Quem acompanhou a cobertura da imprensa chinesa oficial â Xinhua, CCTV, Peopleâs Daily, China Daily, etc, todas estatais â sobre a Conferência do Clima em Paris, a COP-21, teve a nÃtida impressão de que o maior emissor de CO2 do planeta hoje é incansável defensor de um planeta mais limpo. Eu, que morei na China de 2004 a 2008 e acompanhei de perto todo o tipo de atrocidade climática possÃvel num paÃs que não se importa com o preço do desenvolvimento, desde que seus mais de 1 bilhão de chineses possam viver com mais dinheiro, duvidei de cara de tanto empenho.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Quando Mao inaugurou sua era comunista na China, uma das primeiras medidas foi proibir os enterros em caixões. E por quê? Porque não há madeira que dê conta de tanto caixão para enterro num paÃs de 1,3 bilhão de pessoas
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Veja o que já enviamosLi e reli na imprensa mundial o compromisso unilateral do paÃs com o que os chineses consideram tolerável em termos de redução do aquecimento global, meta estabelecida na virada do governo do ex-presidente Hu Jintao para o atual, Xi Jinping, quando eu ainda morava no paÃs: cortar a emissão de CO2, por unidade de PIB (Produto Interno Bruto, toda a riqueza produzida num paÃs), entre 60% e 65% em relação à s emissões de 2005, quando a China crescia a taxas anuais acima de 11%. Além disso, a China vem investindo pesado â US$ 89 bilhões, segundo bancos de investimento â em fontes renováveis de energia nos seus vários novos projetos de infraestrutura, indústria e energia por todo o paÃs. à um esforço louvável: o paÃs quer que essas fontes cheguem a 20% da matriz energética em 2030, ano em que a China alega que atingirá o pico de emissão de gases do efeito estufa.
Tá tudo muito bonito, tudo muito bacana, mas há controvérsias. Em primeiro lugar, é preciso destacar que o super poluidor carvão ainda representa cerca de 70% da matriz energética do paÃs. E apesar do compromisso assumido no encontro de cúpula da China com os EUA ano passado â os dois maiores poluidores do planeta, aliás -, a China não tirou do papel nenhum projeto de captura e armazenamento de carbono (CAC), que poderia ajudar o paÃs a reduzir o impacto de sua matriz energética imunda. Desde os anos 80, a China consome metade do carvão produzido no mundo.
A China, e de resto todos os paÃses pobres ou em desenvolvimento, como o Brasil, têm todo o direito a tornarem suas economias e populações prósperas. O problema não é o desenvolvimento ou a prosperidade. O problema é a forma como os paÃses querem chegar a esse patamar. Explorar os recursos naturais à exaustão não é sustentável. Consumir enlouquecidamente como forma de manter de pé uma economia, como pregam os EUA, não é sustentável. Quando Mao Zedong inaugurou sua era comunista na China, uma das primeiras medidas foi proibir os enterros em caixões e determinar a cremação como âdespedida fúnebre oficialâ, digamos. E por quê? Porque não há madeira que dê conta de tanto caixão para enterro num paÃs de 1,3 bilhão de pessoas. Alguém consegue imaginar a que ponto de exaustão o planeta vai chegar se os 1,3 bilhão de chineses e os 1,1 bilhão de indianos tiverem, todos, o mesmo padrão de consumo dos americanos? Todo mundo morando em McMansions no subúrbio e andando de SUV para cima e para baixo? Compra a TV, a TV quebra, o sujeito joga fora e compra outra? Isso não vai dar certo.
Eu entendo muito a preocupação do G-77 â um saco de gatos que reúne paÃses emergentes da América do Sul, Central, Ãfrica, Sudeste Asiático e Oriente Médio (China e Ãndia incluÃdos) â com o chamado âprincÃpio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas”, acolhido na Convenção do Rio de 1992, segundo o qual os paÃses desenvolvidos devem realizar mais esforços para reduzir emissões e ainda ajudar econômica e tecnologicamente os paÃses em desenvolvimento a fazerem o mesmo. Afinal, se o planeta chegou aonde chegou, foi porque lá atrás os paÃses enriqueceram destruindo seus recursos naturais de forma insustentável. Mas isso não tira dos membros do G-77 suas próprias responsabilidades.
Segundo um estudo de Harvard recentemente divulgado, a China emite hoje a mesma quantidade de CO2 que os EUA e a União Europeia juntos. Eu me lembro de dias em Pequim em que a poluição era tanta que os olhos ardiam e a cidade parecia tomada por um fog eterno. O consumo de carvão na China caiu ano passado, mas não está claro se a redução se deu por conta de mudança na matriz energética ou porque a economia simplesmente desacelerou. Então é aà que está o fator que fará toda a diferença: como a China planeja produzir a energia que turbinara seu crescimento no futuro? Na provÃncia de Gansu, o paÃs monta o que é considerado o maior parque de geração de energia eólica do mundo. à sensacional, mas segundo o Climate Action Tracker â uma colaboração entre vários institutos de pesquisas climáticas â, não é suficiente e o esforço do paÃs para reduzir suas emissões é taxado apenas como âmedianoâ.
A COP-21 terminou com as promessas de sempre. Faltam metas claras e verificáveis. Sem isso, tudo não passa de um momento de boas intenções muito, mas muito alienado para a catástrofe climática que se avizinha.
