As casas demolidas da Vila Autódromo viraram um Ãcone dos despejos realizados para dar espaço à s instalações olÃmpicas. Não foram as únicas do Rio, nem as únicas de cidades que sediam megaeventos. Tampouco é um fenômeno recente ou localizado. O Conselho Norueguês de Refugiados (CNR) está certo de que grandes projetos de infraestrutura, especialmente no caso de eventos esportivos internacionais, têm forçado milhões no mundo a deixarem suas habitações sem muitas garantias em troca.
[g1_quote author_name=”Alexandra Bilak” author_description=”Diretora do CNR” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O exemplo do Rio mostra que por trás da fachada dos grandes eventos, existe muita vulnerabilidade e exclusão. Este tipo de projeto coloca em xeque os objetivos de desenvolvimento inicialmente pretendidos. à um desenvolvimento insustentável, porque está empurrando pessoas ainda mais para a pobreza.
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Veja o que já enviamosO centro de monitoramento de deslocamentos internos, ligada ao CNR, acompanha o movimento de populações que precisam deixar suas casas devido a desastres naturais ou conflitos e buscar novos locais de moradia dentro de seu próprio paÃs. A cada ano, o órgão publica dados atualizados num relatório, que é usado por organizações como a ONU para buscar novas polÃticas e acordos. No documento deste ano, divulgado nesta quarta-feira, o órgão quis chamar a atenção para uma peça que faltava:
âDecidimos incluir o grupo de pessoas deslocadas devido a projetos públicos ou privados, que vão desde obras de transporte, barragens etc. até eventos esportivos. Existe uma grande quantidade de pesquisa isolada sobre o assunto, mas não há dados globais que dão a amplitude do fenômeno. Pelos poucos dados que temos, no entanto, acreditamos que o impacto é enorme. Há milhões e milhões de pessoas deslocadas por essa razão ao redor do mundo a cada anoâ, explica Alexandra Bilak, diretora interina do centro e uma das autoras do relatório âGlobal Report on Internal Displacement (GRID 2016)â.
A ideia é tornar mais consistente e contÃnua a coleta de informações sobre o grupo. Estimativas parciais citadas pelo relatório apontam para 15 milhões de pessoas deslocadas anualmente devido a projetos de infraestrutura. Na China, seriam 80 milhões de deslocamentos entre 1950 e 2015; e na Ãndia, 65 milhões, entre 1947 e 2010.
Em poucos casos, as remoções seguem boas práticas e garantem compensações. Mas geralmente, diz o relatório, as populações sofrem constantes violações de direitos humanos, especialmente no caso de indÃgenas e pobres.
Neste ano, o documento destaca as remoções relacionadas à s OlimpÃadas do Rio, citando o caso da Vila Autódromo, e descreve o processo desde 2009, após as indicações da cidade para sediar os jogos e a Copa do Mundo. O texto critica a falta de informação prestada aos moradores durante o processo, as baixas compensações financeiras, a longa distância das antigas moradias imposta à s famÃlias e a série de confrontos entre organizações, moradores e autoridades policiais.
âCom o exemplo do Rio, querÃamos mostrar que atrás da fachada dos grandes eventos, existe muita vulnerabilidade e exclusãoâ, comenta Alexandra. âExistem milhares de exemplos como esse no mundo, então é claro que este tipo de projeto está colocando totalmente em xeque os objetivos de desenvolvimento inicialmente pretendidos. à um desenvolvimento insustentável, porque está empurrando pessoas ainda mais para a pobrezaâ.
Quando questionado sobre o assunto, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, costuma dar outra versão. Em duas entrevistas recentes, uma no âEl PaÃsâ e outra no âSwissInfo (SWI)â, Paes disse que, embora entidades estimem milhares de remoções na cidade, o único caso de fato relacionado à s OlimpÃadas foi o da Vila Autódromo. Mesmo assim, o processo foi negociado e ninguém saiu de lá forçado. âEsse foi um processo dramatizado e explorado politicamenteâ, criticou o prefeito ao âSWIâ.
Milhões de deslocamentos por desastres naturais e conflitos
Além de incluir o caso de remoções para obras de infraestrutura, o CNR reuniu, pela primeira vez numa única publicação, os números de deslocamentos internos devido a conflitos e desastres naturais. Segundo Alexandra, assim é possÃvel ter uma visão mais completa da situação no mundo, além de mostrar que a relação entre causas e consequências dos deslocamentos não é isolada.
âTendemos a pensar que os deslocamentos ocorrem por situações especÃficasâ, afirma Alexandra. âMas nunca há uma única razão para a pessoa se mudar, a menos que seja um caso como o da SÃria, onde casas são bombardeadas diariamente. Na maioria, no entanto, este processo é mais complexoâ.
âNo contexto, geralmente há instabilidade polÃtica, violência constante, junto com incertezas econômicas, que ainda podem ser intensificadas por pressões ambientais à subsistênciaâ, completa.
Os 144 mil deslocamentos no Sudão, por exemplo, foram causados por conflitos violentos, cujas raÃzes estão na seca e na degradação ambiental, responsável por provocar uma crise alimentar, que, agravada, deixou famÃlias famintas e sem suporte do governo. No Haiti, assentamentos informais superlotados e a inabilidade das autoridades em garantir segurança e a reconstrução do paÃs após o terremoto de 2010 formam o pano de fundo para os 1,5 mil deslocamentos.
No total, segundo o relatório, foram mais de 27,8 milhões de novos deslocamentos internos em 127 paÃses durante 2015, mais do que as populações de Nova York, Londres, Paris e Cairo combinadas. Destes, 19,2 milhões estão associados a desastres naturais, mais do que o dobro dos referentes a conflitos e violência (8,6 milhões).
Entre os deslocamentos por conflitos, 4,8 milhões estão no Oriente Médio ou Norte da Ãfrica e estão relacionados aos desdobramentos da Primavera Ãrabe e do fortalecimento do Estado Islâmico. Iêmen, SÃria e Iraque representam mais da metade do total global.
No caso daqueles ocasionados por desastres naturais, a maioria ocorreu em paÃses em desenvolvimento. O Sul e o Leste da Ãsia são os mais afetados. Ãndia (3,7 milhões), China (3,6 milhões) e Nepal (2,6 milhões) têm os maiores números absolutos. No Brasil, segundo o relatório, seriam 59 mil por desastres, no caso, ocasionados pelas enchentes e desabamentos, bem conhecidos do brasileiro.
