*Esta reportagem sobre as chuvas no Rio Grande do Sul está disponÃvel em Libras neste link e no final do texto
Vivenciar um desastre, mesmo com acesso a informações e alertas, é algo difÃcil e desesperador. Agora, imagine estar diante de tempestades intensas e enchentes sem o básico de notÃcias, sem saber para onde ir ou quais as melhores formas de se proteger. âComo fazemos para chamar a polÃcia, a defesa civil? Não têm canais de contato para que tenhamos segurançaâ, afirma Francine Pedrotti, presidente da Sociedade dos Surdos de Caxias do Sul (SSCS). Assim como a maioria das pessoas no Rio Grande do Sul, Francine se sentiu assustada e foi impactada pelo desastre ambiental que já deixou mais de 80 mortos e afetou mais de 1 milhão de pessoas no estado.
Leu essa? Desmatamento e avanço de áreas urbanas agravaram desastre climático no Rio Grande do Sul
A falta de acessibilidade nos comunicados da Defesa Civil, do governo estadual, dos jornais e dos diversos canais de informação, impõe uma barreira comunicativa que compromete a compreensão das informações por pessoas com deficiência. A ausência de interpretação e tradução na LÃngua Brasileira de Sinais (Libras), por exemplo, faz com Francine tenha dificuldade em receber alertas e notÃcias importantes sobre a crise climática que o estado atravessa, o que contribui para a vulnerabilidade dos cerca de 617 mil surdos que vivem no Rio Grande do Sul (segundo dados do Censo de 2010, último com dados disponÃveis sobre essa população).
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Veja o que já enviamosâO uso de legenda escrita nos pronunciamentos do governador Eduardo Leite é muito diferente de ter uma intérprete fazendo a tradução na nossa lÃnguaâ, aponta a presidente da SSCS. Francine explica: mesmo que uma boa parte dos surdos entenda o português, essa não é sua lÃngua principal, o que dificulta a compreensão, principalmente de textos longos. Isso ocorre porque, enquanto o português é uma lÃngua oral/auditiva, a Libras é visual e expressiva, ou seja, toda a construção de frases e sentidos se altera.
Alguns surdos disseram que estavam dormindo e não foram acordados, eles perceberam quando estavam molhados e levantaram assustados. Por que eles não tinham a informação antecipada?
Também morador de Caxias do Sul, Andrei Borges é um dos criadores do canal Visurdo, onde produz conteúdos sobre a comunidade surda ao lado da irmã Tainá Borges. Ele conta que só começou a perceber a gravidade do desastre a partir de imagens na TV na quarta-feira, 1° de maio. Ambos, Andrei e Francine não tiveram contato com qualquer previsão meteorológica acessÃvel que indicasse a chegada das fortes chuvas que atingiram o RS.Â
âNós somos cidadãos, pagamos impostos como qualquer um. Sabemos que Caxias tem uma central de intérpretes, mas o prefeito não chama para divulgar juntoâ, reclama o produtor de conteúdo sobre os comunicados da prefeitura municipal sobre o desastre. Segundo Andrei, não adianta que o poder público possua intérpretes, como é o caso da cidade da serra gaúcha, se não os chama para dar comunicados e alertas em um momento de calamidade pública.Â
Apesar de não ter sido afetada diretamente pela tragédia, Francine menciona a preocupação com outros membros da comunidade surda, tanto de Caxias do Sul, como de outras cidades. âAlguns surdos disseram que estavam dormindo e não foram acordados, eles perceberam quando estavam molhados e levantaram assustados. Por que eles não tinham a informação antecipada?â, questiona.
A partir da deficiência na cobertura da crise climática e da necessidade de entender o que estava acontecendo, Francine recorreu ao grupo de intérpretes da C&D, empresa que presta serviços de tradução e interpretação de Libras para empresas de Caxias do Sul. Foi então que uma equipe de voluntárias começou a selecionar algumas das principais informações e produzir vÃdeos com janela de LÃngua de Sinais.
Mobilização para traduzir informações emergenciais
Uma das colaboradoras da C&D e professora da Escola Especial Helen Keller, instituição administração pelo municÃpio e estado que conta com profissionais bilÃngue e atua na educação para surdos na serra gaúcha, Andrelise Gonçalves Sperb viu a mensagem de Francine e decidiu começar a se mobilizar e chamar outras intérpretes para ajudar. âEnquanto ouvinte, precisamos pensar nessa minoria que são os surdos e eles precisam ter acessibilidadeâ, ressalta Andrelise.
Também intérprete e professora, Jailza dos Santos Martins foi uma das primeiras a iniciar o processo de tradução das principais notÃcias e alertas. Ainda assim, ela menciona a dificuldade de ter que fazer uma seleção em um momento tão crucial. âComo eu seleciono o que eu passo e não passo? Eu deveria passar tudoâ, lamenta. Inicialmente, as profissionais priorizaram informações sobre Caxias do Sul e região, depois, a ação também se estendeu para outras cidades fortemente atingidas, como é o caso da capital Porto Alegre, onde vivem cerca de 80 mil pessoas surdas.
Estamos enfrentando uma crise climática, uma tragédia no Rio Grande do Sul com milhares de pessoas fora de casa, e não temos conteúdo jornalÃstico com audiodescrição e janela de Libras
Os vÃdeos traduzidos são publicados na página do Instagram da C&D e divulgados em grupos de WhatsApp da comunidade surda. âA gente sente a falta de comunicação junto com eles e entendemos a necessidade de pessoas que têm condições de fazer esse trabalhoâ, conta Grasiele Pavan, outra das profissionais envolvidas na iniciativa. A entrevista com Andrei e Francine foi mediada por elas e Aline Cardoso da Silva, mãe do Andrei e da Tainá e intérprete de Libras.Â
Aline aponta o fato de que muitos familiares de pessoas surdas não são fluentes em Libras, o que dificulta inclusive a comunicação cotidiana, o que dirá em momentos de desastres, quando existem termos técnicos que precisam ser adaptados para a LÃngua de Sinais. âQuase todos os momentos da minha vida eu sou intérprete e sou mãe, quase nunca posso fazer só o meu papel como mãe em nenhum lugarâ, revela ela, que atua também em uma faculdade local.
O problema da falta de acessibilidade em notÃcias, porém, não surgiu com as chuvas e enchentes. Segundo a presidente da Sociedade dos Surdos de Caxias do Sul, a luta por inclusão é antiga e atravessa muitos outros dilemas e espaços. âOnde está o intérprete para a maioria dos surdos quando vão acessar os serviços de saúde? Tem a tradução para português, mas é muito diferenteâ, destaca Francine, que também critica o uso de avatares para tradução, justamente pela falta de contexto e expressões faciais, algo essencial na dinâmica da LÃngua de Sinais.
Existem leis, mas falta fiscalização e vontade
âAs pessoas precisavam pensar em como alguém com deficiência sensorial – visual, auditiva, motora e mental – faz para ter acesso a essas informações e se salvar em um momento de catástrofe?â, enfatiza Marco Bonito, professor da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) – que há cerca de 13 anos pesquisa sobre acessibilidade comunicativa e a importância de eliminar barreiras, como a falta de Libras e audiodescrição (descrição de imagens e cenas de um vÃdeo em áudio).
âEstamos enfrentando uma crise climática, uma tragédia no Rio Grande do Sul com milhares de pessoas fora de casa, e não temos conteúdo jornalÃstico com audiodescrição e janela de Librasâ, aponta Caroline Andrades, jornalista e mestre em Comunicação e Indústria Criativa pela Unipampa. Desde 2017, ela pesquisa sobre formas de tornar conteúdos sobre clima acessÃveis. Além das pessoas surdas, outras minorias sociais e pessoas com deficiência também sofrem de forma mais intensa os efeitos das enchentes no Rio Grande do Sul, da crise climática e da ausência de acessibilidade em sua cobertura.
Em relação a isso, Marco comenta que momentos de crise evidenciam problemas sociais e, no caso das mudanças climáticas, revelam a desigualdade social. âA gente percebe que essas pessoas (com deficiência) são quem primeiro vão entrar em vulnerabilidade e ter mais dificuldade de sobreviver em meio a essas catástrofes. Então, o jornalismo precisa ser acessÃvel, é algo que não é mais negociável, tem que ser acessÃvel, porque o papel do jornalismo é promover cidadaniaâ, complementa o pesquisador.
Desde 2015 a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) estabelece o acesso à comunicação e informação como direitos básicos das pessoas com deficiência. Além disso, desde 2002 existem orientações sobre como tornar conteúdos televisivos, por exemplo. Na prática, são poucos os conteúdos que seguem essas normas. âA legislação existe e não é colocada em prática porque não há fiscalização, e a fiscalização tem que ser feita pelos poderes públicosâ, afirma Marco Bonito. Na visão dele, a principal resposta que a sociedade gaúcha pode dar após o desastre atual é passar a escolher polÃticos que defendem questões ambientais e sociais, como a acessibilidade.
Clima acessÃvel
âà muito triste olhar um alerta meteorológico da defesa civil, estadual e federal, sem nenhuma acessibilidade. à muito triste ver um vÃdeo do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) sem nenhuma acessibilidadeâ, aponta Caroline Andrades. Em sua pesquisa de mestrado, ela produziu vÃdeos informativos sobre assuntos relacionados a clima com acessibilidade, como conteúdos sobre ciclones extratropicais e os fenômenos El Niño e La Niña. âA narrativa dos boletins da previsão do tempo são extremamente visuais: alerta para essa mancha em amarelo do mapa – quais são as cidades? Na maioria das vezes não há uma descrição dos mapas, o que além de ajudar pessoas cegas, também poderia ter um papel didáticoâ, complementa a pesquisadora. A seguir, um dos vÃdeos feitos por Caroline sobre os fenômenos La Niña e El Niño com audiodescrição e Libras..
Além dos telejornais e comunicados oficiais, outro problema observado por Caroline é a falta de descrição alternativa em publicações nas redes sociais. âNem nos alertas da Defesa Civil do RS nas redes sociais há texto alternativo. Isso é muito grave, pois exclui as pessoas cegas de um alertaâ, explica. Segundo a jornalista, existem formas relativamente simples de tornar conteúdos e narrativas acessÃveis, como a inserção de descrições e legendas, para além da janela de Libras e audiodescrição.
âà necessário contextualizar como o aquecimento do planeta afeta as pessoas, como isso impacta no bolso, na saúde, nos alimentos e, principalmente, não esquecer que as pessoas com deficiência sensorial também têm o direito de consumir esses conteúdosâ, afirma Caroline. Na opinião de Francine Predotti, o trabalho das intérpretes voluntárias representa um exemplo de esperança para alcançar justamente uma mudança na consciência dos governos e da sociedade.
Esta reportagem e as entrevistas foram produzidas com a ajuda das intérpretes Jailza dos Santos Martins, Aline Cardoso da Silva, Andrelise Gonçalves Sperb, Grasiele Pavan e Aline da Silva.
