Parece ficção, mas é só a nova cara da economia. Não no Brasil onde tudo anda com jeito de filme velho com final triste. Mas em Silicon Valley, na Califórnia, onde o futuro chega primeiro â para o bem ou para o mal. Num fim de tarde, Farhad Manjoo, repórter do New York Times, conectou-se com o website Hello MD, uma start up especializada em botar  médicos e pacientes em contato, via internet. Registrou -se, deu número do cartão para pagar a consulta (US$ 50) e relatou seu problema: uma azia frequente demais para ser esquecida. Cinco minutos depois, uma pediatra vestida de vermelho â jaleco branco é passado – surgiu na tela, num ambiente que parecia ser seu home-office, em Washington.  Perguntou sobre o histórico médico do repórter, sintomas, remédios de uso frequente, num ritual igual ao dos consultórios do mundo. Três minutos depois, ela deu o diagnóstico: os sintomas relatados por Manjoo faziam dele um candidato ao uso de marijuana para fins medicinais, prática legalizada na Califórnia desde 96.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Ano passado, a marijuana já foi a indústria que mais cresceu nos EUA – 74% em um ano, com faturamento de US$ 2,4 bi. Se a maconha legal vencer na Califórnia, é só uma questão de pouco tempo para todo o paÃs seguir a tendência e os negócios explodirem
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Veja o que já enviamosEm menos de uma hora a maconha foi entregue em casa, num processo tão simples como encomendar a pizza de domingo à noite. No Weedman â um google especializado em cannabis – Monjoo procurou um site de vendas, com serviço de entrega a domicÃlio: escaneou receita médica e identidade, teve acesso a um volumoso cardápio com inúmeras opções para cumprir a recomendação médica â claro, a estas alturas ele já esquecera a azia. Escolheu um vaporizador de extrato de maconha, em formato de caneta: pagou US$ 100 e um motoqueiro fez a entrega em sua casa no tempo estipulado.
Marijuana tech é a nova aposta dos nerds de Silicon Valley. Melhor apagar da memória o espÃrito rebelde dos anos 60, a cultura do paz e amor ou o estilo sexo, drogas e rock nââroll. O nome do jogo agora é business, big business. A utopia é inventar o Airbnb ou o Facebook da cannabis e entrar para a lista dos top bilionários.  No ano eleitoral de 2016, ou seja, daqui a poucos dias, começará a campanha pela legalização da maconha para fins recreativos em seis estados americanos. O lobby já está em ação e as cannabis startups já se anteciparam para criar tecnologias, sofisticar os produtos e deixar tudo ao alcance de um click. Ninguém pensa nos doidões como consumidores preferenciais, a ideia é fidelizar jovens mamães e papais, profissionais de sucesso, senhorinhas antenadas: gente normal, com vida normal e vontade de se divertir.
Ano passado, a marijuana já foi a indústria que mais cresceu nos EUA – 74% em um ano, com faturamento de US$ 2,4 bi. Se a maconha legal vencer na Califórnia, é só uma questão de pouco tempo para todo o paÃs seguir a tendência e os negócios explodirem.  Alguns já estão marcando o território: como a Hello MD. A Meadow também facilita a obtenção de recomendação médica para consumir marijuana sem passar por hospital. Em novembro, lançou um software para conectar agricultores, distribuidores, centros de saúde, médicos e pacientes, ou seja,  toda a cadeia de negócios. A Privateer, holding de um grupo com várias empresas dedicadas à maconha, recebeu um multimilionário investimento para ampliar a Leafly â site com notÃcias e informações sobre produtos com selo cannabis â e a Tilray, uma espécie de Embrapa da marijuana.
Nos EUA, a corrida é para criar o império da maconha legal.  Não é esta, claro, a motivação dos polÃticos ao defenderem o fim da proibição. O mais corajoso deles, o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica, definia com muita precisão a sua polÃtica ao fazer do seu pais o primeiro a legalizar a plantação, venda e consumo de maconha no mundo: acabar com o monopólio dos traficantes e a violência ligada ao comércio ilegal.
âNão vai existir o turismo da maconha. A decisão tomada não tem nada que ver com esse mundo boêmio. Nada que ver, é uma ferramenta de combate a um delito grave, o narcotráfico, é para proteger a sociedade. à muito sérioâ, disse-me, há quase dois anos, numa entrevista, o então presidente do Uruguai.
Seu sucessor, Tabaré Vasquez, não gostou da ideia de vender cannabis nas farmácias como estava previsto em lei, mas uns 40 clubes já funcionam em Montevidéu legalmente – plantam e entregam aos sócios 40 gramas de ervaâ por mês â, o cheiro da maconha nas ruas não assusta ninguém nem desperta a atenção da polÃcia. Ainda é cedo para avaliar o impacto da legalização no tráfico â dizem especialistas – mas o consumo aparentemente não aumentou.
Aqui, no Brasil, a conversa sobre a mudança na lei parou, mas em Portugal a legalização já fez o primeiro aniversário, assim como nos quatro estados americanos onde adultos podem fumar maconha por puro prazer, sem precisar de recomendação médica â alguém lembra que para comprar pÃlula anticoncepcional exigia-se receita?  O parlamento na Colômbia, México, Argentina e Espanha também estão discutindo a legalização da maconha, o novo primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, já avisou que pressionará o congresso a lançar essa pauta, o Reino Unido também pretende entrar nessa onda.
O clima é radicalmente diferente da cultura dominante em 1998 quando aconteceu a última sessão especial da ONU para discutir o assunto, sob uma palavra de ordem totalmente delirante: âum mundo livre das drogas, nós podemos fazer istoâ.  Na época, a guerra à s drogas era a única polÃtica no radar, a Holanda era o paÃs dissidente e as coffee-shops consideradas coisa de holandeses exóticos â a audácia não se traduziu numa polÃtica pública realista. Até hoje eles fazem de conta que não veem o comercio ilegal, único caminho para a cannabis chegar aos bares.
Neste Ano Novo, em abril, os paÃses se reunirão em Nova York para uma nova sessão especial da ONU sobre drogas. Os EUA â sob pressão da opinião pública – cedeu à Rússia de Vladimir Putin o papel de comandante em chefe da guerra à s drogas, tendo como aliados a vanguarda do atraso em questões de comportamento, paÃses como China e Irã. A maioria dos governos ocidentais já se convenceu de que este não é o bom combate, mas são poucas as esperanças de mentes abertas arrancarem um consenso para mexer na convenção, assinada por todos os paÃses, proibindo o uso de drogas no mundo. âSerá a conferência da hipocrisiaâ, sintetiza a Economist.
Estima-se que existam 8 milhões de consumidores de maconha, a mais usada das drogas ilegais, mercado que gera negócios calculados em US$ 100 bilhões. à muito dinheiro circulando clandestinamente, sem pagar imposto e impulsionando máfias e crimes de sangue. Hipocrisia não vai adiantar para esconder o fracasso da guerra às drogas.

Hellen, mulher-rato, já pensou isso nos anos 60? Pena que eu era de menor…