O sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão
(Guimarães Rosa, em âSagaranaâ)
O aforismo da obra magistral de um dos maiores escritores brasileiros dita o ritmo, na aventura das grandes escolas de samba rumo à sustentabilidade. Setor que professa o jeito empÃrico de solucionar seus dilemas, o Carnaval aprende a valorizar as boas práticas pelo jeito mais duro: o da necessidade. A crise econômica e o aperto nos recursos para construir o espetáculo estão materializando soluções mais racionais e baratas, nos barracões da Cidade do Samba.
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosObrigados a se adaptar à s cruezas da vida desde o alvorecer da festa â um século atrás, lembre-se, o ritmo era proibido e perseguido pelos homens da lei â, os bambas se viram para tourear as limitações orçamentárias. Assim, o reaproveitamento de materiais, a adaptação de alternativos reinventados pelo talento cenográfico e a adoção de material sintético â mais barato â no lugar das peças originais transformam-se em prática crescente nos ateliês.
[g1_quote author_name=”Leandro Vieira” author_description=”Carnavalesco da Mangueira” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Numa festa que é vista à distância, não faz diferença. Usar as penas naturais é ostentação de quem quer mostrar dinheiro e poder. O problema está nas plumas de avestruz. Elas têm um movimento que as artificiais não reproduzem.
[/g1_quote]Muitos produtos utilizados na confecção de fantasias e alegorias são importados e, com a depreciação do real, precisam ser substituÃdos. Assim, a âbonitezaâ necessária para garantir a nota 10 e a exaltação do público rende-se à âprecisãoâ determinada pelo ziriguidum da economia. Copinhos de papel ganham pinturas para brilharem como adereços de alegorias; plástico-bolha, palhas de aço, buchas, rolhas e garrafas-pet entram no lugar de paetês, cristais e pedras. A banda toca adequada ao orçamento, no ritmo da recessão.
Nos padrões âLas Vegasâ do Carnaval contemporâneo, a folia tem muito pouco de brincadeira: um desfile, para disputar o tÃtulo, obriga a um gasto superior a R$ 8 milhões (falta aos números transparência, agenda sustentável ainda longe de ser cumprida pela tribo do samba). Em 2016, das 12 escolas do Grupo Especial, só duas contam com patrocÃnios além das subvenções comuns (que somam aproximadamente R$ 6,5 milhões). O Salgueiro recebeu R$ 3 milhões do dono de um terreiro de candomblé para seu enredo âA Ãpera dos malandrosâ. A Imperatriz Leopoldinense ganhou R$ 6 milhões para exaltar Zezé di Camargo e Luciano em âà o amor, que mexe com a minha cabeça e me deixa assim. Do sonho de um caipira nascem os filhos do Brasilâ. Exceções que confirmam a regra do aperto.
Mas, entre as muitas mágicas da grande festa brasileira, está a dos artistas que, quanto mais competentes são, mais economizam no seu show. Renato Lage, do Salgueiro, o melhor carnavalesco da atualidade, repete que o dinheiro da subvenção dá e sobra. Ele é um dos mestres na reinvenção dos materiais â este ano, vários carros alegóricos da escola têm estruturas plásticas, construÃdas com garrafas-pet e copinhos de café que, à distância, parecem milionárias. âNós nos acostumamos com orçamentos apertados e aprendemos a improvisarâ, confirma Renato. âO carnaval é a arte do possÃvel. Damos nosso jeito para realizar o projeto e levar a escola para a avenidaâ.
Quatro vezes campeão da festa, ele conviveu, durante vários anos, com o precursor sustentabilidade carnavalesca (quando o termo sequer existia): Joãosinho Trinta (1933-2011). O maior artista do espetáculo em todos os tempos conheceu a glória na Beija-Flor, mas se formou no Salgueiro de Fernando Pamplona (1926-2013), o cenógrafo e professor que liderou a revolução estética do desfile, a partir dos anos 1960. Na vermelho e branco tijucana, João assinou seu primeiro carnaval em 1974, sob o enredo âO rei de França na Ilha da Assombraçãoâ. Não havia dinheiro para grandes aventuras, e o gênio maranhense deu seu jeito: com tinta e purpurina, transformou forminhas de doces, daquelas usadas em festas de criança, no pano de fundo das alegorias. Brilho que conduziu a escola ao tÃtulo.
Quase meio século depois, Leandro Vieira duela com a falta de recursos para materializar o desfile em homenagem a Maria Bethânia, âA menina dos olhos de Oyáâ, da Mangueira. Conjugando talento e pragmatismo, escolheu a sustentabilidade num dos itens mais caros do atual cardápio de insumos da festa: as penas.
Para ornar fantasias de destaques e de composições dos carros alegóricos, as escolas utilizam plumas de avestruzes e a penugem de pavões, faisões e galos. Durante muitos anos, só aceitavam as naturais, numa salgada tirania da beleza. Uma única pena de faisão não sai por menos de R$ 150 nas boas lojas do ramo – e as escolas mais ricas utilizam até impressionantes 35 mil num desfile. Só a roupa de uma porta-bandeira leva de 4 mil a 6 mil âfaisõesâ, na nomenclatura de costureiros e aderecistas. Para fechar a conta, a solução está nas penas sintéticas, produzidas à imagem e semelhança do que oferece na natureza. âNuma festa que é vista à distância, não faz diferençaâ, assegura Leandro. âUsar a natural é ostentação de quem quer mostrar dinheiro e poderâ. O problema, para o carnavalesco, está nas plumas. âTêm um movimento que as artificiais não reproduzemâ, descreve Leandro, para infortúnio dos avestruzes.
Estilista com 20 anos de experiência, Alê Ferrier, da Beija-Flor, reza pela cartilha do carnavalesco mangueirense, mas com outra estratégia. Cuidadoso e detalhista, ele conserva as penas por vários carnavais, reutilizando-as nas opulentas fantasias da azul e branco de Nilópolis. âTemos faisões aqui de 2007 e até de antesâ, contabiliza ele, apontando penas ocre rajadas de preto, numa roupa pendurada no canto do ateliê, no quarto do barracão. âNem a chuva estraga. Com cuidado no armazenamento, para não mofar nem quebrar, dura vários anosâ, ensina, contando ter feito fantasias que consumiram R$ 1 milhão em penas, algumas de faisão albino, as mais caras â em torno de R$ 200 a unidade.
A pluma foi um must em folias passadas, mas hoje dorme no catálogo dos adereços vintage. Um de seus entusiastas, Alexandre Louzada, carnavalesco da Mocidade Independente, se diz âquase curadoâ de usar o item em excesso. âO carnaval virou um espetáculo teatral, com as fantasias se tornando figurinos sofisticadosâ, analisa ele, campeão por Mangueira, Vila Isabel e Beija-Flor. âHouve uma era de irracionalidade, motivada pela necessidade de ostentar, exibir riqueza. Passou. Hoje a conscientização tem aumentado, com uma racionalização dos gastos. O próprio júri avalia melhor desfiles com menos penas e plumasâ, comprova o artista plástico, mostrando os itens artificiais no estoque do barracão.
Na parte da produção, a imensa maioria das penas naturais é comprada em criadouros regulamentados, garante Vinicius Ferreira, zootecnista com década e meia de atuação no mercado. âNão existe crueldade com os animaisâ, referenda. âCom os faisões e pavões, as penas caem naturalmente; no caso dos avestruzes, as aves são criadas para produção comercialâ, acrescenta, explicando que o material sintético irá prevalecer âse o mercado quiserâ. Enquanto isso, as criações em cativeiro dão conta, preservando os animais que vivem na natureza.
Outras agendas, igualmente urgentes, seguem por serem cumpridas. Nos barracões e quadras, muitos funcionários operam maçaricos e utilizam colas e tintas, entre outros materiais tóxicos, sem a precaução necessárias de luvas, óculos e capacetes; as relações de trabalhos, na maioria das vezes, prescindem da formalização. A transparência na conta do dinheiro de patrocÃnios e subvenções tampouco vigora completamente.
A caminhada na direção das melhores práticas, ao menos, começou; mas ainda falta muito para a sustentabilidade ser campeã do carnaval.

Muito boa a matéria!!!! Ao mesmo tempo ela consegui ter dois aspectos : um de ser rica no conteúdo . No outro de ser Simples o entendimento. Esse duo bem harmonizado, se deu por conta da forma com q o escritor foi abordando Td e alinhavando de uma forma poética, real, fantasiosa e carnavalesca Tbm!!!!!
Pingback: Falta meio ambiente nesse samba – Bem Blogado