Os mais jovens talvez não se lembrem desse slogan. A versão original, que tinha o Brasil no lugar do Rio, fez sucesso no inÃcio dos anos 70. Criado pelo governo militar, podia ser visto em campanhas na TV, no rádio e em plásticos orgulhosamente colados nos carros. Se o paÃs havia acabado de se livrar da âameaça comunistaâ e vivia em pleno âmilagre econômicoâ, que razões teriam os brasileiros para reclamar da vida? Temas como liberdade de expressão, eleições livres e diretas, fim das torturas, pareciam detalhes. Ou, como simplificam alguns ainda hoje: um mal necessário.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]O mundo é cinza e a unanimidade é burra. Os cidadãos de Oslo, Cracóvia e Estocolmo, por exemplo, quando ouvidos democraticamente, disseram não aos Jogos OlÃmpicos. Entenderam que o dinheiro dos impostos que pagam deveria ser investido em outras áreas. Aqui, sequer fomos consultados.
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Veja o que já enviamosQuarenta anos depois, guardadas as devidas e enormes diferenças, cresce cada vez mais o movimento dos que acham que criticar os Jogos OlÃmpicos do Rio é falta de patriotismo, um atentado contra o lendário alto astral carioca. Coisa de urubu, como gosta de repetir o prefeito Eduardo Paes. Se você não está apaixonado pelo que acontece na cidade, melhor ir para Cuba, São Paulo, Paris ou outro lugar exótico qualquer. Só um enorme espÃrito de porco pode continuar discutindo saneamento, segurança e habitação, quando temos os BRTs, o VLT e o Porto Maravilha. Custou caro? Quem se importa? O calçadão está cheio de turistas felizes e amanhã tem festa na Casa da Jamaica.
Quatro décadas se passaram e continuamos com uma discussão superficial sobre o paÃs, a cidade, a polÃtica e a nossa vida. Não conseguimos ir muito além do ser contra, a favor, achar feio ou bonito. Nessa disputa acirrada pela razão não há espaço para o meio termo, a ponderação. Conceitos como tese, antÃtese e sÃntese deixam de fazer sentido. Se Platão tivesse vindo aos Jogos, junto com a delegação da Grécia, estaria falando sozinho numa praça, sendo chamado de louco.
A cerimônia de abertura foi linda, criativa, inteligente. Ponto para os que são a favor. O encanamento da Vila OlÃmpica furou. Gol do adversário. Turista mata assaltante. Dois a um para os urubus. A Orla Conde está uma beleza. Jogo empatado. Torcer para as meninas do handebol e criticar a sujeira nas lagoas da Barra ao mesmo tempo não pode. Uma coisa ou outra. O problema desse raciocÃnio estreito, cada vez mais difundido pelo paÃs, é que ele pode desaguar no voto. Os que admiram os anéis olÃmpicos certamente votarão no candidato do prefeito. Mas ele espancou a mulher. Detalhe, mais um detalhe.
Se até o Facebook já trocou o tradicional sinal de positivo por outros seis que incluem revolta e tristeza, por que se contentar com o preto e o branco? O mundo é cinza e a unanimidade é burra. Os cidadãos de Oslo, Cracóvia e Estocolmo, por exemplo, quando ouvidos democraticamente, disseram não aos Jogos OlÃmpicos. Entenderam que o dinheiro dos impostos que pagam deveria ser investido em outras áreas. Aqui, sequer fomos consultados.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]O Instituto Ethos criou um movimento chamado âJogos Limposâ, para avaliar o nÃvel de transparência dos grandes eventos como a Copa do Mundo e as OlimpÃadas. O nÃvel de transparência da Rio 2016 é baixo. Pior do que a Copa.
[/g1_quote]Aliás, quanto custará essa festa? Fala-se em algo em torno de R$ 40 bilhões, incluindo investimentos públicos, privados, federais, estaduais e municipais. Mas ninguém tem muita certeza. Em 2011, o Instituto Ethos criou um movimento chamado âJogos Limposâ, para avaliar o nÃvel de transparência dos grandes eventos como a Copa do Mundo e as OlimpÃadas. Eles usam ferramentas como a Lei de Acesso à Informação para saber se os números existem, se estão disponÃveis e se a população participou ou não das decisões. O nÃvel de transparência da Rio 2016 é baixo. Pior do que a Copa.
O fato é que, em 2009, o Rio foi escolhido para sediar os Jogos OlÃmpicos com a promessa de que chegarÃamos em agosto de 2016 com uma cidade transformada. Não chegamos. Temos uma baia linda que nos envergonha pela quantidade de esgoto. Nos conformamos com a presença do Exército nas ruas na esperança de que a violência seja menor. Continuamos achando normal o fato de que um em cada cinco cariocas viva em habitações subnormais (definição do IBGE). Faz parte do nosso charme.
Avançamos em mobilidade urbana. O metrô, os BRTs e os BRSs são movimentos consistentes em favor do transporte coletivo, apesar de ainda não funcionarem como deveriam. O carioca continua levando, em média, duas horas para se locomover de casa para o trabalho. Medalha de ouro em falta de mobilidade. Os investimentos em Madureira, Deodoro e no Porto do Rio foram bons, apesar de não representarem uma mudança consistente na vida da população mais carente. A Vila dos Atletas não se transformará num legado social para a cidade, diferentemente do que aconteceu em muitas outras sedes olÃmpicas. Teremos mais condomÃnios de classe média, mais favelas em volta e mais poluição nos rios. Detalhes, detalhes e mais detalhes. Onde será que eu botei a minha camisa da seleção?

Agostinho Vieira sua reflexão é mais que bem vinda, absolutamente necessária. Ainda que vivamos na “era da comunicação” e com todos os recursos disponÃveis para instituir canais de consulta e diálogo com a sociedade, assistimos a municipalidade operar com uma lógica imperial, como se o alcaide fosse um ser escolhido pelo divino, cujas decisões não cabem questões, dúvidas ou contestações, como se aos seus atos restasse apenas a glorificação. Sua lembrança do slogan “ame-o ou deixe-o” não poderia ser mais pertinente e emblemática das questões que trouxe à tona. PARABÃNS!