Para quem escolhe roteiros turÃsticos pelas vivências carregadas de saberes e fazeres em territórios de resistência, onde sua gente busca ressignificar um passado de desigualdades e preconceitos com prosas cativantes, paisagens vistas por outros ângulos e hospitalidade Ãmpar, âTem quilombo nas trilhas de Goiásâ é um projeto que não se pode perder de vista. Essa é uma iniciativa de turismo comunitário, em processo de construção entre 2022 e 2024, nascida do desejo de moradores do quilombo urbano do Alto de Santana, serem parte das experiências turÃsticas da Cidade de Goiás (GO), reconhecida como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), há duas décadas, além de sonho de consumo de viajantes brasileiros e estrangeiros.
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Foi com esse propósito de fortalecer o protagonismo local de uma comunidade que tem muita história para contar e muita beleza para compartilhar que a proposta ganhou apoio institucional de peso e vem sendo planejada, de forma participativa, nos últimos dois anos, como projeto de extensão abraçado pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e IndÃgenas, de Gênero e Sexualidade (NEABI-NUANCES), do Instituto Federal de Educação Profissional e Tecnologia de Goiás (IFG), no Campus da Cidade de Goiás, em articulação com a Associação do Quilombo Alto Santana (AQAS). A iniciativa também é apoiada pelo curso de Turismo e Patrimônio da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Campus Cora Coralina, e pela Secretaria Municipal de Turismo e Desenvolvimento Econômico da Cidade de Goiás.
De passagem pela terra que se notabilizou pelo talento da poetisa Cora Coralina, cujo primeiro livro foi publicado aos 76 anos, a reportagem do #Colabora foi além do famoso Centro Histórico de casario colonial e percorreu as ruas tranquilas do quilombo Alto de Santana na companhia de dois especialistas em História e Turismo. Ambos, conhecedores da comunidade e do seu potencial como roteiro turÃstico de alto valor ambiental e histórico-cultural, também se conectam a esse território pelas memórias afetivas e pelo propósito de contribuÃrem para o impulsionamento desse projeto pelas instituições de ensino à s quais se vinculam. Assim, caminhamos, observamos a paisagem e visitamos moradores que, além de genuinamente hospitaleiros, são considerados patrimônios vivos dessa comunidade que, historicamente, tem lutado por mais qualidade de vida e por direitos respeitados, dentre os quais, o de apresentar narrativas próprias para contar suas histórias.
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Veja o que já enviamosA pesquisadora Ãdria Borges Figueira Cerqueira, mestre e graduada em História, professora do (IFG), conta que foi muito importante quando em uma reunião da Associação Quilombola, seus membros compartilharam o desejo da comunidade de participar dos roteiros turÃsticos da Cidade de Goiás. âEles entendem a importância desse reconhecimento da comunidade, no seu significado como comunidade tradicional, também de se adentrar nesse reconhecimento pelas perspectivas de identidade, cultura e do saber fazerâ, afirma a especialista.
Durante as análises entre passado, presente e futuro dos moradores dessa comunidade quilombola, a professora opina que, âqualquer projeto que visa à perspectiva do turismo de base comunitária é um ganho grande no sentido da valorização e do reconhecimento da ação e da importância deles nesse territórioâ. A caminho de duas residências de moradores mais antigos, ela recorda que Goiás teve forte presença dos bandeirantes e que, até 1750, mais de 20 mil pessoas foram escravizadas no ciclo do ouro por lá. âMas aqui é lugar de resistênciaâ, afirma sobre o território de cerca de 200 famÃlias, reconhecido oficialmente pela Fundação Palmares, em 2017.
No caminho, ela ressalta que, assim como tantas outras no Brasil, Goiás também é uma cidade dividida. O marco que distancia os mais ricos dos mais vulneráveis é o Rio Vermelho que corta o municÃpio. âDo rio para lá é o Centro Histórico, onde estão as pessoas que, historicamente, têm mais alto poder aquisitivo. Do lado dos fundos da Igreja [do Rosário] para cá, é onde está a população mais pobreâ, explica.
E não foi por acaso que o Alto de Santana foi apelidado de âcomunidade chupa ossoâ. A professora explica que por muito tempo foi assim que a área do quilombo foi chamada na cidade. Para ela, a placa em uma das suas ruas centrais âestá etiquetando uma localidade sempre muito marcada pela violência socialâ. Passado e presente não negam que essa etiqueta está carregada de racismo ambiental já que era nessa localidade que um matadouro do municÃpio descartava carcaças e partes inservÃveis para a venda do gado abatido. Quando as ruas locais ganharam placas de identificação, a herança de discriminação foi institucionalizada. Não há outra conclusão a chegar para quem não pode perder de vista o senso crÃtico aguçado, nem mesmo em um passeio turÃstico.
Moradores mais antigos demonstram otimismo com o turismo comunitário
Ela foi batizada como Maria das Graças Siqueira Campos, mas quando criança, ganhou o apelido de Chica e foi assim que se tornou conhecida como ceramista e referência de sabedoria na comunidade. Dona Chica, 72 anos, dos quais 47 dedicados à produção de panelas e outras peças artesanais, aprendeu o ofÃcio com uma irmã e, desde então, fez dessa a sua principal fonte de renda. O trabalho se soma à arte de fazer doces caseiros, uma tradição passada de geração a geração na cidade. Como boa anfitriã, nos serve doce de mini cajus do Cerrado, colhidos no seu quintal, e nos mostra um freezer cheio de pacotes da fruta congelada que vai cozinhando, aos poucos, para encantar a clientela mesmo fora da temporada.
Alegre e comunicativa, a ceramista relata que sempre trabalhou por encomendas e que o ateliê para compartilhar seus saberes com visitantes é mais recente. Nesse espaço, ela gosta de ensinar o que sabe sobre as técnicas de criar artefatos. Não por acaso, tem sido procurada por viajantes que têm participado de suas oficinas mesmo antes de uma consolidação da comunidade como roteiro turÃstico. âPara fazer bem feito tem que ser um dia inteiro de oficinaâ, observa.
Quando perguntamos a sua opinião sobre ver o Alto de Santana transformado em referência de turismo comunitário na cidade, Dona Chica afirma, bem humorada, que gosta muito do contato com os turistas, antes mesmo dessas vivências passarem a ser mais bem planejadas na localidade.
Ela conta que chegou ainda menina à área urbana do quilombo, quando ainda não tinham moradores na rua onde foi morar com a famÃlia. Enfrentando muitas dificuldades, a ceramista recorda que a mãe conseguiu construir aos poucos uma casa de seis cômodos com o dinheiro que ganhava como empregada doméstica.
Apesar dos percalços, Dona Chica considera que o lugar evoluiu desde a sua chegada e que a comunidade se tornou muito unida. Para melhorar as condições de vida, ela opina que a lavanderia coletiva deveria passar por reforma. âSeria bom também construir uma praça com academia de ginástica para nósâ, conclui.
Quem também considera que a comunidade melhorou em relação ao passado é a dona de casa Cândida de Souza de Jesus Cruz, de 80 anos, e seu marido Libério Teixeira da Cruz, 83. O casal também é considerado uma relÃquia do Alto de Santana, pela longa trajetória de vida na comunidade. Ambos contam que gostam de receber visitantes em casa e que estão animados com o projeto de planejamento de turismo comunitário que vem sendo gestado por lá. Na varanda da famÃlia, emendamos uma prosa regada a muitas risadas com as memórias familiares e o bom humor dos anfitriões.
Dona Cândida recorda que sua famÃlia também veio morar na localidade quando ainda não tinham vizinhos por perto. âFomos criados na pobreza. Agora estamos num mar de rosasâ, compara. Segundo relata, sua mãe também construiu sozinha a casa da famÃlia formada por seis filhos. Para sobreviver, vendia frutas e pastéis pelas ruas. âQuando eu era menina, levava caju e laranja curtida para Cora Coralina fazer docesâ, conta sobre a aproximação familiar com a famosa doceira que, depois de idosa, ganhou fama como poetisa. âEla era muito exigenteâ, lembra sorridente sobre a antiga cliente que exigia a melhor matéria-prima para as suas compotas.
Pesquisador defende turismo comunitário como peça-chave para a inclusão social
Para o pesquisador Marcelo Lima, turismólogo e professor do curso de graduação em Turismo e Patrimônio do Campus Cora Coralina, da UEG, que tem acompanhado o processo de construção do projeto âTem quilombo nas trilhas de Goiásâ, essa é uma iniciativa comunitária genuÃna com grande potencial de inclusão social e fortalecimento do protagonismo quilombola do Alto Santana.
Como caracterÃsticas emblemáticas dessa iniciativa, o pesquisador destaca: âAcho importante enfatizar que o projeto dialoga, diretamente, com o Turismo de Base Comunitária, o chamado TBC, que representa uma via possÃvel, e urgente, de inserção social para a comunidade quilombola do Alto Santanaâ.
Estudioso sobre o tema, Lima faz questão de acrescentar que compreende o TBC, âa partir de uma leitura ética, local, diversa e inclusiva do turismo, considerando os compromissos socioambientais e culturais como pressupostos para o desenvolvimento do turismo nas localidades onde vem sendo executadoâ.
No caso especÃfico do projeto do Alto Santana, que viu nascer, Lima ressalta que essa iniciativa já vem gerando diversos resultados positivos, dentre os quais, âo resgate e a valorização da cultura e da identidade daquela comunidade quilombolaâ. Para o futuro, a sua expectativa é de que, esse quilombo âpossa desenvolver outras ações no plano do turismo, todas cunhadas na noção de sustentabilidadeâ.
Além disso, o pesquisador considera factÃvel que essa articulação local também âpossa auxiliar no processo de descentralização das estruturas e do fluxo turÃstico no municÃpio de Goiás, dinamizando as atividades e as oportunidades para a ampliação das experiências dos turistas na cidadeâ. Como parte do potencial inclusivo e transformador, ele analisa que o projeto de turismo comunitário, do qual se considera um entusiasta, âpoderá, também, contribuir para ofertar aos jovens e adultos melhores condições de permanência e de expectativas de continuar na comunidade, dentro do seu território, combatendo a falta de perspectiva de trabalho e renda, ao mesmo tempo que poderá diminuir as desigualdades sociais locaisâ.
Capaz de revolucionar o jeito de se fazer turismo em uma cidade de passado colonial que ganhou fama nacional e internacional, Lima também analisa que esse projeto representa um tema estratégico para o quilombo, podendo funcionar como âum fio condutor para ajudar a tecer outros roteiros inclusivos de natureza e cultura na cidade de Goiásâ. O pesquisador conclui que roteiros com essas caracterÃsticas, âdevem partir das vivências, dos olhares, dos fazeres e saberes locais, bem como das próprias expectativas da comunidade quilombolaâ.
