. Novo desenho para o cargo que não conta ponto, mas motiva discussões viscerais no planeta da folia.
Praticamente acabou a era das aventureiras, que compravam o lugar à frente da bateria, apenas para passar  dando pinta pela avenida iluminada, sem qualquer identificação com a festa. Hoje, a quase totalidade das escolas do Grupo Especial tem, à frente de seus ritmistas, Ãcones de beleza que se empenham, ao longo do ano, na construção de relação intensa e apaixonada com os âsúditosâ ritmistas. (Muito) melhor assim.
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosFaço tudo pela Vila de coração. àminha escola, minha comunidade. No que eu puder ajudar, vou fazer sempre
[/g1_quote]Como Natal da Portela era paulista e Joãosinho Trinta maranhense, Sabrina Sato pode perfeitamente ser de Penápolis, procedência comprovada pelo forte sotaque da linda descendente de japoneses, rainha da Vila. De tão apaixonada, ela, que mora e trabalha em São Paulo, comprou um apartamento no Rio apenas para estar mais perto da azul e branco do bairro de Noel Rosa. O desembarque no Carnaval foi no Salgueiro, que abrigou a então ex-BBB (lembra?) como musa â na verdade, ela pediu para desfilar, encantada com a folia carioca desde criança.
âQuando surgiu o convite da Vila, lembrei dos sambas, de Noel, do Martinhoâ, relembra Sabrina, que estreou em 2011. âA própria Regina (Celi, presidenta do Salgueiro) me levou. Quando cheguei, comecei a chorar. O povo da Vila Isabel sabe ver o lado bom da vidaâ, constata. E ela mergulhou de cabeça. Estrela milionária da televisão, apresentou de graça o lançamento do enredo de 2013, patrocinado pela Basf, que acabou no tÃtulo do Carnaval.
Para ela, está barato. âFaço tudo pela Vila de coração. àminha escola, minha comunidade. No que eu puder ajudar, vou fazer sempreâ, garante ela, que paga a própria fantasia (algo em torno de R$ 30 mil), para aliviar a sempre endividada azul e branco. âTenho condições, a escola merece e, sem o ônus da minha fantasia, ajuda a fazer a dos outrosâ, explica ela, que quase não falta aos ensaios de rua, no Boulevard 28 de Setembro, a rua com notas musicais impressas na calçada, em Vila Isabel. Fica ali, como todos os outros componentes, aproveitando cada minuto da festa despojada.
Não é o único lugar do bairro que Sabrina frequenta. Ela também vai ao Morro dos Macacos, berço da escola, e conta ser muito bem recebida. Da primeira vez, vários barracos abriram suas portas para lhe oferecer comida, na hospitalidade tÃpica das favelas, que os ricos brasileiros não praticam. âFoi lindo, as pessoas diziam: âVem pra cá, tem ar-condicionadoâ, recorda a rainha.
Em 2016, ela desfilou sem transmissão da televisão (a TV Globo, detentora da exclusividade na SapucaÃ, ignora o inÃcio da festa), e, apesar de viver da imagem, tudo bem. âAgora que me toquei que não passou. Jamais deixaria de sair por isso. Tem de ficar com a escola onde ela estiveram nos momentos bons e ruins. O carinho que eu recebo não tem preçoâ, conclui ela, que não descuida das aulas de samba no pé com Dandara Oliveira, passista número 1 da Vila e um espetáculo de dançarina. âSó vai ficar no samba quem gostar de verdade. E eu amo demaisâ, derrete-se.
Juliana Alves, a deslumbrante rainha da Unidos da Tijuca, professa a mesma fé â com o precioso acréscimo do engajamento na luta pela igualdade racial. Em 2017, ela completa cinco carnavais como soberana da Pura Cadência, a bateria da escola do Borel. Atriz de sucesso, revela que o posto na Sapucaà não acrescenta a sua carreira â muito ao contrário. âMeu maior objetivo profissional é ser vista sem rótulo. Ãs vezes, o cargo de rainha ou a ligação com atividade muito popular limita o olhar de algumas pessoas. Rotula um pouco a minha figuraâ, atesta. âPor mais que haja grande mÃdia em torno das rainhas, não soma no meu crescimento como atriz. A relação com o Carnaval é exclusivamente de amor e paixão, e não necessariamente agregadora pra minha carreiraâ.
[g1_quote author_name=”Juliana Alves” author_description=”rainha da bateira da Unidos da Tijuca” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Meu maior objetivo profissional é ser vista sem rótulo. Ãs vezes, o cargo de rainha ou a ligação com atividade muito popular limita o olhar de algumas pessoas. Rotula um pouco a minha figura
[/g1_quote]Mas tudo bem â quando o dilema se apresenta, ela, carioca da Tijuca (âE muito bairristaâ, sublinha.), se agarra no que acredita. âNão vim ao mundo fazer parte da estatÃstica, mas para mudá-la. Não vou deixar de vivenciar algo importante pra mim por causa do trabalhoâ. Aqui, entra a militância de Juliana, expressa no inegociável envolvimento com questões raciais e culturais. âà um norte, que aprendi em casaâ, conta ela, que também desfilou no Salgueiro (outra escola do bairro), mas consolidou sua paixão antes, aos 15 anos, nos ensaios pelas ruas vizinhas à casa aonde cresceu.
Ela estreou na Tijuca como composição de carro, em 2001, e entendeu ali, numa emoção diferente, o sentimento de identificação e pertencimento à quela comunidade. âO nome é orgulho, o tempero a mais quando você é do lugar. Redobra um pouco a emoção, pela construção de identidade que vem com os anosâ, analisa, que repetirá a apoteose de beleza na Passarela, na primeira noite da maratona de samba.
O sentimento prescinde de endereço fÃsico. Mais famosa rainha da atualidade e uma das quatro personalidades mais importantes do Carnaval (ao lado de Neguinho da Beija-Flor, da porta-bandeira Selminha Sorriso e do carnavalesco Paulo Barros), Viviane Araujo serve de exemplo. Oriunda da Zona Oeste carioca, foi rainha na Mocidade Independente de Padre Miguel, e vagou por inúmeras escolas, como Beija-Flor, Mangueira, Unidos da Tijuca, Caprichosos de Pilares e Império Serrano. Chegou ao Salgueiro em 2008 e rapidamente alcançou o estrelato, como rainha de bateria.
De tão intensa, a adoração da tribo do samba por ela garantiu o tÃtulo â e o mais importante, o prêmio de R$ 2 milhões â no reality show âA Fazendaâ, da Record. A cada semana, uma mobilização corria as redes sociais, convocando torcedores e componentes de todas as escolas para garantir a sobrevivência da rainha. Foi assim até o final. A vitória pavimentou a carreira de atriz da sambista, hoje no ar em âRock Storyâ, novela da 19h da Globo.
A viagem apaixonante está no inÃcio para Camila Silva, mulata monumental que a Zona Leste paulistana exportou para o Carnaval carioca. Ela estreou em 2013, como rainha de bateria da Mocidade, e enfeitiçou a Sapucaà com impecável samba no pé, um tufão nos quadris e 1,80m de espetacular beleza negra.
[g1_quote author_name=”Camila Silva” author_description=”rainha de bateria da Padre Miguel” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Vou intensificar meu elo com a escola, porque sei da importância do posto. A torcida aqui é muito mais forte, não posso decepcioná-la
[/g1_quote]A imensa torcida verde e branco caiu de amores, mas trapalhadas polÃticas na escola acabaram por tirá-la do cargo. Nos dois desfiles seguintes, o equÃvoco Cláudia Leite abotelou-se à frente dos ritmistas, garantindo o Estandarte de Ouro de constrangimento carnavalesco, mas o suplÃcio acabou â e Camila está de volta, nos braços do povo. Rainha da paulista Vai Vai há nove anos, ela  compreende a responsabilidade e busca a interação com os bambas cariocas. âFui num pagode em Bangu, e adorei; também estou sempre nas feijoadasâ, festeja. âVou intensificar meu elo com a escola, porque sei da importância do posto. A torcida aqui é muito mais forte, não posso decepcioná-laâ, acrescenta.
Casada, mãe de uma menina de 12 anos, Camila venceu rapidamente a xenofobia da rivalidade Rio-São Paulo. Seu sotaque tÃpico dos nascidos no outro lado da Ponte Aérea está naturalizado em Padre Miguel, e a direção da escola dá sinais de que aprendeu a lição. âAchamos nossa rainhaâ, exulta o vice-presidente, Rodrigo Pacheco. Ela mantém-se concentrada â não falta aos ensaios da bateria e só quer garantir o carinho dos componentes. âVou em empenhar porque entendo a importância disso para os sambistas. à nossa festaâ, referenda.
[g1_quote author_name=”Bianca Monteiro” author_description=”rainha de bateria da Portela” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Aos poucos, fui vivenciando e entendendo aquilo tudo, até me apaixonar pelo samba. Comecei a desfilar aos 12 anos e, com a Portela, tive a oportunidade de conhecer outros estados, fiz shows e eventos
[/g1_quote]E também de Bianca Monteiro, a nova rainha da supertradicional Portela, aposta da maior campeã do Carnaval numa cria da casa. A linda passista desfila há 16 anos na azul e branco, nasceu e mora em Madureira, bairro da escola. âComecei a frequentar a quadra ainda no carrinho de bebêâ, contou ela, ao âMeia Horaâ. âAos poucos, fui vivenciando e entendendo aquilo tudo, até me apaixonar pelo samba. Comecei a desfilar aos 12 anos e, com a Portela, tive a oportunidade de conhecer outros estados, fiz shows e eventosâ, relata. No fim de 2016, surgiu o convite para reinar à frente da Tabajara do Samba. âSempre fui uma passista da Portela. Sempre me fiz presente por amor ao meu pavilhão. Não sabia que um dia seria rainha, não estava programado. Só posso dizer que a escola reconheceu meus 16 anos de casa e me presenteou. Meu objetivo é retribuir este amor e confiançaâ.
Porque quem é soberana do samba faz assim.
