Turismo vale-tudo nos cânions de Capitólio

A tragédia em Capitólio: descaso, falta de vigilância e de respeito à natureza. Reprodução EyePress News/AFP 9.1.2022

Visita em janeiro de 2020 antecipou cenário da tragédia anunciada que, dois anos depois, deixou pelo menos dez mortos

Por Simone Barreto | ODS 11ODS 8 • Publicada em 9 de janeiro de 2022 - 15:17 • Atualizada em 16 de janeiro de 2022 - 09:58

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A tragédia em Capitólio: descaso, falta de vigilância e de respeito à natureza. Reprodução EyePress News/AFP 9.1.2022

No pequeno e improvisado porto de embarque do Rio Turvo, à margem da estrada MG-050, as famílias se aglomeravam para esperar a saída do passeio pela represa de Furnas. Alguns com coletes salva-vidas, outros não, todos animados. Muitas crianças zunindo de lado a outro enquanto a fila de turistas aumentava. Um janeiro chuvoso e de calor constante. Talvez por isso, muitos grupos ali levassem seus isopores cheios de bebidas para o programa de até quatro horas de navegação pelos cânions do Capitólio, em Minas Gerais. A cena poderia ter sido hoje, mas aconteceu em 6 de janeiro de 2020.

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Naquele verão inocente, percorremos 130km pela Serra da Canastra até Capitólio, em Minas Gerais, destino conhecido para quem visita a nascente histórica do rio São Francisco no Parque Nacional da Canastra. Era a parada que nossa família precisava, intervalo numa longa viagem de exploração por Minas Gerais. Chegamos na véspera, como programado, e tudo parecia tranquilo. Apesar do tempo ainda instável, resolvemos manter os planos e ligar para um marinheiro recomendado na pousada onde estávamos. Marcamos para o dia seguinte. Um barco para os quatro e um pouco de brisa num lugar bonito. Paraíso. Foi o que imaginamos.

Mas a realidade é diferente da propaganda. O que o lugar tem de deslumbrante – os paredões de pedra rasgados pela água verde esmeralda da represa – tem de desordem. São dezenas de lanchas se espremendo entre os apertados corredores de pedra. Chega a ser sufocante em alguns momentos. Os barcos que transportam grupos parecem estar sempre em sua capacidade máxima. Além de concorrerem por espaço, disputam ainda o som ambiente, cada um com sua música. As embarcações chegam perigosamente perto das cachoeiras e umas das outras, sem zona de manobra. É aflitivo. Não existe sinalização para avisar de perigos ou evitar esse ou aquele lugar. É o turismo vale-tudo, daquele tipo que permite deslizar seu jet-ski onde bem entender na praia ou pescar em área de proteção. Se é que você me entende.

Lanchas lotadas e aglomeradas à distância pouco prudente da cachoeira: tudo errado. Foto Simone Barreto 6.1.2020

Não vimos qualquer fiscalização naquele 6 de janeiro. Havia um bar flutuante acima de sua capacidade funcionando num dos pontos de observação turística. Já na água e no início da nossa jornada, o piloto nos avisou que pouco antes tinha acontecido uma tromba d´água – muito comum nessa época do ano, acrescentou ele, só precisávamos ficar atentos. (Nesse momento, me lembro do nosso caçula pedindo um colete extra ao marinheiro).

As cenas do desabamento em Capitólio nos deram uma tristeza infinita. É natural nos imaginarmos no lugar daquelas pessoas que perderam as vidas num momento de lazer. Da natureza sou apenas observadora, portanto não tenho autoridade para falar sobre a geologia do local. Mas posso afirmar com convicção e como testemunha que não temos proteção suficiente para explorar o turismo em regiões como a da represa de Furnas.

Somos amadores. As trombas d´água acontecem com frequência. Então por que não evitar as cachoeiras em épocas de grande volume de chuvas como agora? A sensação é de que tudo está nas mãos do piloto, que pode ou não pôr todos ali em risco. Os barcos saem às dezenas todos os dias das férias. Quem fiscaliza a quantidade de embarcações? Nosso marinheiro mencionou algumas vezes a possiblidade de sermos abordados pela inspeção local, mas não vimos uma autoridade portuária em nenhum momento entre o embarque e o desembarque. O porto continua improvisado. E como há mais de uma saída para a água, improvisos são comuns e conhecidos na região. A dona da pousada onde ficamos nos deu o contato de uma empresa que tinha lancha legalizada, mas no porto não havia informação clara sobre as embarcações regularizadas. A sinalização continua inexistente. Onde está a regulação do local? Pelo que pudemos perceber do nosso passeio, apenas na cabeça dos marinheiros.

Não é a chuva, não é a pedra, não é a tromba d´água. A responsabilidade é do Estado. No meu janeiro de 2020 no Capitólio, o Estado não estava à vista.

Simone Barreto

Jornalista e mineira de Juiz de Fora.

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