Dados divulgados pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) indicam que o desmatamento no Cerrado atingiu 491 mil hectares no primeiro semestre de 2023, área sete vezes maior que a cidade de Salvador, um aumento de 28% em relação ao mesmo perÃodo no ano passado. Dessa área devastada, 402 mil hectares (82%) estão em propriedades privadas – e os estados do Matopiba, a fronteira agrÃcola composta por áreas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauà e Bahia, responderam por 74,7% de todo o desmatamento no bioma, cerca de 367 mil hectares.
Leu essa? Desmatamento no Cerrado sobe 25% no último ano de Bolsonaro
Os dados são SAD Cerrado (Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado) – monitoramento mensal e automático desenvolvido por pesquisadores do IPAM com imagens de satélites ópticos do sensor Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia – e apontam também que o desmatamento nos últimos meses tem sido caracterizado por grandes áreas suprimidas rapidamente dentro de propriedades privadas. Grandes propriedades concentraram 48% (ou 193 mil hectares) do desmatamento ocorrido dentro de áreas privadas nesse primeiro semestre de 2023, seguido por propriedades médias (33%, por volta de 133 mil hectares) e pequenas (19%, 76 mil hectares).
Durante o perÃodo da seca, a expansão agropecuária tende a aumentar devido à s condições climáticas propÃcias para as atividades agrÃcolas. No entanto, os Ãndices de desmatamento no Cerrado estão alcançando nÃveis recordes já nos primeiros meses da estação seca deste ano
Ao contrário da Amazônia, onde a grande maioria do desmatamento (geralmente em torno de 70%) ocorre em áreas públicas de floresta sem destinação, no Cerrado, o desmatamento vem crescendo exatamente nas propriedades privadas. O bioma também tem outra caracterÃstica diferente da Amazônia: a área fora de reserva legal â e portanto passÃvel de desmatamento legal â é de 80%. Apenas 20% do bioma está protegido. âO Cerrado é mais difÃcil de fiscalizar porque tem que checar se cada desmatamento é autorizadoâ, explicou o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, durante a apresentação dos dados do Inpe sobre desmatamento feito pelo Ministério do Meio Ambiente.
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosO Deter – sistema de detecção imediata de desmatamento desenvolvido pelo Inpe com base em imagens de satélites para informar o Ibama – também registrou aumento no desmatamento do Cerrado no primeiro semestre, de 21%, um pouco menor que os 28% constatados pelo SAD Cerrado do Ipam. Essa alta preocupa os pesquisadores porque a temporada de seca no bioma, quando o desmatamento costuma ser maior, ainda está no começo. âDurante o perÃodo da seca, a expansão agropecuária tende a aumentar devido à s condições climáticas propÃcias para as atividades agrÃcolas. No entanto, os Ãndices de desmatamento no Cerrado estão alcançando nÃveis recordes já nos primeiros meses da estação seca deste ano”, afirmou a geógrafa Tarsila Andrade, analista do instituto, na apresentação dos dados.
Campeões de desmatamento
De acordo com o SAD Cerrado, o municÃpio de São Desidério, no oeste da Bahia, liderou o ranking de desmatamento no bioma no primeiro semestre de 2023, seguido por Balsas, no sul do Maranhão, e Correntina, também na Bahia: os três municÃpios, juntos, totalizaram 51,5 mil hectares desmatados. âNos últimos meses, temos visto um aumento da expansão do agronegócio em diferentes regiões do Matopiba, onde também estão concentrados os últimos grandes remanescentes de vegetação nativa do Cerrado”, destacou a pesquisadora Fernanda Ribeiro, também do Ipam. MunicÃpios da Bahia e do Maranhão ocupam 8 das 10 primeiras posições do ranking de desmatamento nos primeiros seis meses do ano.
Apesar do domÃnio de São Desidério, que liderava os relatórios mensais desde fevereiro, o mês de julho foi marcado por um novo lÃder para a lista de maiores derrubadores de Cerrado: Mirador, no sul do Maranhão. O municÃpio maranhense havia desmatado apenas 3,5 mil hectares entre janeiro e maio, mas seus números dispararam, chegando a 6 mil hectares perdidos apenas no mês passado, um aumento de 188,5% em 30 dias. “O aumento repentino do desmatamento em Mirador pode ser parcialmente explicado pela expansão agrÃcola em direção aos últimos remanescentes, juntamente com outros fatores locaisâ, acrescentou Fernanda Ribeiro. O crescimento do desmatamento no municÃpio acompanha um aumento das detecções de novas áreas abertas na região sul do Maranhão, que liderou o ranking em junho, com 45,7 mil hectares desmatados: no mês, 6 dos 10 municÃpios que mais perderam vegetação nativa estão no Maranhão.
O destruição nesses campeões de desmatamento segue as caracterÃsticas de todo o Cerrado. Em São Desidério, municÃpio lÃder de desmatamento no primeiro semestre de 2023, apenas 30 grandes propriedades foram responsáveis pelo desmatamento de 18,2 mil hectares â cerca de 76% de tudo que foi desmatado pelo municÃpio no semestre. Em Mirador, cidade que mais desmatou o Cerrado em junho deste ano, 68% de todo o desmatamento se concentrou em apenas 20 propriedades. “Esse aumento evidencia a intensidade e velocidade do processo de destruição do bioma. Por isso é fundamental o estabelecimento de polÃticas e ações efetivas que visem à proteção e preservação do Cerrado, considerando seus ecossistemas únicos, a biodiversidade e o papel crucial que desempenham na mitigação das mudanças climáticasâ, enfatizou a pesquisadora Tarsila Andrade.
