(Luciana Constantino*) – As mudanças climáticas foram a principal causa das chuvas extremas que atingiram municÃpios de Minas Gerais em janeiro de 2020, resultando em cenários de devastação. A conclusão é de um estudo publicado na revista cientÃfica Climate Resilience and Sustainability. De acordo com a Defesa Civil de Minas, quase 60 pessoas morreram nos temporais.
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Usando modelagem climática para a região, a pesquisa mostrou que os efeitos da industrialização e do aquecimento global aumentaram em 70% a probabilidade de ocorrer precipitação em volumes muito acima do esperado quando comparado a cenários com temperatura média entre 1°C e 1,1°C mais baixa.
O trabalho também quantificou os danos no estado: mais de 90 mil pessoas ficaram temporariamente desabrigadas e houve pelo menos R$ 1,3 bilhão (US$ 240 milhões) em perdas computadas pelos setores público e privado. Os maiores prejuÃzos foram em infraestrutura pública (R$ 484 milhões), moradias (R$ 352 milhões) e comércio/serviços (R$ 290 milhões). Do total, 41% podem ser atribuÃdos à s mudanças climáticas induzidas pelo homem.
A publicação do artigo acontece na semana seguinte à divulgação do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) que foi enfático: os impactos das alterações do clima, com “inequÃvoca” influência humana, já estão afetando todas as regiões da Terra, com eventos extremos ocorrendo mais rápido, de modo generalizado e intensificado.
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Veja o que já enviamosNo inÃcio de 2020, a região Sudeste do Brasil registrou enchentes e deslizamentos provocados por chuvas intensas, que resultaram em danos de infraestrutura e até mortes. O evento foi decorrente de uma combinação da intensificação da zona de convergência do Atlântico Sul (SACZ) com o surgimento do ciclone subtropical de Kurumà (KSC) também sobre o Atlântico, contribuindo para o aumento da umidade em toda a região.
Em Minas, a capital, Belo Horizonte, teve o janeiro mais chuvoso da história. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o municÃpio registrou 935,2 milÃmetros (mm) de precipitação naquele mês, o que representa quase o triplo da média esperada para o perÃodo. Do volume total, 320,9 mm foram acumulados em apenas três dias. à época, pelo menos 58 mortes foram relacionadas com as inundações e os deslizamentos de terra.
âNossa avaliação traz novos insights sobre a necessidade e urgência de ações sobre mudanças climáticas, pois já estão impactando efetivamente a sociedade na região Sudeste do Brasil. (…) Isso exige melhorias imediatas no planejamento estratégico com foco na mitigação e adaptação. A gestão e as polÃticas públicas devem evoluir a partir do modus operandi de resposta a desastres, a fim de prevenir outros no futuroâ, escrevem os pesquisadores no trabalho, que teve apoio da Fapesp.
A pesquisa é parte de um workshop realizado pela Parceria para Serviços de Ciência do Clima (CSSP, na sigla em inglês), organização liderada pela cientista Sarah Sparrow, da Universidade de Oxford (Reino Unido).
O projeto é uma colaboração entre instituições do Reino Unido e do Brasil, no qual estão incluÃdos o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e a Universidade de São Paulo (USP).
Promovido on-line entre novembro e dezembro de 2020, em parceria com a cientista Liana Anderson, do Cemaden, o workshop tratou do método chamado âatribuição de eventosâ, que usa a ciência para avaliar as ocorrências climáticas e atribuir causas a elas.
Dois grupos de pesquisadores trabalharam paralelamente na análise das chuvas extremas em Minas Gerais. Um se concentrou na avaliação da influência das mudanças climáticas nas chuvas, enquanto o outro quantificou os impactos na população. Por fim, os trabalhos foram integrados no artigo publicado.
âA colaboração intensa com pesquisadores de áreas interdisciplinares permitiu que fosse realizado um trabalho de alto nÃvel em poucos meses com resultados consistentesâ, destaca Ricardo Dal’Agnol pesquisador na Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Inpe e primeiro autor do artigo.
Chuvas no sudoeste de Minas
O modelo climático utilizado para atribuição foi o Hadley Center Global Environmental Model versão 3-A (HadGEM3-A), com simulações de eventos extremos de tempo e clima.
Dois experimentos foram conduzidos para traçar cenários: um utilizou apenas forças externas, como a variabilidade na irradiância solar e atividades vulcânicas naturais, fixadas em nÃveis de 1850 (era pré-industrial), e o segundo considerou, além das causas naturais, também a ação humana (antropogênica) com dados atuais.
Segundo o último relatório do IPCC, a temperatura média do planeta atualmente é 1,1°C maior que a observada no perÃodo 1850-1900. Essa fase pré-industrial é usada como base para representar a temperatura antes da interferência humana, que elevou as emissões de gases de efeito estufa, como o CO2 e o metano.
Para avaliar a precipitação, os pesquisadores usaram o Clima Hazards Group InfraRed Precipitation with Station Data (CHIRPS), um banco de dados que incorpora imagens de satélite a informações de estações locais para criar séries temporais de chuva para análise de tendência e de monitoramento.
Já as informações sobre desastres, incluindo dados por municÃpio, tipo, causa e danos, foram extraÃdas do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD). Nesse sistema, membros da Defesa Civil ou de órgão governamental local preenchem formulário especÃfico com as ocorrências dos desastres até dez dias após o registro.
âDestacamos a importância de ter sistemas integrados de informação de desastres, como o S2iD brasileiro, que veicula informações valiosas e oportunas permitindo quantificar os impactos de eventos extremosâ, ressaltam os autores.
A área do estudo ficou focada no sudeste de Minas, subdividida em 12 mesorregiões, com 194 municÃpios. O estado conta com 853 cidades no total. âAs mesorregiões mais afetadas foram a metropolitana de Belo Horizonte, Vale do Rio Doce e Zona da Mata. Juntas, foram responsáveis por 91% das perdas econômicas públicas e 93% das privadas, além de concentrar 91% da população deslocada. Também apresentaram os números mais preocupantes em relação à s vulnerabilidades a desastres de moradores e moradias em áreas de riscoâ, conclui o estudo.
Os cientistas destacam ainda que, embora as chuvas tenham sido extremas com influência das mudanças climáticas, a falta de planejamento de gestão de risco urbano, sem estratégias de mitigação e com investimento deficitário em infraestrutura, pode ser chave e ampliar os impactos para os moradores.
âO evento provavelmente afetou de forma desproporcional a população mais pobre da região, que vive em situações de alto risco, como em áreas com topografia Ãngreme e más condições de habitação. Portanto, interpretamos os impactos desse evento como um desastre climático construÃdo socialmente.â
Por isso, sugerem que estudos futuros venham a investigar os efeitos de eventos climáticos extremos sobre populações pobres e vulneráveis. âPesquisas futuras também podem abordar as interações cada vez mais complicadas de aspectos humanos, econômicos e polÃticos dentro dos sistemas ecológicos.â
Segundo DalâAgnol, a modelagem criada para analisar o caso das chuvas de Minas pode ser aplicada para outras regiões. âUtilizamos cenários do modelo, dados da chuva observados por satélites e identificamos as probabilidades. Seguindo a metodologia é possÃvel fazer para outros eventos. Quando pesquisamos, localizamos poucos estudos de extremos climáticos no Brasil. Precisamos de mais estudos como esse para identificar as regiões mais vulneráveis à s mudanças climáticas no paÃs, mostrar isso para os governantes e, assim, termos polÃticas públicas para prevenção de futuros desastresâ, explica.
*Luciana Constantino é jornalista com experiência em cobertura nas áreas de sustentabilidade, desenvolvimento humano, ciência e polÃtica. Foi editora-executiva no jornal âO Estado de S.Pauloâ, trabalhando em São Paulo e na Sucursal de BrasÃlia.Â
