As concentrações de gases de efeito de estufa na atmosfera atingiram novos recordes em 2023, o que âcondena o planeta a muitos anos de aumento das temperaturasâ, alertou a Organização Meteorológica Mundial (OMM) ao divulgar seu Boletim Anual de Gases de Efeito Estufa, lançado pela entidade na 2ª feira (28/10). Os nÃveis dos três principais gases com efeito de estufa que contribuem para o aquecimento global â dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) â voltaram a aumentar no ano passado.
Leu essa? Alguns paÃses do G20 estão reduzindo emissões de CO2. Outros, não
A agência da ONU constatou que o CO2 está se acumulando mais rapidamente do que nunca na atmosfera, com um aumento de mais de 10% em duas décadas: o dióxido de carbono contribui para 64% do aquecimento global e provém principalmente da queima de combustÃveis fósseis. âMais um ano. Mais um recorde. Isto deveria fazer soar o alarme entre os tomadores de decisões polÃticas. Estamos claramente atrasados em relação ao objetivo estabelecido no Acordo de Paris sobre o Clima de 2015â³, afirmou a secretária-geral da OMM, a meteorologista argentina Celeste Saulo, durante a apresentação do relatório.
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Veja o que já enviamosEm 2015, no Acordo de Paris, os paÃses concordaram em limitar o aquecimento global a menos de 2°C acima dos nÃveis pré-industriais, e até a 1,5°C, se possÃvel. No entanto, os pesquisadores mostram uma realidade oposta. Em 2023, as temperaturas globais em terra e no mar já foram âas mais elevadas de que há registoâ, com os nÃveis de dióxido de carbono a registarem um aumento de 151% em relação aos nÃveis pré-industriais, ou seja, antes de 1750.
Foram também medidas 1.934 partes por mil milhões de metano e 336,9 partes por mil milhões de óxido nitroso, os outros dois gases responsáveis pelo aquecimento global, com nÃveis que representam um aumento de 265% e 125%, respetivamente, em relação à era pré-industrial. Enquanto as emissões continuarem, os gases com efeito de estufa vão continuar se acumulando na atmosfera, aumentando as temperaturas, lamenta a OMM, que divulga o seu relatório duas semanas antes do começo da próxima conferência das Nações Unidas sobre o clima (COP29), que vai ser realizada entre 11 e 22 de novembro em Baku, no Azerbaijão.
A organização alerta que o aquecimento pode desencadear retroalimentações climáticas que são “preocupações crÃticas” para a sociedade, como incêndios florestais mais intensos, que liberam mais carbono â as queimadas no Pantanal e na Amazônia são exemplos recentes. “Esses números são mais do que simples estatÃsticas. Cada parte por milhão e cada fração de aumento na temperatura tem um impacto real em nossas vidas e em nosso planetaâ, destacou Celeste Paulo.
O relatório reitera que a última vez que a Terra teve uma concentração de dióxido de carbono comparável à atual foi entre três e cinco milhões de anos atrás, quando a temperatura era dois a três graus mais quente e o nÃvel do mar era 10 a 20 centÃmetros mais alto do que é hoje.
A agência meteorológica da ONU adverte que, mesmo que as emissões fossem rapidamente reduzidas a zero (ou seja, atenuadas por fenómenos de absorção como as florestas), seriam necessárias décadas para o clima da Terra voltar reduzir os nÃveis atuais de temperatura, devido à longa permanência do CO2 na atmosfera. âOs incêndios florestais podem libertar mais emissões de carbono para a atmosfera, enquanto o aumento da temperatura dos oceanos pode reduzir a sua capacidade de absorção de CO2, o que pode levar a uma maior acumulação de CO2 na atmosfera e acelerar o aquecimento globalâ, afirmou a cientista norte-americana Ko Barrett, secretária-geral adjunta da OMM.
PaÃses não cumprem compromissos assumidos
O relatório serve como complemento para o relatório divulgado pelo Pnuma (Programa da ONU para o Meio Ambiente) na quinta-feira (24/10), que mede as emissões anuais de GEE. No caso da OMM, o foco é quanto dessas emissões permanecem concentradas na atmosfera. O Relatório de Lacunas para as Emissões 2024 (EGR, na sigla em inglês para Emissions Gap Report), lançado anualmente, mostrou que as emissões de gases de efeito segue aumentando, mesmo que em ritmo mais lento do que em 2015.
Segundo o estudo do Pnuma, as metas climáticas atualmente assumidas pelos paÃses (NDCs) levariam â se cumpridas â a um aquecimento de 2,6ºC a 2,8ºC. As polÃticas atualmente implementadas, entretanto, nos colocam no trilho de um aquecimento âcatastróficoâ, de 3,1ºC até o final deste século, nas palavras de António Guterres, secretário-geral da ONU, na abertura do evento que lançou o relatório.
âA próxima Conferência do Clima da ONU, a COP29, aciona o relógio para que os paÃses entreguem novos planos climáticos nacionais, ou NDCs [Contribuições Nacionalmente Determinadas, a meta de cada paÃs para o Acordo de Paris], até o próximo ano. Os governos concordaram em alinhar esses planos à meta de 1,5ºC, o que significa que devem reduzir todas as emissões de gases de efeito estufa , em toda a economia e estimulando progressos em todos os setoresâ, afirmou Guterres na ocasião.
