(Alicia Lobato* – Glasgow) –  A jovem indÃgena Walelasoetxeige Paiter Bandeira SuruÃ, mais conhecida como  Txai SuruÃ, única brasileira a discursar na abertura da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), está sendo perseguida por bolsonaristas dentro e fora do evento, sobretudo nas redes sociais. Ela, que ainda terá uma agenda na Suécia após deixar Glasgow, na Escócia, nesta sexta-feira (12), já receia pelo retorno ao Brasil, pois teme pela própria segurança.
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Nascida na Terra IndÃgena Sete de Setembro, em Rondônia, a jovem é filha de duas lideranças historicamente perseguidas na Amazônia Ocidental: o lÃder indÃgena Almir Narayamoga Suruà e a indigenista Ivaneide Bandeira Cardozo, fundadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé.
Txai SuruÃ, de 24 anos, disse em seu discurso no dia 1o. de novembro na COP26, assistido pelo premiê britânico Boris Johnson: âos povos indÃgenas estão na linha de frente da emergência climática, por isso devemos estar no centro das decisões que acontecem aqui. Nós temos ideias para adiar o fim do mundoâ.
Em outro ponto conclamou: âvamos frear as emissões de promessas mentirosas e irresponsáveis; vamos acabar com a poluição das palavras vazias, e vamos lutar por um futuro e um presente habitáveisâ. A voz de Txai Suruà ecoou no mundo.
No dia 3 de novembro, o presidente Jair Bolsonaro incitou seus apoiadores na saÃda do Palácio da Alvorada, dando as coordenadas para os ataques contra a jovem. âEstão reclamando que eu não fui para Glasgow. Levaram uma Ãndia para lá, para substituir o Raoni, para atacar o Brasil. Alguém viu algum alemão atacando a energia fóssil da Venezuela? Alguém já viu atacando a França porque lá a legislação ambiental não é nada perto da nossa? Ninguém critica o próprio paÃsâ, disse.
Os comentários que se seguiram a Txai Suruà questionam quem custeou sua viagem à COP 26, o fato dela ter falado seu discurso em inglês e até mesmo por usar vestimentas parecidas com as âdos indÃgenas americanosâ.
âEles [os bolsonaristas] realmente são uma quadrilha, se articulam para atacar as pessoas. Eu estou recebendo muitas mensagens de ódio, muitas mensagens misóginas, muitas mensagens racistasâ, afirmou Txai Suruà à Amazônia Real . Segundo ela, depois que Bolsonaro lhe atacou publicamente, o grupo de seus seguidores, no mundo virtual e também em Glasgow, na Escócia, tem transmitido recados jocosos e pesados.
à reportagem, a mãe de Txai, Ivaneide Bandeira, disse que os adornos na jovem indÃgena para seu discurso na COP26 foram feitos especialmente pelos tios Mopiri e Agamenon e o traje foi o pai que lhe deu. O vestido foi dado de presente a Almir por um lÃder indÃgena peruano.
Universitário de Direito, Txai Suruà é coordenadora do Movimento da Juventude IndÃgena de Rondônia, é representante da Guardians of the Forest â uma aliança de comunidades que protege as florestas tropicais ao redor do mundo -, é conselheira da Aliança Global âAmplificando Vozes para Ação Climática Justaâ, é voluntária da organização Engajamundo, e foi representante de seu povo na Conferência do Clima da ONU â COP25, em Madri. Faz parte do Conselho Deliberativo do WWF-Brasil e do setor jurÃdico da organização Kanindé, em Rondônia.
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Veja o que já enviamosMas a jovem afirma que está enfrentando essas ameaças com calma e lembrou: em 2011, segundo ela, sua famÃlia foi protegida pela Força Nacional de Segurança por ameaças de morte. Ela relata que os ataques vinham de todos os lados, até mesmo pela Fundação Nacional do Ãndio (Funai), pois o pai, Almir SuruÃ, constantemente criticava a agenda anti-indÃgena do órgão que foi reformulado no governo Bolsonaro. E sua mãe, Ivaneide Bandeira, mais conhecida como Neidinha, teve que sair de Rondônia devido à s ameaças de morte.
Em maio do ano passado, a PolÃcia Federal abriu inquérito contra Almir Suruà a pedido do presidente da Funai, delegado da PF Marcelo Xavier, pelo fato do lÃder indÃgena âcriticar o governoâ. A medida teve grande repercussão por causa da tentativa de intimidação contra Almir Suruà e o inquérito foi arquivado. Além de Almir, também foram alvo da PF Sônia Guajajara, coordenadora da Articulação dos Povos IndÃgenas Brasileiros (Apib).
âNascemos indÃgena, já passamos pelo preconceito, pelo racismo, por tudo. E aà é claro que em algum momento da minha vida já passei por alguns ataques e ainda mais porque nossa realidade lá no território é de ameaça. Muito piores do que essas que recebo na internet são as ameaças diretas nas nossas vidasâ, afirmou, com firmeza a futura advogada SuruÃ.
A jovem lÃder também sofreu crÃticas de apresentadores da Rema TV, em Rondônia. âCom relação a ida dela [à COP26]. Qual é o benefÃcio que ela vai trazer da tribo dela e para os indÃgenas do Brasil? O que ela falou sobre a nação indÃgena? Eles precisam de amparo, precisam evoluir (â¦) Ou foi lá fazer polÃtica? Aà vai ser criticada, pois não tem jeito!â, disse Moisés Cruz, que expôs o desconhecimento sobre a liderança de Txai Suruà e sua participação na COP26.
Txai Suruà confirmou à Amazônia Real que tem horas que sente o peso dos ataques misóginos e racistas por parte dos bolsonaristas. âÃs vezes, é um pouco pesado porque eu estou vindo aqui falar da voz dos povos indÃgenas, levar a nossa realidade e, principalmente, travar uma luta pela vida, não só dos povos indÃgenas mas pela vida de todo mundo, pela vida do planeta. E aÃ, em contrapartida, eu estou recebendo mensagens de ódio por minha luta. à muito pesadoâ, desabafou.
Txai disse que os pais dela ficaram preocupados, especialmente quando a organização do evento entrou em contato com ela, em busca de saber se a jovem precisava de algo. Mas como eles têm passado pela mesma situação, junto com o receio veio também o apoio.
âMeu pai [Almir SuruÃ] falou: âà minha filha, é assim mesmo, você está conseguindo levar a mensagem do nosso povo pro mundo e quando fazemos isso, tem muita pessoas que admiram, tem muita mas tem muitas que vão falar palavras ruins, que não vai gostar mesmo, mas, siga firme porque você é uma guerreira da pazâ, ele falou para mim, e a minha mãe falou a mesma coisa, que era para eu continuar com a minha fala de esperançaâ, contou a jovem ativista.
Entidades indÃgenas reagem aos ataques
Em resposta aos ataques a Txai SuruÃ, a Coordenação das Organizações IndÃgenas da Amazônia Brasileira (Coiab), divulgou nota de apoio à jovem indÃgena, onde afirma que âO ataque direto através de ameaças a Txai Suruà representa o contexto da erosão dos direitos indÃgenas que lamentavelmente o Brasil vive sob comando do atual governo. à preciso reconhecer a contribuição dos defensores indÃgenas em questões ambientais para o fortalecimento da democracia brasileiraâ.
âRepudiamos o racismo, a misoginia e a covardia daqueles que atacam e ameaçam Txai Suruà e tantas outras lideranças indÃgenas que erguem suas vozes. O direito a ter nossas falas respeitadas faz parte de nossa luta. Esses ataques e ameaças não ficarão impunes, não nos intimidam e jamais irão nos calar!â, diz a Coiab.
A delegação de 40 indÃgenas da Apib tem ouvido recados como ânão falem mal do Brasilâ. Eles também relataram que não foram bem vindos. Um desses ataques foi filmado por diversas pessoas no espaço brasileiro das organizações civis, o Brazil Climate Hub. No fim de um painel, um apoiador do presidente Jair Bolsonaro iniciou uma live em uma rede social e disparou ataques à s pessoas presentes que saÃam do evento. Dizia frases como âbrasileiros falando mal do Brasilâ e âchega de ativismoâ.
A liderança indÃgena Alessandra Korap, do povo Munduruku, chegou a responder alguns comentários e teve o ataque direcionado a si, onde o homem não identificado questionou o fato de estarem âmisturando polÃtica e meio ambienteâ, os seguranças do evento precisaram intervir e pedir para o homem sair do local.
Para os membros da delegação indÃgena na Cúpula do Clima, o principal receio é eles voltarem para as comunidades e sofrer ameaças, como comentou o coordenador executivo da Apib, o advogado Dinamam Tuxá, da Bahia. âSempre existe o medo de algum tipo de represália quando retornarmos, desde uma possÃvel prisão, até mesmo um processo, pelo fato de estarmos fazendo o que fazemos de melhor que é denunciar o Estado brasileiro e suas violações com esse desmonte da polÃtica ambiental indigenista no Brasilâ, afirmou. A comitiva da Apib participou de mais de 80 espaços de discussão dentro e fora da conferência.
Para o coordenador executivo da APIB, o caso da Txai Suruà é preocupante, pela quantidade de mensagens de ódio que ela vem recebendo, além de montagens que vinculam a imagem dela a diversas situações, e finaliza, âestamos acompanhando esse processo e nós vamos tomar as medidas cabÃveis para proteger a imagem dela e assegurar o direito de todos esses que estão sendo atacados por essa rede de pessoas que se difunde o ódioâ.
Brasil leva troféu ‘Fóssil do Dia’
O ódio destilado pelos apoiadores de Bolsonaro chamou a atenção de ONGs que organizam o prêmio Fóssil do Dia. Na última semana, entregaram o troféu de pior polÃticas ambientais para o Brasil, exatamente por esse ataque aos povos indÃgenas durante a conferência.
Nesta quarta-feira (10), o ministro do meio ambiente, Joaquim Leite, trouxe em dados que a agricultura de baixo carbono do paÃs já restaurou âquase 28 milhões de hectares de pastagens degradadasâ.
No entanto, a agência de checagem Lupa, taxou como âexageradoâ esse comentário do ministro, pois o levantamento MapBiomas, que mede todas as mudanças de uso da terra no Brasil desde 1985, âmostrou que, dos 113 milhões de hectares de pastagens que permaneceram pastagens entre 2000 e 2020, 17 milhões de hectares deixaram de apresentar degradação â ou seja, pode-se dizer que foram ârecuperadasâ. Ainda em sua fala Joaquim afirmou que âonde existe muita floresta também existe muita pobrezaâ, frase que foi amplamente criticada, fazendo novamente o Brasil ganhar o âtrófeuâ, do Fóssil do dia.
A COP26, que oficialmente terminará na sexta (12), conta com a possibilidade das negociações finais serem resolvidas até sábado, deixando aberta as possibilidades do que vai ser resolvido. Além disso, na quarta-feira (10) a China e os Estados Unidos anunciaram uma declaração em conjunto combinada entre ambas as partes sobre a intensificação da ação climática, em uma conferência de imprensa em Glasgow, um representante do governo chinês, Xie Zhenhua, anunciou que os dois governos depois de diversas reuniões entraram em consenso sobre a sua atuação no combate a crise climática, ação importante visto que os pais são os maiores poluidores do mundo.
*A jornalista Alicia Lobato é a enviada especial da Amazônia Real na cobertura da #COP26. A agência também integra a COPCOLLAB26, cobertura colaborativa da conferência realizada por coletivos, organizações, mÃdias independentes, midiativistas, jornalistas e comunicadores.
**Colaboraram Kátia Brasil e ElaÃze Farias
