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âTemos algo puro [sem adição de outros compostos quÃmicos] que pode ser produzido em larga quantidadeâ, afirma o professor de quÃmica inorgânica Marcelo Oliveira Rodrigues, que atualmente está em missão cientÃfica para o projeto intitulado Materiais com Luminescência Persistente para Aplicação em Dispositivos Fotovoltaicos e Geração de Energia no Escuro, na Universidade de Nottingham, na Inglaterra, com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de NÃvel Superior (Capes). âJunto com o professor Daniel Zandonadi, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e o professor Jader Busato, da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da UnB, conseguimos entender como é o mecanismo dentro da planta, a rota bioquÃmica. Esse é um grande diferencial”, completa.
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Segundo Rodrigues, com a nova tecnologia, o grupo observou incremento nas taxas de fotossÃntese em cerca de 60% e aumento no lançamento de raiz, que é o crescimento de novos ramos nas laterais da raiz original, que varia conforme a cultura â no caso do tomate, em torno de 130% e no do cacau, 60%. âà um material de alta performance, leve e puroâ, aponta.
[g1_quote author_name=”Marcelo Rodrigues” author_description=”Pesquisador da UnB” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Fizemos testes de toxicidade em peixes, camundongos, bactérias, fungos, insetos, larvas. Nós conseguimos superar todos esses limites e hoje posso dizer que temos o bioestimulante mais potente do mercado
[/g1_quote]O professor destaca ainda que hoje a nanoagricultura está centrada no uso de nanomateriais a base de polÃmeros, óxidos metálicos, nanopartÃculas metálicas, como ouro e prata, que são tóxicos para a biota â conjunto de seres vivos â terrestre e aquática e bioacumulam (no caso de frutas, acumulam por três a quatro gerações), além de dificultarem o processo de escalonamento, que é a produção industrial.
Com o material produzido na Universidade de BrasÃlia, esses problemas ficam para trás. âAo longo dos anos, fizemos testes de toxicidade em peixes, camundongos, bactérias, fungos, insetos, larvas. Nós conseguimos superar todos esses limites e hoje posso dizer que temos o bioestimulante mais potente do mercadoâ, garante Marcelo Rodrigues.
Outro diferencial do novo produto é o volume que deve ser aplicado nas plantas: como se trata de material puro, a quantidade é muito menor que o habitual. Os biofertilizantes atualmente utilizados no mercado, segundo o docente, são uma mistura complexa, que engloba extrato de microalgas, micro e macronutrientes, aminoácidos. âNão se sabe exatamente o mecanismo de ação desses produtos, o que está ativando a fotossÃntese etc.â, conta. âPor outro lado, conhecemos todos os mecanismos de ação da nossa tecnologia e isso facilita na hora de fazer ajustes na formulação visando potencializar ainda mais os efeitos. à completamente diferente do que está sendo vendido. à revolucionárioâ, avalia o professor.
Trabalho em parceria
A nanopartÃcula foi desenvolvida nos laboratórios da UnB e validada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Quando escutou pela primeira vez as ideias de Marcelo Rodrigues, o pesquisador de solos e nutrição de plantas da Embrapa Hortaliças Juscimar da Silva viu a oportunidade de desenvolver algo único em conjunto com a equipe do IQ. âFalei, brincando, que tÃnhamos um produto que, diante de suas propriedades, era como um sol dentro da planta. Ele recebe a luz que a planta não utiliza para fazer a fotossÃntese e a emite naquele comprimento de onda de que ela precisa. E isso pode aumentar a eficiência fotossintéticaâ, explica Silva, que disponibilizou recursos de pesquisa do órgão e atuou ativamente junto ao grupo para desenvolver e atestar a tecnologia.
[g1_quote author_name=”Crime Rodrigues” author_description=”Doutoranda da equipe do Laboratório de Inorgânica e Materiais do Instituto de QuÃmica da UnB” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Nosso sonho é conseguir aumentar a produtividade de áreas desmatadas. Como temos experiência na área de engenharia de superfÃcie da nanopartÃcula e também conseguimos introduzir nutrientes nos alimentos, isso teria impacto significativo na erosão alimentar
[/g1_quote]Especialista na área, o pesquisador da Embrapa ressalta as qualidades do produto diante do que há no mercado. âAlém de funcionar ativando rotas metabólicas secundárias na planta que a ajudam a se desenvolver, com aumento de eficiência do uso da água, aumento da taxa fotossintética, e, obviamente, um uso mais eficiente de nutrientes, também funciona como um carreador de outros nutrientes, então pode trabalhar a melhoria da nutrição humana. Essa multifunção do produto talvez seja o grande diferencial dele no mercado, junto com a explicação do mecanismo de ação.â
Carime Rodrigues, doutoranda de apenas 24 anos de idade, integra a equipe do Laboratório de Inorgânica e Materiais Professor Gilberto Sá (Lima) do IQ, e vislumbra ainda outras possÃveis consequências positivas com a aplicação da tecnologia desenvolvida por eles. âNosso sonho é conseguir aumentar a produtividade de áreas desmatadas. Como temos experiência na área de engenharia de superfÃcie da nanopartÃcula e também conseguimos introduzir nutrientes nos alimentos, isso teria impacto significativo na erosão alimentarâ, projeta ela, que é bolsista da Capes. Erosão alimentar é o empobrecimento nutricional dos alimentos, que contam basicamente com carboidratos em sua composição.
âA ideia é enriquecer alimentos com micro nutrientes essenciais para o ser humano, como selênio, zinco. Reduzir um pouco a erosão alimentar e aumentar a nutrição humanaâ, completa Rogério Faria, que veio de Minas Gerais para cursar mestrado e doutorado na Universidade de BrasÃlia e tem bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento CientÃfico e Tecnológico (CNPq).
O grupo do IQ acrescentou micro e macro nutrientes no biofertilizante criado por eles, testou em plantações e viu resultado. âObservamos lançamento de raiz lateral, intensificação da clorofila (ficou mais verde)â, rememora Faria.
Com a validação da tecnologia pela Embrapa, o desafio passou a ser o escalonamento do que até então era apenas um experimento de bancada de laboratório. Assim nasceu a startup Krilltech, empresa pré-incubada desde 2018 no Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT) da UnB. Os sócios são todos do Instituto de QuÃmica da UnB: os professores Marcelo Oliveira Rodrigues e Marcelo Henrique, e os estudantes de doutorado AtaÃlson Oliveira, Rogério Faria e Carime Rodrigues.
As patentes estão escritas e em fase de depósito. O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações demonstrou interesse e está ajudando nesse processo. Somente após a conclusão, a empresa poderá ir atrás do registro para comercializar o biofertilizante inovador. âEssa tecnologia tem muito potencial para diversas áreas. Se nossa empresa der certo, vamos levar o nome da UnB para todos os lugares que conseguirmos alcançar, afinal a pesquisa foi toda desenvolvida aquiâ, afirma Carime Rodrigues. âAgora precisamos muito da ajuda da Universidade, porque buscamos um espaço para produzirâ, conta. Segundo ela, há especificidades em termos de legislação e alvará para a produção de fertilizantes.
Para dar continuidade aos trabalhos, o grupo vislumbra a possibilidade de usar algum local dos outros campi da Universidade, pois o Darcy Ribeiro é localizado no Plano Piloto, que é tombado e, por isso, há impedimentos para se ter uma fábrica de fertilizante. âNós produzimos em qualquer lugar, só precisamos do espaçoâ, assegura a estudante. âEsta é a empresa do futuroâ, afirma Marcelo Rodrigues.
Saúde humana
Há cerca de sete anos, o grupo do IQ iniciou os estudos com nanotecnologia. Entre 2014 e 2015, o foco era o combate ao câncer por meio de drug delivery, o carreamento de fármacos para o tratamento da doença. Carime Rodrigues desenvolveu o veÃculo, que seria o transporte da anfotericina B â antifúngico muito usado em casos de infecção hospitalar e de leishmaniose â por meio da nanopartÃcula em questão.
Segundo a pesquisadora, a anfotericina, como é usada hoje, é muito tóxica e os pacientes têm muitos efeitos colaterais, que também têm de ser tratados â e tudo fica muito caro no final. Ela aponta que, de acordo com estudos de 2016, o tratamento de um único paciente por duas semanas com esse antifúngico e outras medicações necessárias chega a custar R$ 350 mil para o Estado. âBatemos à porta do Ministério da Saúde, dissemos que tÃnhamos uma formulação menos tóxica e muito mais barata de anfotericina, que é com esse carreador, essa nanopartÃcula, mas precisamos de dinheiro, porque esses testes são caros e precisamos fazê-los em animais de médio porte e depois, em humanos. Mas a verba nunca chegou e isso faz anosâ, relembra ela.
âDesenvolvemos uma formulação que reduz o custo do fármaco para US$ 10. Se comparar, no mercado custa em torno de R$ 40 mil. Infelizmente não conseguimos chegar na parte dos testes em humanos, porque toda a parte de pré-clÃnico tem que seguir o protocolo da Anvisa e tem que ser com laboratório certificado. Ficamos frustrados porque não conseguimos recursos para avançarâ, conta Marcelo Rodrigues, orientador de Carime desde o mestrado.
Sem financiamento, os pesquisadores começaram a mudar o olhar sobre suas descobertas. âDiante da possibilidade de esse veÃculo carrear um fármaco, pensamos: por que não carrear micro e macro nutrientes para uma planta? Seria menos burocrático, pois a legislação é menos rÃgida no setor de fertilizantes. Então começamos a migrar esse veÃculo desenvolvido para aplicar na agriculturaâ, explica Rogério Faria. Assim decidiram fundar a startup KrillTech.
Mas atuar para aprimorar as condições da saúde humana ainda é um desejo do grupo, segundo Carime. âAinda é um sonho, porque ninguém tem dinheiro para investir, mas temos esse idealâ, admite. âTemos esse sonho muito forte de ver nossa pesquisa tendo impacto social e fazendo a diferença. Infelizmente investimento público é difÃcil. O andar da pesquisa já é lento e se for esperar investimento público, ela praticamente para.â
O professor Marcelo Rodrigues ressalta, porém, que para chegarem aos produtos que têm hoje e ao avanço tecnológico apresentado, contaram com financiamento público. âCapes, CNPq, FAP-DF foram fundamentais para que conseguÃssemos desenvolver as primeiras pesquisas, entender como tudo funcionava e, a partir daÃ, partÃssemos para o escalonamento de processo e para a produção como temos hojeâ.
*UnB Ciência – Secom/UnB
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”none” size=”s” style=”solid” template=”01″]86/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse perÃodo, a importância das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil
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