Era o Dia Nacional do Samba, 2 de Dezembro, mas nem de longe parecia, no vaivém engravatado do edifÃcio da Firjan, a Federação das Indústrias do Rio, numa esquina do Centro carioca. No inÃcio da tarde, duas cidades historicamente separadas se uniram, com a chegada de uma mulher negra, que cruzou com passos decididos â de bamba, veremos â o saguão asséptico, a caminho do terceiro andar. No enclave da elite empresarial, ninho de homens brancos, Rafaela Bastos, musa da Mangueira, passista-show de longa milhagem na SapucaÃ, tornou-se presidente de uma autarquia municipal.
Geógrafa com especializações em gerenciamento de projetos, branding e economia comportamental, ela foi encontrar o então prefeito eleito, Eduardo Paes, e seus dois comandados mais importantes, os secretários Pedro Paulo (Fazenda e Planejamento) e Marcelo Calero (Governo e Integridade Pública), no gabinete de transição instalado no prédio. Uma hora depois, saiu com a indicação para presidir, a partir desta sexta-feira (1º) a Fundação João Goulart, que forma lideranças e aprimora as ferramentas de gestão do Executivo carioca.
Rafaela não caiu de paraquedas na administração pública. Trabalha na Prefeitura há seis anos, atravessando o segundo governo de Paes e o do bispo Marcelo Crivella nas secretarias de Conservação e Cultura. O último cargo dela foi justamente na fundação que agora presidirá, como assistente do antecessor, José Moulin Netto.
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Veja o que já enviamosOs estudos â âNunca parei, nem pretendoâ, avisa, sobre a própria formação â convivem com o trabalho e o cotidiano de componente da Mangueira, muito mais extenso, em dores e delÃcias, do que o simples desfile na SapucaÃ. Foram 13 anos como passista e outros 10 na função de musa, quase todo o tempo no grupo de shows da escola, apresentando-se por todo o paÃs e em vários destinos no exterior.
(Breve tutorial: na Mangueira, as musas são mulheres da comunidade, nascidas no morro ou de ligação umbilical com a verde e rosa. São as dançarinas mais importantes, guardiãs de uma das preciosas identidades da Estação Primeira.)
Rafaela tem consciência de que conseguiu lugar no governo pela sua capacidade â mas por ser mulher negra também. Logo depois de eleito, Paes prometeu montar a equipe tendo diversidade como um dos critérios, mas decepcionou no inÃcio, ao escalar um convencional grupo de homens e mulheres brancos. Indicada por alguns interlocutores, a geógrafa acabou, assim, se valorizando também por gênero e raça.
Sem problema. âDas poucas vezes na vida que ser negra foi uma vantagemâ, ela brinca, no jeito irônico e sutil que emoldura uma personalidade serena. âNão estou me sentindo cotista, mas a ideia não me incomodaâ, assegura, integrante da primeira turma de Geografia a entrar na Uerj pela ação afirmativa. âFoi muito importante participar daquela experiênciaâ, atesta ela, que se formou em 2008, indo trabalhar com georreferenciamento em Furnas.
âNo encontro, ninguém tocou no assunto. Falamos apenas do trabalhoâ, relembra, referindo-se ao plano de valorizar a gestão pública, apostando na formação e na criação de projetos inovadores para o desenvolvimento gerencial. Logo no inÃcio, o portelense Eduardo Paes não deixou o Carnaval de fora. âEi, conheço você da SapucaÃâ, comentou, logo no inÃcio. Rafaela confirmou, acrescentando ter foto com o prefeito, que se esbalda na pista durante o espetáculo das escolas.
Vencido o momento social, ela se estendeu sobre os planos para o cargo, no qual chefiará 12 funcionários, todos concursados, dos quadros de carreira da fundação. âNão vou indicar ninguémâ, planeja. âQuero trabalhar as questões objetivas do administrador, sem esquecer o lado emocional. A boa gestão compreende um sistema de tomadores de decisão em cargos essenciais. Precisamos qualificar essas competênciasâ, detalha.
Levará, para a nova função, os saberes acumulados na Estação Primeira. âHá aspectos da vida de passista que me credenciam como gestora públicaâ, aponta. âEscola de samba tem visão sistêmica do risco. Todo o processo que desemboca no desfile trabalha com a questão e funcionaâ.
Mais: âNa Mangueira, aprendi a importância de ter dignidade. Vivi todas as dores e todos os encantos daquele mundo. O desestÃmulo e os obstáculos por lá são permanentesâ, constata ela, que até hoje faz o cabelo no morro â além do contato permanente com os muitos amigos que mantém entre os herdeiros de Cartola, Saturnino, Zé Espinguela, Carlos Cachaça, Dona Neuma, Delegado e tantos outros Ãcones da cultura popular. Aqui, ela invoca o conceito de âSala de Recepçãoâ, obra-prima de Cartola. âVai me ajudar a ter sempre presente a perspectiva do cidadão na gestão públicaâ.
Rafaela chegou na escola adolescente, levada pelos pais (a mãe, costureira, e o pai, alfaiate, explicação para as roupas cotidianamente impecáveis). Apaixonou-se no primeiro rufar da bateria que não tem surdo de segunda e mergulhou naquele mundo único, legitimando-se no dia a dia da escola.
Como aqui é o Brasil, encarou toda a sorte de machismo e preconceito, mas segurou a barra. âQuando sabem que sou passista, surgem questionamentos motivados pelo estereótipo da mulher que dança com sensualidade e pouca roupaâ, reconhece. âFui estudar a função, conhecer sua importância, para combater esse racismo estruturalâ, relata. Em toda sua trajetória, trabalhou pelo empoderamento das dançarinas e dos outros artistas do Carnaval, desvalorizados pela sociedade preconceituosa que os espreita. Tornou-se lÃder das musas, negociando com a própria direção verde e rosa melhores condições para o grupo.
Rafaela tinha encerrado a carreira na Sapucaà em 2019, no tÃtulo inesquecÃvel do enredo âHistórias para ninar gente grandeâ, do carnavalesco Leandro Vieira, desfile famoso pela homenagem a Marielle Franco. Ensaiou outra carreira na tribo do samba, criando projeto de branding que redesenhou o emblema da Mangueira. O amadorismo pontilhado de idiossincrasias do poder na folia terminou por afastá-la.
Mas quando houver Carnaval novamente, a musa Rafaela Bastos deverá reaparecer com seu tufão nos quadris e todo o repertório. âPenso em voltar para alterar essa narrativa e mostrar como os sambistas são multitarefaâ, explica, condicionando o retorno a conseguir administrar os muitos ensaios obrigatórios e a rotina como gestora pública. Mas qualquer passo será dado com cuidado e critério. âTenho minha carreira planejada até 2050â, revela, prevendo vários dias como o último 2 de Dezembro.
