Esta campanha quer revolucionar suas compras de Natal

Segundo dados do Sebrae, hoje 95% das empresas no Brasil são pequenas ou micro. Foto de Jean-Pierre DEGAS / Prismapix

Post que viralizou nas redes sociais prega a valorização das pequenas empresas e dos artesãos

Por Adriana Pavlova | ODS 12 • Publicada em 30 de novembro de 2016 - 09:00 • Atualizada em 1 de dezembro de 2016 - 11:09

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Segundo dados do Sebrae, hoje 95% das empresas no Brasil são pequenas ou micro. Foto de Jean-Pierre DEGAS / Prismapix
Segundo dados do Sebrae, hoje 95% das empresas no Brasil são pequenas ou micro. Foto de Jean-Pierre DEGAS / Prismapix

Enquanto árvores de Natal tomam conta da paisagem, nas redes sociais, uma mensagem sugerindo um Natal de consumo consciente está fazendo bastante sucesso. O texto, em tom ativista, já viralizou no Facebook, Whatsapp, Instagram e Twitter, dizendo assim: “Para quem vai comprar seus presentes de Natal, vai aqui uma sugestão: comprem os presentes de pequenas empresas e autônomos. Da vizinha que vende por catálogo, de artesãos que fazem bijuteria ou boa arte, da amiga que tem uma loja no bairro, do pasteleiro/doceira que faz doces artesanais, do rapaz que tem uma banca no mercado, quadrinhos dos amigos que ilustram, vale corte de cabelo do salão de rua… 😉 Façamos o dinheiro chegar às pessoas comuns e não às grandes multinacionais. Assim haverá mais gente a ter um melhor Natal. Apoiemos a nossa gente! Se acha que é uma boa proposta, copie e cole no seu mural. #comprelocal #compredopequeno #compredequemfaz #economiacolaborativa

Os negócios que, de alguma forma, também geram impacto social estão em alta. Na hora de comprar, cada vez mais, as pessoas pensam num impacto que vai além do produto em si, levando em conta quem faz e como faz. Daí o sucesso de redes de artesãos e de comida feita por pequenos empreendedores.

Carla Teixeira
Gerente do Sebrae

A paulistana Sophia Lang, de 28 anos, é uma das pessoas que copiaram e colaram a proposta em seu mural no Facebook. A mensagem pipocou em sua timeline num momento em que ela, que curiosamente trabalha como gerente de produtos numa grande cadeia varejista, já vinha pensando mesmo em apostar em artesãos para as compras de Natal. A ideia começou a brotar no ano passado, quando sua irmã Olivia fez questão de escolher peças artesanais compradas na Jardim Secreto Fair para cada membro da família, na tradicional troca de presentes da ceia de Natal. Depois, ao longo do ano, a irmã, que é videomaker, criou um encontro de pequenos empreendedores, a Feira Polvo, também em São Paulo, que em dezembro chega à quarta edição, reunindo artistas, artesãos e experimentos musicais. A iniciativa fez com que Sophia passasse a frequentar com regularidade esse tipo de encontro, descobrindo mais vantagens em comprar dos pequenos produtores.

A Feira da Malha, que tenta estimular o consumo consciente, acontecerá no dia 3 de dezembro, em São Cristóvão. Foto Divulgação

“Eu normalmente tendo a ser mais prática, entrar num shopping e resolver todos os presentes de uma vez, mas fui vendo como é legal ter contato direto com os pequenos empreendedores, que têm de fato uma história para contar sobre seus produtos. Essas feirinhas com artesãos e donos de pequenos negócios acabaram se transformando em espaços de convívio, de trocas e encontros. Além disso, entre uma tranqueira de 20 reais que só vai encher a casa, prefiro escolher um bolo feito artesanalmente ou um vaso de plantas, que vão ser muito mais úteis para quem ganha o presente.”

Segundo dados do Sebrae, hoje 95% das empresas no Brasil são pequenas ou micro. Um número tão importante que, em 2015, o próprio Sebrae criou a campanha Compre do Pequeno, para ressaltar a importância de comprar dos pequenos produtores, sobretudo de quem está próximo da sua casa ou trabalho. Há, de acordo com o Sebrae, pelo menos quatro vantagens nisso: é perto de casa, movimentando o bairro; aquece um mercado que representa 52% dos empregos formais no país; o dinheiro fica no seu entorno; desenvolve a comunidade.

Além disso, segundo Carla Teixeira Panisset, gerente da área de Comunidade do Sebrae/RJ, hoje percebe-se com clareza a disposição do consumidor em prestigiar negócios que tenham um propósito maior do que simplesmente vender. “Os negócios que, de alguma forma, também geram impacto social estão em alta. Na hora de comprar, cada vez mais, as pessoas pensam num impacto que vai além do produto em si, levando em conta quem faz e como faz. Daí o sucesso de redes de artesãos e de comida feita por pequenos empreendedores.”

Apostar em iniciativas menores, mais delicadas, cria uma alternativa, dando sinais de sensibilidade. Estamos inseridos na economia querendo ou não, então apostar em lojas menores, em produções artesanais de verdade, é uma maneira de fazer essa roda do consumo girar diferente.

Pedro Luis
Músico

Apesar de não seguir à risca a tradição de dar presentes no Natal, o músico Pedro Luís também postou em seu mural do Facebook o texto da campanha por um fim de ano de 2016 com compras mais engajadas. Para ele, a criatividade é justamente uma das armas para fugir das padronizações do mundo globalizado capitalista. Pedro é um daqueles que gostam de prestigiar pequenas lojas próximas à sua casa. No Humaitá, bairro da Zona Sul carioca onde vive, frequenta a Mutações, loja-café de consumo responsável, e a Arkana, lojinha de decoração com objetos criativos:

“Procuro iniciativas que saiam do que está configurado, padronizado, porque o consumo em si é sedutor, inebria, incentiva o melhor de tudo, o mais novo, o mais caro como símbolo de empoderamento. Apostar em iniciativas menores, mais delicadas, no microcosmo, cria uma alternativa, dando sinais de sensibilidade. Uma ideia pequena que reverbera, quebra de uma forma interessante com o estado das coisas. Estamos inseridos na economia querendo ou não, então apostar em lojas menores, em produções artesanais de verdade, é uma maneira de fazer essa roda do consumo girar diferente”, diz o músico.

Na prática, para quem quiser fugir de grandes marcas ou shoppings, apostando nos pequenos fornecedores com produtos artesanais, não faltam eventos e feiras em diferentes lugares até as vésperas do Natal. Carla Teixeira, do Sebrae, cita, por exemplo, as feiras afros na região metropolitana do Rio, cujo crescimento chama a atenção entre 2015 e 2016. Das 16 feiras hoje existentes, apenas uma teve início há mais de dois anos. Nos dias 26 de 27 de novembro, a já tradicional Feira Preta de São Paulo desembarcou no Rio de Janeiro, mais precisamente na Praça Mauá e Museu de Arte do Rio, onde, das 9h30m às 22h, houve shows, venda de produtos e de comidas. Outra que segue a sintonia de atrair empreendedores e ainda estimular o consumo consciente é a Feira da Malha, dia 3 de dezembro, em São Cristóvão, também no Rio, que terá, entre outras atrações, uma troca de roupas, organizada pelo projeto Gaveta.

Homem vestido de Papai Noel: campanha propõe consumo consciente (Foto Jens Kalaene/AFP/dpa)

Depois de ser bombardeado em diferentes redes sociais pela mensagem de incentivo por um Natal com produtos de pequenos fornecedores, o professor carioca Miguel Angelo Rezende estendeu a ideia a um grupo de amigos que, há mais de 15 anos, troca presentes em dezembro, num amigo oculto cujo tema muda de ano a ano. Desta vez, todos se comprometeram em buscar lembrancinhas com uma pegada mais artesanal.

“Acredito que a maior parte dos presentes e até dos serviços de fim de ano pode ser adquirida por meio de economia colaborativa. Natal, antes de tudo, é uma festa cristã de encontros, não é só comércio”, diz o professor, que pretende dar uma solução caseira à saga dos presentes. “A vantagem de ter família grande é que sempre tem alguém que faz ou vende alguma coisa. Minha tia faz trabalhos em madeira, como molduras, minha cunhada prepara e vende porta-retratos e caixas de presente e, finalmente, minha irmã trabalha com bordados em tecido.”

Este ano, ao que parece, o Natal vai ser mais engajado e colaborativo.

Em 2015, o Sebrae criou a campanha Compre do Pequeno, para ressaltar a importância de comprar dos pequenos produtores. Foto Divulgação
Adriana Pavlova

Trabalhou durante 13 anos no jornal O Globo, de onde saiu em 2005 para morar em São Paulo. Foi setorista de dança na Folha de S. Paulo de 2007 a 2010 e colaborou regularmente com as revistas Época São Paulo e Exame. De volta ao Rio, é crítica de dança do Globo desde 2013. Em 2015 tornou-se mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da Escola de Comunicação da UFRJ.

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