#RioéRua: sonho de verão à sombra do Passeio Público

Cariocas aproveitam a sombra no Passeio Público: parque e Centro da cidade à espera de melhores verões (Foto: Oscar Valporto)

Entre a crise sanitária e a crise climática, cronista aproveita oásis em pleno Centro da Cidade para viajar ao passado e imaginar o futuro

Por Oscar Valporto | ODS 11 • Publicada em 8 de fevereiro de 2021 - 09:08 • Atualizada em 12 de fevereiro de 2021 - 18:54

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Cariocas aproveitam a sombra no Passeio Público: parque e Centro da cidade à espera de melhores verões (Foto: Oscar Valporto)

Fez um calor danado no verão carioca de 1779 e também choveu demais como muito acontece na nossa mui heróica cidade de São Sebastião. Os temporais romperam aquedutos na capital da colônia, deixando a água escassa e a cidade mais suja: a febre zemperini ou zamperini custou a vida de muitos. “Era uma febre de caráter maligno, acompanhada de afecções cerebrais e da medula, e que, quando não terminava com a morte dos doentes, deixava a estes um legado cruel de paralisias e de deformidade”, relatou o cronista Joaquim Manuel de Macedo, em seu livro Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro, escrito quase um século depois.

Notai bem, quinze dias, ou antes, quinze noites pelo menos em cada mês, havia no Passeio Público festa do povo, alegria do povo, reunião de famílias, cantigas de moças e de mancebos, conversações animadas de velhos e velhas, versos lidos ou improvisados por poetas ou simples cultivadores do Parnaso, amores puros nascidos ao som de suaves cantos, confiança e contentamento de todos, ruído, aplausos, risadas, movimento e nunca uma desordem

Joaquim Manuel de Macedo
Cronista e escritor em Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro

O verão de 1779 foi também o primeiro do português Luís de Vasconcelos como vice-rei do Brasil, cargo máximo da colônia. Ainda naquele ano, o primeiro de seus 11 anos de vice-reinado, Vasconcelos mandou aterrar a mais (ou uma das mais) infecta lagoa do grande pântano que era a capital à beira-mar e incumbiu Mestre Valentim – o mineiro Valentim Fonseca da Silva, o mais famoso artista daquele final de século no Brasil – de instalar no lugar da Lagoa do Boqueirão da Ajuda um passeio público. Inaugurado quatro anos depois, o Passeio Público do Rio de Janeiro foi o primeiro parque urbano público do país e, acredita-se, da América Latina. Valentim desenhou um jardim em estilo francês e instalou esculturas, chafarizes e pirâmides que criou especialmente para o lugar.

Chafariz dos Jacarés e a pirâmide triangular: obras de Mestre Valentim com mais de dois séculos sobrevivem no Passeio Público (Foto: Oscar Valporto)

Faz um calor sufocante neste começo de tarde no verão carioca de 2021, um verão de, por enquanto, pouca chuva e da pandemia de covid-19, que deixa vazio o centro do Rio de Janeiro, coração da capital da colônia 250 anos atrás, quando os cariocas se apaixonaram pelo Passeio Público. As árvores dos seus jardins eram um alento contra o calor dos dias mais quentes; mas os seus visitantes aproveitavam também o terraço que chegava até a beira da Baía de Guanabara. No século 21, quilômetros de aterro impedem qualquer carioca até de imaginar uma brisa vinda da baía ao circular pelo Passeio. Do lado desse jardim, onde um dia havia o terraço, hoje passam ônibus em direção ao Centro. Mas ainda há gente sentada nos bancos, aproveitando as sombras oferecidas pelas árvores.

O Passeio Público, neste segundo ano de pandemia, fecha às 17h, como a maioria dos parques da cidade. Não era assim nos anos após a inauguração, no Rio de Janeiro do fim do século 18. E volto aqui a buscar o relato histórico de Joaquim Manuel de Macedo. “Notai bem, quinze dias, ou antes, quinze noites pelo menos em cada mês, havia no Passeio Público festa do povo, alegria do povo, reunião de famílias, cantigas de moças e de mancebos, conversações animadas de velhos e velhas, versos lidos ou improvisados por poetas ou simples cultivadores do Parnaso, amores puros nascidos ao som de suaves cantos, confiança e contentamento de todos, ruído, aplausos, risadas, movimento e nunca uma desordem”. O cronista escreveu sobre essas alegres noites em 1862 e 1863, logo depois do Passeio, ter passado por ampla e muito necessária reforma, a julgar pelos relatos do próprio Macedo, encomendada pelo Imperador Pedro II ao paisagista e engenheiro francês Auguste Glaziou, responsável depois pelos jardins da Quinta da Boa Vista e do Campo de Santana.

Lago no Passeio Público: acréscimo do francês Auguste Glaziou quase um século depois da inauguração (Foto de Oscar Valporto)

Além do formato hexagonal irregular mantido ao longo do seus quase 250 anos, o Passeio Público ainda tem de Valentim o Chafariz dos Jacarés, também conhecido como Fonte dos Amores, que foi erguido em um pequeno outeiro artificial, duas pirâmides triangulares, adicionadas pelo mestre no começo do século 19 e um quiosque. Neste chafariz, estavam também as esculturas das Aves Pernaltas, hoje expostas no Jardim Botânico do Rio, que também abriga as estátuas Eco e Narciso, criadas por Mestre Valentim para o Chafariz das Marrecas (a água saía de esculturas de marrequinhas), construído em frente à entrada principal do Passeio Público. Este chafariz foi demolido no começo do século XX: sobraram as estátuas e o nome da rua que o ligava ao Passeio. Da reforma de Glaziou, sobraram pontes, estátuas fundidas e um dos lagos acrescentados pelo francês. Nos tempos de Pereira Passos, o Passeio chegou a abrigar aquário público, um bar de chopes e quiosques para vendas de mercadorias.

O Rio de Janeiro tem este parque público numa ponta de seu histórico centro que foi sendo esvaziado pela falta de planejamento urbano e entrou em processo acelerado de deterioração nestes tempos de pandemia e home office. Se tivesse moradores na vizinhança, o parque certamente poderia ficar cheio de vida e de gente e abrigar crianças brincando, famílias fazendo piqueniques, casais namorando. Ou nas palavras de Macedo: “Nas noites de brilhante luar, dirigiam-se alegremente para o Passeio Público numerosas famílias, galantes ranchos de moças, e por conseqüência, cobiçosos ranchos de mancebos”. Neste verão abafado, de crise sanitária e de crise climática, com o sol batendo no asfalto e nos edifícios altos e vazios do Centro, é melhor aproveitar a sombra do Passeio Público para ignorar o presente e sonhar no futuro repetindo o passado.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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