1 – Manchetes dos jornais franceses
âHorrorâ, âA guerra em plena Parisâ, âCarnificina em Parisâ foram algumas das manchetes dos jornais franceses de ontem, no dia seguinte aos ataques terroristas que deixaram 129 mortos na capital francesa. Nossa reação é de espanto e não poderia ser diferente. O ressurgimento de movimentos separatistas e fundamentalistas, como o Estado Islâmico, que assumiu a autoria pelos atentados, não estava previsto no script da nossa sociedade moderna, construÃda a partir dos ideais do Iluminismo e da Revolução Francesa. Nas imagens da tragédia transmitidas pelo mundo todo pela TV e pela internet, nenhum resquÃcio do racionalismo do âSéculo das Luzesâ. Nada de liberdade, igualdade e fraternidade.
2 – A Guerra Fria e os projetos totalizantes
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Veja o que já enviamosO capitalismo, sistema econômico dominante que se estabeleceu a partir da ascensão da burguesia no inÃcio da Idade Moderna, sempre pretendeu ser global, totalizante, não local ou particular. Assim como o comunismo, a alternativa ao capitalismo que alimentou utopias no século XX. O marxismo, tal qual o liberalismo hoje predominante, era um projeto de poder universal, acima das nações ou de particularidades. Que o diga a Guerra Fria, que dividiu o mundo em dois polos opostos. Diferenças foram apagadas sob a força dos dois regimes. Mas ambos os projetos de poder falharam. Suas sequelas estão espalhadas e agora nos aterrorizam. Literalmente.
3 – Black é cool
Movimentos separatistas e fundamentalistas surgem como uma reação à globalização, reforçando tradições e regionalismos. à primeira vista, parece que tudo deu certo na aldeia global. âSe quisermos provar as cozinhas exóticas de outras culturas em um único lugar, devemos ir comer em Manhattan, Paris ou Londres, e não em Calcutá ou em Nova Delhiâ, observa o sociólogo Stuart Hall no livro âA identidade cultural na pós-modernidadeâ. Os mesmos sabores de hambúrgueres são customizados pelo Mc Donald´s em diferentes paÃses do Oriente e do Ocidente, sob os nomes de Mc Arabia, Mc Oriental, Mc Turco, Greek Mac e Mc Kebab. Costumes locais são incorporados e respeitados nos ingredientes destes sanduÃches, mas consumidos no melhor estilo fast food exportado pela multinacional. O estilo black â com o rastafári e os turbantes â deixa de ser caracterÃstico de grupos étnicos especÃficos e é homogeneizado, despolitizado e transformado em bem de consumo cool.
4 – Os ânão-lugaresâ
Nossas identidades, antes firmadas a partir de laços geográficos, hoje são moldadas pelo mercado de consumo global. Os hábitos culturais contemporâneos orbitam muito mais em torno das mensagens que recebemos pela TV e pela internet do que da nossa relação com o território. VÃnculos invisÃveis com os meios de comunicação que nos conectam ao resto do planeta, encurtando as distâncias, substituem os vÃnculos territoriais. Nas grandes metrópoles, a vida social está migrando cada vez mais dos centros históricos para os shoppings, ou seja, dos espaços historicizados para os desterritorializados, constata o antropólogo mexicano Néstor Canclini no livro âConsumidores e cidadãosâ. Shoppings, aeroportos, quartos de hotéis e cadeias de supermercado são iguais em qualquer canto do mundo, transformando-se em ânão lugaresâ, como o antropólogo Marc Augé os definiu. Nesses não-lugares, cartões de crédito e passaportes é que definem nossa identidade.
5 – As migrações
EstarÃamos então fadados a viver cada vez mais num mundo sem fronteiras e homogêneo que solapa as identidades nacionais e locais? Hall acredita que esse pensamento é simplista. Em reação ao movimento de globalização, identidades locais se reforçam numa posição defensiva. E isso tem acontecido tanto por parte dos grandes centros de poder, que exportam a cultura global, quanto pelas minorias que se sentem ameaçadas. Para escapar da pobreza, fome, guerras civis e de regimes opressores, pessoas menos favorecidas de todo o planeta migraram, e continuam migrando, para os paÃses-sÃmbolo da globalização, acreditando na mensagem do capitalismo global.
6 – O fundamentalismo europeu
E o que essas minorias têm encontrado quando chegam a esses paÃses? O âparquinho de diversõesâ fechado. Imagens de TV transmitem cenas de resistência e intolerância. à ao que se assiste em paÃses europeus como a Hungria, que está construindo um muro de quatro metros de altura que deverá prolongar-se pelos 175 quilômetros da fronteira com a Sérvia, para conter o fluxo de refugiados. âNo Reino Unido, a atitude defensiva produziu uma âinglesidadeâ reformada, um âinglesismoâ mesquinho e agressivo e um recuo ao absolutismo étnico, numa tentativa de escorar a nação e reconstruir uma identidade unaâ, constata Hall.
7 – Salman Rushdie, o homem âtraduzidoâ
Em resposta ao racismo cultural e à exclusão, comunidades excluÃdas têm seguido dois caminhos, aponta o sociólogo: a busca pela identificação com suas origens, contribuindo para a construção de fortes contra-etnias (como exemplo, Hall cita a juventude afro-caribenha, com a exaltação de sua origem e herança africana) ou o tradicionalismo cultural, a ortodoxia religiosa e o separatismo defendidos por setores mais extremistas da comunidade islâmica. O primeiro caminho seria o da âtraduçãoâ, conforme aponta outro sociólogo, Kevin Robins. O segundo seria o da âtradiçãoâ. As comunidades que são âtraduzidasâ são aquelas que retomam seus valores de origem, convivendo lado a lado com a cultura globalizada, cientes dos contextos históricos e polÃticos em que vivem. Essas pessoas retêm fortes vÃnculos com seus lugares de origem, mas não mantêm uma ilusão de retorno ao passado. Elas negociam com as novas culturas em que estão inseridas sem serem assimiladas por elas. Tornam-se âculturas hÃbridasâ, conforme conceitua Hall. Para ele, Salman Rushdie, autor de âVersos satânicosâ, livro que pôs a cabeça do escritor a prêmio no Irã, é um exemplo disso. Na obra, ele escreve sobre o profeta Maomé e o Islã, porém com a consciência de âhomem traduzido e exiladoâ (vivendo na Inglaterra).
8 – Os movimentos separatistas no leste europeu
Já as comunidades que perseguem a âtradiçãoâ acreditam que podem recuperar uma essência perdida. Como exemplos, Hall cita o ressurgimento do nacionalismo na Europa Oriental e o crescimento do fundamentalismo. Com o colapso da antiga União Soviética, movimentos separatistas alimentados tanto por ideias de pureza racial quanto de ortodoxia religiosa recrudesceram, como na Estônia, Lituânia e, mais recentemente, na Ucrânia. Mas os movimentos mais emblemáticos nesta direção são de islâmicos fundamentalistas, que buscam criar estados religiosos alinhados com as leis do Alcorão.
9 – Reza Pahlavi e o fundamentalismo no Irã
Analistas se dividem ao analisar o fenômeno, expõe Hall. Alguns enxergam nesses movimentos uma reação à globalização, calcada em valores ocidentais. Exemplo disso seria o fundamentalismo iraniano, uma resposta direta ao Xá Reza Pahlavi, que tentou adotar modelos e valores ocidentais naquele paÃs nos anos 1970, com o apoio dos EUA e Reino Unido. Com sua queda, em 1979, foi estabelecida no Irã uma república islâmica teocrática.
10 – Grupos extremistas
Outros analistas acreditam que o fundamentalismo se relaciona ao fato de paÃses que o abraçam terem sido deixados fora da globalização (o fundamentalismo é mais forte nos estados islâmicos mais pobres). Há ainda aqueles que atribuem tal ortodoxia ao fracasso dos estados islâmicos de construÃrem lÃderes modernos e partidos seculares, ou seja, estados laicos. âEm condições de extrema pobreza e relativo subdesenvolvimento econômico, a restauração da fé islâmica é uma poderosa força polÃtica e ideológica mobilizadora e unificadoraâ, pontua Hall. Sim, foi só à primeira vista que a globalização deu certo. Suas feridas estão por trás das cenas de horror em Paris.
