A Rua Dias Ferreira tem fama – tem fama de ser a rua mais antiga do Leblon, chamada dois séculos atrás de Rua do Sapé (ou Caminho do Pau) que ligava o Largo da Memória (desde 2003, batizado de Sergio Vieira de Mello, em homenagem ao diplomata morte em atentado), ali perto do antigo batalhão da PM à s chácaras na subida do Morro Dois Irmãos. Há 113 anos, em outubro de 1917, quando o bairro começava a ser urbanizado, ganhou seu nome atual em homenagem ao médico Antônio Dias Ferreira, eleito para o Conselho Municipal do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 1892 – no ano seguinte, ele exerceria interinamente, por um mês, o cargo de prefeito, por ser o presidente do conselho.
A Rua Dias Ferreira tem fama – tem fama de ser uma das ruas do Leblon onde prevaleceram os imóveis de uso misto, residencial e comercial, que são fundamentais para manter um bairro – qualquer bairro – com cara de bairro. A rua também tem 21 imóveis preservados pelo decreto de criação da Ãrea de Proteção do Ambiente Cultural (APAC) do bairro do Leblon, quase todos no trecho inicial: pela numeração, a Dias Ferreira começa na Ataulfo de Paiva e termina na Bartolomeu Mitre. São prédios baixos, de dois ou três andares, construÃdos em meados do século passado.
A Rua Dias Ferreira tem fama – tem fama de boemia, de concentração de restaurantes e bares, de movimento dia e noite. A fama não é nova: começou lá no final da década de 1970 quando o Baixo Leblon virou sinônimo de badalação noturna no Rio de Janeiro. O epicentro da muvuca nem era na Dias Ferreira. Ficava na esquina da Ataulfo de Paiva com Aristides EspÃndola – onde estavam o Real Astoria (fechado em 1994), a Pizzaria Guanabara (que não resistiu a pandemia), e o Diagonal, único sobrevivente – e se estendia pela caçada da avenida até o Luna Bar, passando pelo Jobi.
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Veja o que já enviamosNo começo dos anos 1980, na Dias Ferreira, a noite também ia longe no Gatão, no Final do Leblon, no Bozó – os campeões da boemia ao lado da lanchonete Gordon, bem no encontro com a Ataulfo de Paiva, onde os mais jovens paravam para um sanduÃche. E, não até tarde, no Alt Munchen, no Yune’s, no Mineiro de Botas, no Tio Sam. Com a multiplicação dos restaurantes e bares, os jornais já registravam, quase 40 anos atrás, conflitos entre moradores e frequentadores, reclamações contra o barulho e os automóveis parados em fila dupla.
Nestas quatro décadas, a fama de ponto boêmio cresceu: cheguei a contar, dois anos atrás, 38 pontos de venda de bebida e/ou comida nos pouco mais de 600 metros da Dias Ferreira. Durante a pandemia, virou má fama, com flagrantes de aglomeração e barracos espalhados através das redes sociais. Nestes 40 anos também, mesmo com a fama, poucos foram os estabelecimentos sobreviventes, o que pode ser constatado por uma caminhada. Dos 33 estabelecimentos de venda de bebida e/ou comida, contados na semana passada, só o tradicional – e nada boêmio – restaurante La Mole, de 1956, e o botequim (no sentido mais clássico da palavra) Embalo, de 1968, testemunharam a virada dos anos 70 para os anos 80. Dos outros, o mais antigo é o chique Sushi Leblon, aberto em 1986.
Não estou agourando qualquer lugar, sou a favor de rua e movimento – exceto em tempos de pandemia. Mas a história da Dias Ferreira mostra que o cenário vai mudando com o tempo e as modas. Quarenta anos atrás, o Gatão era frequentado por universitários mais politizados que tomavam chope com batata frita. Intelectuais frequentavam o Bozó pelo uÃsque honesto e o picadinho. Um dia, no Final do Leblon, Chico Buarque chegou com um gravador enorme, daqueles de rolo, para mostrar uma música recém-composta ao amigo Ruy Guerra.
A tendência atual mistura bares com perfil mais jovem, com restaurantes bem caros. Parece que o clima anda um tanto estranho – não posso confirmar porque não passo lá à noite para evitar aglomerações. Não é de surpreender: tem muita gente ignorante e irresponsável – do Palácio do Planalto a ruas de todo o paÃs. E o Rio, como se sabe, sofre com uma administração omissa e inepta. Como a pandemia, tudo isso, um dia, também vai passar. Mas a Dias Ferreira vai continuar movimentada: já era assim quase um século atrás quando começou a urbanização do Leblon; continuará assim enquanto prevalecerem imóveis de uso misto, enquanto conviverem residências e comércio. Em qualquer parte, de qualquer cidade, é assim que vivem as ruas, assim sobrevivem os bairros.
#RioéRua
