O lado mais sombrio da psique de Bruce Wayne vai ser explorado pelo roteirista David S. Goyer numa nova produção prevista para este ano. Goyer trabalhou com o diretor Christopher Nolan na trilogia cinematográfica do homem-morcego, mas a nova trama não será vista nos cinemas, nem na TV. à para ser ouvida. âBatman Unburiedâ é um dos lançamentos que o Spotify prepara para o público dos podcasts – formato que está cruzando a fronteira entre o mundo dos produtores independentes e o dos pesos-pesados do entretenimento. O recente anúncio da entrada da Amazon nesse segmento é o maior sinal do apetite crescente pelo áudio entre os gigantes da tecnologia. Uma fome que cresceu desde o inÃcio da pandemia.
O fatÃdico 2020 e a revolução que o isolamento causou nos hábitos de consumo comprovaram a força dos podcasts. Na solidão do distanciamento social, multidões buscaram consolo em programas que podem ser consumidos enquanto cumprimos tarefas domésticas, fazemos exercÃcio ou cruzamos cidades evitando uns aos outros. O áudio permite isso, mas com uma experiência de imersão rara na cultura digital. Voz é uma intimidade possÃvel e acessÃvel numa era de contatos proibidos.
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Veja o que já enviamosEm 2019 os consumidores globais de podcast estavam na casa dos 800 milhões. Esse número deve exceder dois bilhões até 2025, segundo a Omdia, empresa de pesquisa de tecnologia – tendência condizente com a explosão do áudio nas mÃdias sociais, das mensagens de chat ao app Clubhouse, a nova sensação das redes em mutação permanente.
âA indústria do podcast vem crescendo há anos, mas agora existe uma movimentação diferenteâ, confirma Dave Zohrob, fundador da Chartable, especializada na análise desse mercado: âVeremos muitas mudanças nos próximos anos. Por exemplo, mais conteúdo exclusivo, o que significa que os ouvintes vão trocar de aplicativos, como fazem com o streaming de vÃdeo. Também mais inovações narrativas e mais oportunidades para anunciantesâ, aposta.
Os passos mais agressivos na batalha pelos áudios distribuÃdos digitalmente foram dados pelo Spotify, que não se satisfaz mais com um cardápio só de música. Quer novas formas narrativas, como ficção, documentários, debates, humor, entre outros tipos de programas que já não podem mais ser considerados nichos. Nos últimos dois anos, o serviço de streaming nascido na Suécia comprou plataformas independentes e assinou contratos com nomes como Michelle Obama, Kim Kardashian e a dupla Harry e Meghan. Barack Obama e Bruce Springsteen acabam de lançar uma série onde conversam sobre os EUA que viram se despedaçar durante o governo de Donald Trump. Os investimentos do Spotify em podcasts estão na casa dos US$ 500 milhões e ajudaram a valorizar as ações da empresa em mais de 70%.
A Amazon Music só fincou o pé nesse terreno em setembro, mas não entrou para perder: comprou a startup americana Wondery, por US$ 300 milhões. A produtora é responsável por fenômenos como âDr. Deathâ, cuja primeira temporada narrou os crimes cometidos por um neurocirurgião de Dallas. à uma história real que ganhará versão para a TV este ano, estrelada por Jamie Dornan, Alec Baldwin e Christian Slater.
A pioneira Apple, responsável pela popularização de áudio distribuÃdo pela internet, tem acordo com celebridades como Oprah Winfrey, e estuda um serviço só para consumidores de podcast. Já o Twitter começou 2020 adquirindo o aplicativo Breaker, no qual os usuários comentam episódios de programas. à uma guerra de titãs, que tem impacto na nossa maneira de se divertir e de entender o mundo.
Segundo o Listen Notes, ferramenta de buscas de áudios, já existem mais de 1,9 milhão de podcasts no mundo. O Brasil lidera o ranking dos paÃses cujas produções aumentaram mais rapidamente. Quem não lutar por uma posição de destaque na distribuição desse conteúdo, pode acabar sendo atropelado pelas transformações tecnológicas que já transformaram a TV e o rádio. Mas os investimentos milionários – e a inevitável tentativa de povoar os cardápios com gente famosa – poderiam matar o espÃrito independente, a criatividade e a liberdade atuais do segmento?
Para Andrew Harrison, fundador da produtora britânica Podmasters e um dos anfitriões do popular âThe Bunkerâ – que disseca as notÃcias de maneira informal e muito divertida – a resposta é não.
âTenho esperanças de que a chegada dos gigantes não signifique que produções independentes serão engolidas. Elas são a fonte de energia e criatividade do mercadoâ, analisa. âA onda de aquisições envolve produtoras bem-sucedidas. Acredito que as grandes corporações tenham aprendido a lição e não interfiram no conteúdo para não acabar com a mágicaâ, afirma, comparando a liberdade do formato à experimentação que movia os selos britânicos de música alternativa nos anos 70 e 80.
O jornalista lembra, porém, que o público que sabe como ouvir uma produção nas plataformas digitais ainda está muito longe do tamanho da base de assinantes de vÃdeos sob demanda: âMinha mãe toda semana me pergunta a que horas meu programa vai ao ar. Fica muito surpresa quando eu explico que ela pode ouvir quando quiserâ, brinca Harrison, para quem o fato de as grandes empresas do setor estarem investindo em podcast vai acabar formando novos segmentos de consumidores, além da audiência mais jovem.
à uma corrida do ouro – mais uma – mas ainda está no começo. A primeira febre mundial dos podcasts estourou em 2014, com a série americana âSerialâ, uma investigação narrada pela jornalista Sarah Koenig sobre o assassinato de uma descendente de coreanos num bairro pobre de Baltimore, em 1999. Condenado à prisão perpétua, o acusado, um rapaz muçulmano, jurava inocência. Sarah revê o caso, detalhando suas dúvidas de forma eletrizante e viciante.
Por causa desse sucesso, histórias policiais em áudio vieram para ficar nos grandes mercados mundiais. Executivos do meio já definiram o gênero como a âRihanna do podcastâ, ou seja, adorado por todos. Mas o British Podcasts Awards – prêmio criado em 2017 – espelha a diversidade das produções além das fronteiras americanas. A cerimônia de 2020 premiou os vencedores em mais de vinte categorias, como ficção, jornalismo, negócios, humor, bem-estar, famÃlia e sexo.  Em seu terceiro lockdown, o Reino Unido vem consumindo podcasts com entusiasmo. Os grandes jornais já escalaram crÃticos para avaliar semanalmente o que existe de melhor.
âHá centenas de programas hoje no mesmo patamar de âSerialâ. Estamos na era de ouro do áudio com empresas investindo nesse meio em todos os paÃsesâ, diz Matt Deegan, co-fundador da premiação.
Um dos grandes hits britânicos é âMy dad wrote a pornoâ (Meu pai escreveu um pornô), trama hilária em que o roteirista Jamie Morton lê um romance pornográfico ruim escrito pelo pai. O time da série, com 200 milhões de downloads, já fez shows pelo mundo, estrelou especial na HBO e lançou livro. Os atores Emma Thompson e Elijah Wood estão entre as celebridades que ocuparam o microfone dos convidados.
âOs programas têm mais chances de serem bem-sucedidos quando refletem todos os aspectos da vida, quer se trate de conteúdo para um público não privilegiado ou quando ensinam grupos dominantes sobre os desafios enfrentados por minorias. Podcasts podem tocar a todosâ, sintetiza Deegan.
