Ao dizer que âo maior inimigo do meio ambiente é a pobrezaâ, o ministro Paulo Guedes conseguiu fazer a fala errada, no lugar errado e no momento errado. Não conquistou ninguém e ainda recebeu crÃticas dos ricos, dos pobres e dos ambientalistas.
Há várias maneiras de interpretar as palavras do ministro da economia do Brasil. Primeiramente, dando crédito à s suas intenções, poderÃamos imaginar que ele estava fazendo uma defesa da âCurva ambiental de Kuznetsâ e da importância do desenvolvimento econômico para o progresso da humanidade.
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Ou seja, na pré-modernidade, antes do processo de urbanização, industrialização, modernização da agricultura e do uso generalizado dos combustÃveis fósseis, a crescente população rural tinha de desmatar amplas áreas verdes para ampliar as áreas de cultivo (geralmente de baixa produtividade) e utilizar a lenha como combustÃvel para preparar a comida, aquecer os domicÃlios, movimentar as bombas hidráulicas, etc.
Já a economia urbano-industrial, ao utilizar energia extrassomática fóssil e produtos quÃmicos como fertilizantes e agrotóxicos, aumentou a produtividade agrÃcola, melhorou os meios de transporte e viabilizou a concentração da população em cidades, evitando o espraiamento demográfico sobre as áreas florestais.
Na perspectiva da âCurva Ambiental de Kuznetsâ, o desenvolvimento econômico só causaria grandes problemas ambientais em suas etapas iniciais. Porém, a partir de um certo limiar, o aumento da renda per capita e da educação levaria à uma maior proteção ambiental. Logo, altas doses de desenvolvimento e riqueza seriam a receita perfeita para erradicar a miséria e salvar a natureza. Esta visão dourada dos benefÃcios cornucopianos do desenvolvimento econômico veio à tona na mesma época do Consenso de Washington e permaneceu em voga na época áurea do neoliberalismo e da hegemonia global do poder unipolar dos Estados Unidos.
Por conseguinte, a fala do ministro Guedes, feita de uma maneira um tanto quanto tosca, poderia querer refletir uma visão de mundo de 30 anos atrás, que associava a degradação ambiental à pobreza e relacionava a salvação ambiental à s etapas mais ricas da produção urbano-industrial. Este tipo de ideologia desenvolvimentista foi compartilhada por amplos espectros polÃticos, mas com a diferença que as forças de direita defendiam um desenvolvimento com base na dinâmica do mercado e as forças de esquerda um desenvolvimento sustentado nos aparatos do Estado.
Não obstante, a elite econômica e polÃtica global reunida no Fórum Econômico Mundial (WEF) de Davos, na SuÃça, já descartou, na lata de lixo da história, essa visão idÃlica do desenvolvimento. A 50ª reunião anual do Fórum Econômico Mundial reconheceu os danos causados pelo desenvolvimento econômico e afirmou que os problemas ambientais são a preocupação número um do mundo. O “Relatório de Riscos Globais 2020“, publicado no dia 15/01/2020, trouxe, pela primeira vez, os temas ambientais em todos os cinco pontos de atenção para os governos e os mercados.
O documento sobre os riscos globais ouviu 750 especialistas e tomadores de decisão que chamaram a atenção para cinco riscos ecológicos que podem transformar o mundo nos próximos dez anos, iniciando uma rota para um colapso ambiental catastrófico: 1) Eventos climáticos extremos, como enchentes e tempestades; 2) Falhas nos combates à s mudanças climáticas; 3) Perda de biodiversidade e esgotamento de recursos; 4) Desastres naturais, como terremotos e tsunamis; 5) Desastres ambientais ââcausados pelo ser humano.
Nas comemorações dos 50 anos do WEF,  o fundador, Klaus Schwab, disse que o Fórum iria levar em consideração o âefeito Greta Thunbergâ. E a ambientalista adolescente sueca mostrou que está muito mais antenada nos problemas do mundo do que o ministro da economia brasileiro. Em um discurso admirável e de repercussão internacional, ela defendeu o fim imediato do uso dos combustÃveis fósseis e emissões zero de CO2, para evitar uma catástrofe ecológica que colocaria em perigo o futuro das novas gerações.
Greta Thunberg deixou claro que a maior responsabilidade pela crise climática e ambiental é dos paÃses desenvolvidos e ricos que emitiram a maior quantidade de gases de efeito estufa e estabeleceram um padrão de consumo conspÃcuo que é incompatÃvel com a capacidade de carga da Terra. Sem embargo, ela não fez apologia da pobreza e nem transformou os paÃses pobres em simples vÃtimas. Ela disse: âOs paÃses ricos necessitam zerar as emissões o mais rápido possÃvel e ajudar os paÃses pobres a fazer o mesmoâ.
Ao contrário da visão anacrônica de Paulo Guedes, Greta Thunberg sabe que são os ricos que mais contribuÃram para as emissões de CO2 do passado, portanto, são os principais âinimigos do meio ambienteâ. Mas ela também sabe que, no século XXI, são os paÃses de renda média e baixa (os paÃses em desenvolvimento) que mais emitem CO2 atualmente, como mostrei no artigo âCrescimento demoeconômico e emergência climáticaâ aqui no Projeto #Colabora.
A visão de que apenas os paÃses ricos deveriam ser responsabilizados pelo corte de emissões de CO2 fazia parte da filosofia do Protocolo de Kyoto. A filosofia do Acordo de Paris é que todos os paÃses (ricos e pobres) devem dar as suas contribuições, tendo como meta reduzir as emissões pela metade até 2030 e zerar as emissões totais de CO2 até 2050. Evidentemente, os paÃses ricos devem ajudar os paÃses pobres a fazer a transição para uma economia de baixo carbono, com aportes de dinheiro e tecnologia.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]Artigo publicado na revista Science mostra que havia 6 trilhões de árvores no mundo no passado. Mas a humanidade destruiu a metade das florestas desde o crescimento exponencial da população e da economia. O número de árvores no mundo hoje em dia está em torno de três trilhões de unidades e os seres humanos estão destruindo 15 bilhões de árvores por ano, enquanto o aparecimento de novas árvores e o reflorestamento é de somente 5 bilhões de unidades. O déficit anual é de 10 bilhões de árvores.
[/g1_quote]Além disto, é preciso sequestrar carbono da atmosfera pois a concentração de CO2 chegou a 411 partes por milhão (ppm) e o nÃvel seguro para evitar um aquecimento global catastrófico é 350 ppm. A maneira mais fácil, ecologicamente correta e mais barata de capturar carbono é pelo plantio de árvores e pelo fim do desmatamento. Mas o mundo caminha em direção contrária.
Artigo publicado na revista Science (Bastin et. al. 05/07/2019) mostra que havia 6 trilhões de árvores no mundo no passado. Mas a humanidade destruiu a metade das florestas desde o crescimento exponencial da população e da economia. O número de árvores no mundo hoje em dia está em torno de três trilhões de unidades e os seres humanos estão destruindo 15 bilhões de árvores por ano, enquanto o aparecimento de novas árvores e o reflorestamento é de somente 5 bilhões de unidades. O déficit anual é de 10 bilhões de árvores.
Contudo, o ministro Paulo Guedes, em sua barafunda mental, também responsabilizou a pobreza pelo desmatamento porque os pobres âprecisam comerâ e, ainda, disse que os paÃses ricos âjá destruÃram suas florestasâ. Talvez ele tenha pretendido dizer que qualquer paÃs que queira se tornar uma nação rica e com segurança alimentar precisaria reduzir a cobertura vegetal para matar a fome de sua população.
Todavia, o maniqueÃsmo entre pobres e ricos não se sustenta diante dos dados. Existem paÃses ricos â como Finlândia, Suécia e Japão â que possuem mais de dois terços do território ocupados por florestas, enquanto, por exemplo, o Haiti, o paÃs mais pobre da América Latina, destruiu quase toda a sua rica mata nativa e o Brasil tem cerca 50% do território coberto por florestas, segundo dados da Universidade de Maryland.
Mas o Brasil permanece na rota da destruição, pois para atingir um nÃvel de desenvolvimento mediano, destruiu 90% da Mata Atlântica, mais de 50% do Cerrado, quase toda a Mata de Araucária e continua sua marcha insensata rumo à destruição total dos biomas. A bola da vez é a maior floresta tropical do mundo. Nos tempos do regime militar o desmatamento da Amazônia foi incentivado e apoiado pela abertura de estradas e o lema: âLevar os homens sem-terra, para as terras sem homensâ.
Durante a preparação para a primeira Conferência Mundial sobre o Homem e o Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, em 1972, o General Costa Cavalcante, Ministro do Interior e representando o governo, proferiu um discurso claramente antiecológico: “Para a maioria da população mundial, a melhoria de condições é muito mais uma questão de mitigar a pobreza, dispor de mais alimentos, melhorar vestimentas, habitação, assistência médica e emprego, do que ver reduzida a poluição atmosférica” (Alves e Martine, 2017).
O atual governo brasileiro tem defendido este antigo tipo de polÃtica que submete a preservação ambiental aos interesses do desenvolvimento econômico. A Amazônia está sendo destruÃda pela ganância da busca dos ganhos econômicos do desenvolvimento, tendo como linha de frente da destruição ecológica o crescimento das cidades, as hidrelétricas, as madeireiras, o garimpo, a mineração, as plantações de soja, a expansão da pecuária, a pesca predatória, a especulação com as terras, a grilagem, etc.
à neste contexto que se encaixa a fala do ministro Paulo Guedes no Fórum de Davos. Ele reproduziu uma visão desatualizada de desenvolvimento, justificando a destruição ambiental em função de atender as necessidades dos pobres. Mas nem o grande capitalista mais tacanho cai mais nesta esparrela. No Acordo de Paris, o Brasil prometeu reduzir o desmatamento da Amazônia que estava em 4,6 mil km2 em 2012 e passou para 9,8 mil km2 em 2019, segundo dados do PRODES do INPE.
Indubitavelmente, o Brasil, se quiser, tem soberania para destruir a sua parte da Amazônia, pois a própria ONU estabelece que o desenvolvimento é um direito dos povos. Só que o resto do mundo também tem soberania para não investir e não comercializar com o paÃs caso as condições mÃnimas de sobrevivência ambiental não sejam respeitadas.
E o Fórum Econômico Mundial não comprou o discurso de Paulo Guedes, que falou no vazio ao reproduzir um discurso antiquado, deixando transparente que não leu o “Relatório de Riscos Globais 2020”, pois disse coisas erradas no lugar e no momento errado. Quase ninguém acredita que a âCurva Ambiental de Kuznetsâ possa explicar a situação do caos climático global atual. Nem os ricos, presentes na charmosa cidade dos Alpes SuÃços, tem coragem de colocar a culpa da crise ecológica sobre os ombros dos pobres.
Não que o Fórum de Davos esteja na vanguarda da luta ambiental. Como disse a garota sueca, no último dia do evento: “TÃnhamos várias demandas. Obviamente elas foram totalmente ignoradas. Mas já estávamos esperando por isso”.
O fato é que Paulo Guedes e o governo brasileiro representam o passado da época da contraposição entre desenvolvimento e meio ambiente, o Fórum Econômico Mundial representa o presente da âmaquiagem verdeâ, da conciliação e da procrastinação das ações ambientais reais e Greta Thunberg representa o futuro da luta global pela defesa da natureza e da sobrevivência das novas gerações.
Referências:
ALVES, JED. MARTINE, G. Population, development and environmental degradation in Brazil. In: LENA, P. ISSBERNER, LR. Brazil in the Anthropocene: conflicts between predatory development and environmental policiesâ, Londres, NYC, Routledge, 2017
https://www.chapters.indigo.ca/en-ca/books/brazil-in-the-anthropocene-conflicts/9781138684201-item.html
ALVES, JED. Crescimento demoeconômico e emergência climática, Colabora, 07/12/2019
https://projetocolabora.com.br/ods13/crescimento-demoeconomico-e-a-emergencia-climatica/
BASTIN et. al. The global tree restoration potential, Science, Â Vol. 365, Issue 6448, pp. 76-79, 05 Jul 2019: https://science.sciencemag.org/content/365/6448/76
HANSEN et. al. Global Forest Change, University of Maryland, 2020
http://earthenginepartners.appspot.com/science-2013-global-forest
Thunberg.: Our house is still on fire and you’re fuelling the flames, WEF, Davos, 21/01/2020
https://www.weforum.org/agenda/2020/01/greta-speech-our-house-is-still-on-fire-davos-2020/
WEF. The Global Risks Report 2020, Davos, 15/01/2020
https://www.weforum.org/reports/the-global-risks-report-2020
