Eugênio Castro Prado é um cara de direita. Um liberal moderno, como ele mesmo prefere. Abre o seu jornal de domingo para saber o que anda na polÃtica. Vai nas colunas, pra não perder tempo. Uma defende o mercado, o lucro etc, mas, de repente, começa com uma conversa muito estranha sobre desigualdade e justiça social. Isso não, se revolta Eugênio. Vai na outra e ela também está do seu lado no mercado mas quer a expulsão de imigrantes, feministas e negros do paÃs. Hummm…talvez isso não acabe bem, reflete, ponderado, o liberal moderno. Essa gente tá toda errada, conclui.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]Toda a noite o software seleciona os fatos mais relevantes do dia anterior e os adapta ao gosto de cada leitor, sempre com o tom mastigadinho e indignado. Uma opinião customizada, no vocabulário contemporâneo.
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Veja o que já enviamosA esquerda sempre foi o lado de Elisa Manzi. âHay que endurecer…â, diz o pôster desbotado que guarda atrás do armário. Quando ela vai no blog progressista atrás das notÃcias que a grande imprensa esconde dá de cara com um artigo defendendo uma tal de âmudança de paradigmaâ. Que revisionismo absurdo, pensa Elisa. Outro artigo pede a estatização de toda atividade econômica e o envio dos burgueses para campos de reeducação na Amazônia. à uma boa ideia mas talvez não funcione. Esse povo é meio burro, conclui.
O que está havendo?
As colunas de polÃtica proliferam no mar de preguiça do leitor para ler as notÃcias. E, preguiça master, de interpretá-las: me expliquem o que tá acontecendo, clama o leitor estatelado no sofazão enquanto procura uma série nova no Netflix. Jornais, revistas e blogs investem em colunistas, que mastigam os acontecimentos com aquele tempero de indignação seletiva tão ao gosto do público atual. O problema é que, por mais antenado (ou puxa-saco) que um colunista seja, a mediunidade ainda não está ao seu alcance.
Como já percebemos, desde as tretas de 2013, as pessoas querem ver, ler e ouvir exatamente o que já têm na cabeça. Nem uma vÃrgula a mais ou a menos.
Aà está a oportunidade. O próximo passo.
Preciso registrar essa ideia.
à fácil descobrir como uma pessoa pensa. Não precisa de pesquisa ou qualquer esforço maior. Basta ir nas redes sociais e ler meia dúzia de posts. E se o cara não escreve nada, é um isentão de quatro costados? Basta ver o que ele curte e, principalmente, o que ele não curte. Em segundos, um computador compõe um perfil de personalidade de fazer psicanalistas e astrólogos babarem de inveja.
Surge então um novo colunista online. Vamos chamá-lo de Janval Pereitas. Uma campanha de marketing mostra como Janval é destemido e audaz, como diz a verdade doa a quem doer, expõe os fatos, mostra como âos polÃticosâ agem nos bastidores. Os publicitários podem até criar uma biografia para Pereitas, um âstorytellingâ, mostrando seu passado de repórter premiado, correspondente de guerras longÃnquas e autor de diversos livros censurados pelos âpoderososâ.
Para receber a coluna do Janval você só precisa se inscrever. Pelo Facebook, é claro.
Já existem softwares que produzem matérias jornalÃsticas, a questão é só adaptar essa produção ao gosto do freguês. Para Janval, coisa rápida.
Toda a noite o software seleciona os fatos mais relevantes do dia anterior e os adapta ao gosto de cada leitor, sempre com o tom mastigadinho e indignado de Janval Pereitas. Uma opinião customizada, no vocabulário contemporâneo.
A reforma da Previdência chega ao Congresso, por exemplo.
Eugênio está tomando seu café da manhã com sucrilhos enquanto procura avidamente a coluna do Janval no laptop. Ela nunca decepciona. âA reforma permitirá ao paÃs chegar ao primeiro mundoâ. O liberal moderno sorri, Pereitas continua: âserá um absurdo se os polÃticos não aprovarem uma reforma fundamental para nossa economia. O brasileiro, acostumado à indolência de Lula e Dilma, precisa se adaptar à s leis de mercado, ao mundo moderno, e no mundo moderno todos têm que deixar a preguiça de lado e trabalhar mais.â Castro Prado exulta: esse Janval não erra uma.
No iPad de Elisa toca o alerta: a coluna já está disponÃvel. Ela corre para ler: âAposentadoria em riscoâ. Ainda bem que existe o Janval para dizer a verdade, pensa Elisa. âMais uma vez os trabalhadores têm seus direitos ameaçados por esses polÃticos corruptos e fisiológicos, frutos da oligarquia reacionária que comanda o paÃs há quinhentos anosâ. Elisa sorri satisfeita: essa coluna acerta todas.
Quando fui registrar minha ideia de colunista virtual descobri que já tinham feito isso.
Há algum tempo.
