Em seu discurso na Cúpula para um Novo Pacto Financeiro Global, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cobrou mudanças na governança global para o enfrentamento da crise climática. âSem mudar as instituições, a questão climática vira uma brincadeira. Quem é que vai cumprir as decisões emanadas dos fóruns que fazemos?â, afirmou o presidente brasileiro.
Não é possÃvel que, numa reunião entre presidentes de paÃses importantes, a palavra desigualdade não apareça. A desigualdade salarial, de raça, de gênero, na educação, na saúdeâ¦
Em tom contundente, Lula defendeu a criação de uma governança global para a ação climática, questionou a atuação de instituições multilaterais e cobrou mais responsabilidade dos paÃses desenvolvidos no combate à s desigualdades, além de criticar as exigências ambientais apresentadas pela União Europeia para o acordo com o Mercosul â classificadas como âameaça a um parceiro estratégicoâ.
O presidente falou por cerca de 20 minutos (veja discurso aqui) ao lado do anfitrião, o presidente francês Emannuel Macron, no evento que se propôs a âelaborar um sistema de financiamento mais justo e inclusivo para combater desigualdades e a crise climáticaâ. âVamos ser francos: quem cumpriu o Protocolo de Quioto? Quem cumpriu as decisões da COP15 em Copenhague? Quem cumpriu o Acordo de Paris? Não se cumpre porque não tem governança mundial com força para decidir as coisas e a gente cumprirâ, declarou Lula, muito aplaudido.
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Veja o que já enviamosA defesa de uma nova governança global para o clima foi parte de uma crÃtica mais ampla. Segundo Lula, o sistema multilateral erguido no pós Segunda Guerra Mundial ânão funciona maisâ e é ultrapassado para as demandas do mundo contemporâneo. Citando diretamente instituições como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial do Comércio e mesmo o Conselho de Segurança da ONU, o presidente afirmou que as organizações âdeixam muito a desejarâ. âNão podemos continuar com instituições funcionando da maneira equivocadaâ, afirmou, para logo após defender que a ONU precisa voltar a ter representatividade e força polÃtica internacional.
Ãnfase na desigualdade
Reforçando discurso que tem feito em outras ocasiões, inclusive, na véspera, no festival Power Our Planet, evento paralelo à Cupula de Paris, Lula sustentou que o enfrentamento à s mudanças climáticas e à desigualdade precisam caminhar necessariamente juntos. âNão é possÃvel que, numa reunião entre presidentes de paÃses importantes, a palavra desigualdade não apareça. A desigualdade salarial, de raça, de gênero, na educação, na saúde⦠Estamos em um mundo cada vez mais desigual, com a riqueza concentrada na mão de menos genteâ, pontuou, afirmando que as duas agendas precisam ter âa mesma prioridadeâ.
A fala de Lula joga luz em um tema que vem há tempos sendo sinalizado pelo IPCC (Painel do Clima da ONU), especialistas e organizações da sociedade civil: a dimensão social da emergência climática. Via de regra, os mais afetados são aqueles que menos contribuÃram para o problema e as mudanças climáticas são um importante vetor de aprofundamento das desigualdades existentes. O presidente cobrou ações mais efetivas das potências mundiais, tanto em relação ao clima como no combate à pobreza e à desigualdade. âPrecisamos parar de, internacionalmente, fazer proselitismo com recursos. Precisamos dar salto de qualidade e fazer investimentos em coisas estruturantes que mudem a vida nos paÃsesâ, disse.
Na semana passada, não custa lembrar, a conferência do clima de Bonn quase implodiu e teve como um dos pontos de maior polêmica o debate sobre o financiamento climático. A promessa não cumprida dos paÃses ricos de destinar US$ 100 bilhões por ano (agora, US$ 300 bilhões) para ação climática nos paÃses mais pobres foi lembrada â e cobrada. Hoje, no evento em Paris, Macron anunciou que os paÃses chegaram a um acordo e irão cumprir a promessa.
CrÃtica ao acordo União Europeia/Mercosul
Lula criticou duramente as exigências apresentadas na chamada âcarta adicionalâ (side letter, que agregou alguns pontos ao texto inicial) apresentada pela União Europeia para o fechamento de acordo comercial com o Mercosul. Segundo apurou o OC, a carta foi recebida como um acinte à soberania do paÃs pela diplomacia brasileira, que já prepara uma contraproposta. A União Europeia, por seu turno, já esperava a reação e parece disposta a negociar até que se chegue a um meio termo.
O nó reside nas sanções previstas em caso de não cumprimento das exigências ambientais e climáticas feitas às cadeias produtivas das exportações. As sanções seriam uma forma de vincular os compromissos assumidos no acordo, que começou a ser preparando ainda no governo Bolsonaro.
Lula, no entanto, considera que a previsão de sanções é injusta (muitos paÃses europeus não vêm cumprindo suas metas climáticas e tem, inclusive, reaberto usinas de carvão diante da crise de combustÃveis) e desrespeita o princÃpio da confiança que deve reger relações entre os paÃses. âNão é possÃvel que tenhamos uma parceria estratégica e haja uma carta adicional fazendo uma ameaça a um parceiro estratégicoâ, criticou. O presidente afirmou que o paÃs apresentará uma resposta para que se inicie a discussão para resolver o imbróglio.
O presidente convocou, ainda, os cerca de 40 lÃderes internacionais presentes para a COP30, a ser realizada em Belém em 2025, e destacou a realização da Cúpula Regional sobre a Amazônia, no próximo mês de agosto. O evento reunirá autoridades dos paÃses amazônicos e pretende elaborar uma proposta conjunta para ser apresentada na próxima Conferência do Clima, em Dubai. âQueremos fazer um patrimônio não apenas de preservação ambiental, mas também um patrimônio econômico para ajudar os povos que moram na florestaâ, disse, afirmando que em 2030 irá convidar o mundo a ir à Amazônia com desmatamento zero.
