Jovens usam redes sociais para trocar e vender roupas de grife

Clei Barbosa (à esquerda) e Viviane Pereira – as duas usando roupas da Farm

Cada grupo reune mais de 20 mil pessoas e produtos chegam a custar a metade do preço

Por Laura Antunes | ODS 12ODS 17 • Publicada em 24 de novembro de 2015 - 13:11 • Atualizada em 24 de novembro de 2015 - 17:55

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Clei Barbosa (à esquerda) e Viviane Pereira – as duas usando roupas da Farm
Clei Barbosa (à esquerda) e Viviane Pereira _ as duas usando roupas da Farm
Clei Barbosa (à esquerda) e Viviane Pereira – as duas usando roupas da Farm

Se tem algo capaz de tornar o dia de qualquer mulher mais feliz é ela poder comprar uma peça nova para abastecer seu guarda-roupa, mesmo que ele já esteja abarrotado. Ah, isso não tem preço… Não? Tem, e como! Que o diga a fatura do cartão de crédito no mês seguinte. É verdade que em tempos de economia estagnada, anda difícil manter esse prazer sem doer no bolso. Mas uma parcela crescente de consumidoras achou uma saída dinâmica de driblar a crise que ameaça os closets. Se multiplicam nas redes sociais grupos de clientes – principalmente das grifes adoradas pela turma mais jovem – que se unem para vender, comprar peças usadas e até mesmo trocá-las. Dessa forma, o custo de ter uma roupa “nova” pode cair pela metade ou ter custo zero, garante quem mergulhou na nova tendência.

Embora existam grupos que se dedicam a diferentes grifes para comprar, vender e trocar roupas, as clientes da marca carioca Farm, ou farmetes como são chamadas, lideram o ranking de formação dessas parcerias inusitadas. Há grupos numerosos, como, por exemplo, “FarmRio vendas e trocas”, com 25.320 integrantes, e o “Farm até R$ 120 – Vamos desapegar”, o campeão de membros: 28.557. O “Bazar Farm P e PP”, que nasceu em setembro do ano passado, está bem pertinho de alcançar a marca dos  três mil integrantes. De olho na novidade, surgiu no mês passado, um dedicado a outra marca carioca, o “Bazar da Cantão”, ainda engatinhando, mas que promete crescer logo logo.

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Esse tipo de grupo é muito bom porque tem gente que cobra preços bem mais baratos. Os preços originais são absurdos!

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A funcionária pública Viviane Pereira foi a responsável pelo surgimento e é a administradora do “Farm até R$ 120 – Vamos desapegar”, que nasceu em fevereiro passado. A limitação do valor das transações atraiu logo uma multidão de interessadas, já que as peças novas da grife costumam ter uma faixa de preços que não pode ser chamada de atrativa… Viviane não tem controle do número de negócios feitos diariamente, mas conta que são pelo menos cem postagens de roupas todos os dias.

– A ideia de criar no Facebook esse grupo de desapego era oferecer preços acessíveis para a clientela da marca, pois os outros grupos já existentes tinham preços exorbitantes. Os bazares estão super em alta e por que não criar um que tenha apenas a marca que nós amamos… O intuito é poder gastar menos… Trocar sempre que possível e vender barato quando não houver essa opção. Por isso, fixamos o valor em até R$120  – explica Viviane, também conhecida como Vivix, que se orgulha de ter chegado ao topo dos grupos de compra, venda e troca.

A própria Viviane é fã incondicional da grife. Ela conta, aos risos, que vende e compra roupas no grupo sem parar. Com as vendas, consegue ganhar R$ 1 mil ao mês. Agora, ela conta os minutos para alcançar a marca dos 30 mil integrantes. O que, acredita, será em breve.

O grupo de Viviane, aliás, está saindo no mundo virtual para promover eventos ao vivo. No dia 18 de outubro, um domingo, as farmetes organizaram um bazar, num play na Glória, para promover trocas de peças de roupas da marca. Não estavam previstas compras ou vendas.

– Queríamos um bazar presencial só com trocas entre as 50 mulheres inscritas no evento. A ideia era fazer um escambo, sem dinheiro envolvido, e criar um dia divertido e leve. Uma oportunidade única de nos encontrarmos, apreciando a natureza – explicou a líder do grupo.

Mas está enganado quem pensa que esses grupos de clientes reúnem apenas jovens cariocas que adoram usar as roupas coloridas e estilosas da marca. Há farmetes de diferentes pontos do país cadastradas, por exemplo, no também gigante “FarmRio vendas e trocas”, administrado pela atriz mineira Rianez Ferreira de Oliveira. A moça conta que muitas participantes são do Sul e do Nordeste. A faixa etária também é ampla. Não há apenas jovens consumidoras no grupo. Mulheres de mais de 40 anos fazem parte da parceria comercial criada na rede social.

– O perfil das integrantes varia muito. Tem muitas meninas novas, mas também muitas mulheres casadas, acima dos 40. É bem diversificado – garante ela.

Rianez herdou o grupo, criado há cerca de cinco anos, de uma amiga que depois saiu do comando. Hoje, ela administra a legião de integrantes com outras duas amigas. Rianez tem uma explicação para o sucesso da charmosa empreitada comercial:

– O bom é poder ter a vantagem de comprar roupas por preços mais baratos do que nas lojas. Quando se pratica o desapego, é possível encontrar as peças desejadas por um valor bem menor. Isso é ótimo – afirma ela, outra consumidora apaixonada da marca.

Compras e vendas são a maioria, mas as trocas também vão de vento em popa. Em geral, as clientes postam as peças que têm em casa e a pessoa interessada entra em contato pela rede social. A entrega pode ocorrer pessoalmente ou pelos Correios. Rianez conta que as integrantes não são obrigadas a pagar mensalidade ou algo do gênero:

– Algumas apenas me ajudam, anualmente, com R$ 12. Atualmente, cerca de cem fazem isso, mas por iniciativa delas. Outras acabam doando uma peça de roupa, que eu posso rifar no grupo.

As irmãs Maria Clara e Maria Paula Barsotti, estudantes cariocas, são frequentadoras de pelo menos cinco desses grupos. As meninas já compraram e venderam. Maria Paula já testou o sistema de trocas também e aprovou.

– Esse tipo de grupo é muito bom porque tem gente que cobra preços bem mais baratos pela roupa ser mais velha ou usada. E no caso da Farm, é melhor ainda, já que os preços originais são absurdos! – decreta Maria Paula.

Para aceitar integrantes para esses grupo de compra, venda e troca, as administradoras tomam alguns cuidados para que não haja aborrecimentos posteriores, como, por exemplo, alguém vender uma peça, receber por ela e não entregar a peça.

– Aceito apenas a entrada de pessoas que têm mais de um ano de facebook. Isso é uma forma de evitar a chegada de pessoas com perfis fakes e futuros calotes – ensina a estudante Sarah Leite, que administra o grupo “Bazar Farm P e PP”.

O grupo de Sarah está completando um ano de existência.

–  Eu sempre participei desse tipo de bazar até porque as coleções da grife acabam muito rápido nas lojas. Assim, fica mais fácil de achar as peças do desejo em bazares. Nos grupos que eu frequentava, no entanto, era difícil achar as peças para o meu tamanho. Então, criei o meu. Fiz apenas uma pequena divulgação num dos grupos e ele começou a encher sozinho – comemora Sarah, que também criou, em setembro passado, o “Bazar da Cantão”.

Além de realizar o desejo de conseguir por preços melhores as peças do desejo, esses grupos acabam sendo um meio de se fazer novos amigos. Viviane conta que conheceu a farmete Clei Barbosa no grupo e hoje são super amigas.

FARM FALA

Embora os grupos não tenham a participação da grife carioca, a própria Farm entrou nessa forma diferenciada de fazer circular as peças de roupa do desejo sem doer no bolso. A empresa lançou o projeto “Troca Amor”, em parceria com a Satrápia (agência carioca de benfeitorias). Trata-se de uma forma solidária de trocar peças de roupas e acessórios por trabalho voluntário e ações sociais.

Este ano, a Farm já promoveu quatro edições do evento, o último deles no Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). As clientes que topam participar ganham uma peça de roupa nova em troca da doação de seu tempo: elas têm dois meses para realizar a boa ação em uma das 12 instituições participantes. No fim do trabalho  cumprido, a farmete pode retirar a mercadoria escolhida. Segundo a grife, cerca de 70% das participantes concluem as atividades e recebem as peças. Em torno de 50 a 80 itens são levados para serem trocados em cada edição. Em novembro, o projeto será em parceria com a ONG TETO.

A ideia, diz Danielle Vargas, analista de Projetos Especiais e Cultura da grife, é resgatar valores solidários e promover encontros significativos:

– A gente tem percebido um movimento muito acelerado no mundo, uma urgência nos acontecimentos que, às vezes, faz com que não notemos o outro com cuidado. O “Troca Amor” é para que não esqueçamos a solidariedade, mesmo com os compromissos do dia a dia. Faz bem para a alma!

Troca amor – parada musical promovida pela Farm em que foram montados 10 palcos do Leblon ao Arpoador

 

Laura Antunes

Depois de duas décadas dedicadas à cobertura da vida cotidiana do Rio de Janeiro, a jornalista Laura Antunes não esconde sua preferência pelos temas de comportamento e mobilidade urbana. Ela circula pela cidade sempre com o olhar atento em busca de curiosidades, novas tendências e personagens interessantes. Laura é formada pela UFRJ.

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