Na última década, o Brasil sofreu as piores secas da histoÌria, que culminaram, em 2021, com a mais grave crise hÃdrica dos últimos 90 anos, o que desencadeou outra crise – a energética. Para evitar apagões, foram ligadas usinas termelétricas a carvão, nocivas ao meio ambiente, e o preço da energia subiu para o consumidor. Com a maior parte de sua energia baseada na produção das hidrelétricas, o paÃs vai enfrentar cada vez mais crises assim já que as mudanças climáticas estão provocando alterações nos regimes de chuva – dificultando as previsões – e tornando os perÃodos de estiagens mais prolongados e intensos.
Se a dinâmica das alterações do clima não é considerada adequadamente, todo o planejamento do sistema de geraçaÌo de energia fica vulneraÌvel e comprometido. Trabalhar com seÌries histoÌricas ou sinteÌticas de precipitação significa esperar um volume de chuva meÌdio que pode naÌo ocorrer
Esta é a principal conclusão do estudo ‘Vulnerabilidade do setor eleÌtrico brasileiro frente aÌ crise climaÌtica global e propostas de adaptaçaÌo’, encomendado pela Coalizão Energia Limpa, formada por ClimaInfo, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Instituto Clima e Sociedade (iCS), Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), Instituto Internacional Arayara e Instituto Pólis. “à urgente adotar uma nova forma de planejar e operar o sistema elétrico nacional. A solução deve ser multifacetada e exigirá maior diversificação da matriz elétrica para desenvolver efeticamente um sistema resiliente à s mudanças climáticas”, afirmou o o professor e engenheiro elétrico José Wanderley Marangon Lima, do Inel (Instituto Nacional de Energia Limpa)., um dos autores do estudo ao lado do climatologista Lincoln Muniz Alves, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais) e do meteorologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
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O Brasil eÌ um dos grandes produtores mundiais de energia hidreleÌtrica, respondendo por 10% da produçaÌo mundial: números oficiais apontam que quase dois terços (cerca de 60%) de geração através de hidroeletricidade. “à uma energia renovável o que é importante. Contudo, ela é fortemente dependente de variações climáticas – as chuvas essenciais são essenciais para os reservatórios dessas usinas. Com a mudança do comportamento das chuvas devido à s mudanças climáticas, esta geração está cada vez mais ameaçada”, alertou o climatologista Lincoln durante a apresentação do estudo nesta sexta, 26/05. “A mudança climaÌtica é uma ameaça ao setor elétrico brasileiro cujo planejamento é projetado sob o histórico de variáveis climáticas que estão sofrendo alterações no comportamento”, acrescentou.
O estudo alerta que o Brasil já está enfrentando as consequências da crise climática, com secas mais intensas em algumas regiões e recordes de chuva em outras. “As projeçoÌes sugerem que muitas regioÌes do mundo experimentaraÌo eventos de secas mais frequentes e severas e de chuvas fortes como consequeÌncia do aumento das emissoÌes de gases de efeito estufa. Para o Brasil, as tendeÌncias de aumento de temperatura devem continuar ao longo do seÌculo 21 a uma taxa superior aÌ meÌdia global. Projeções apontam uma reduçaÌo das vazoÌes das usinas localizadas nas regioÌes Norte e Nordeste. Para as usinas no Sul e parte do Sudeste, a tendeÌncia é de aumento das vazoÌes. Para a bacia do Paraná existe uma incerteza maior devido à Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) onde os modelos climáticos divergem quanto ao aumento ou diminuição da precipitação”, alerta o estudo.
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Veja o que já enviamosAinda de acordo com a análise dos pesquisadores, essa diminuiçaÌo das precipitaçoÌes esperada nas regiões Norte e Nordeste naÌo recomenda a implantação de novas centrais hidreleÌtricas, principalmente se forem usinas a fio dâaÌgua, quando a força da correnteza dos rios é aproveitada para gerar energia, sem precisar estocar a água. O estudo cita o caso do complexo de usinas no Rio TapajoÌs, previsto para entrar em operação depois de 2030 pelo MME “e que precisa ser reavaliado à luz das projeções climáticas”.
As projeções também apontam para o incremento nos ventos e na radiação solar no Nordeste, projetando que a região deverá ser um grande exportador de energia renovaÌvel, confirmando a tendência de multiplicação das usinas eólicas e solares. Os pesquisadores defendem, no estudo, que “diversificar a matriz elétrica, elevando a participação das fontes renováveis solar e eólica, permitiria a redução dos custos da energia elétrica, gerando uma maior competitividade internacional dos produtos brasileiros. Além da transição em si, os efeitos benéficos sobre a economia ofereceriam uma oportunidade para diminuir desigualdades sociais”.
Renováveis mas também vulneráveis
Essas fontes de energia elétrica limpas e renováveis, entretanto, também podem ser afetadas pela crise climática. “Assim como as hidrelétricas, as energias renováveis têm como ´’combustÃvel’ as variáveis climáticas e, portanto, são mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas na geração de energia elétrica”, alertam os pesquisadores, no estudo, defendendo ações planejadas para melhorar a resilieÌncia dos sistemas de produção e transporte de energia e estruturar a matriz energeÌtica e eleÌtrica para que os sistemas energeÌticos sejam mais resilientes. “Fontes renováveis, como a eólica e a solar, são sempre intermitentes pois dependem também dos ventos e do sol. Precisa haver um planejamento para aproveitar as diversas fontes para a descarbonização do setor elétrico”, disse o professor Marangon.
Vejo com muito bons olhos a evolução da geração distribuÃda de energia elétrica, o que garante maior independência individual ou regional das redes de transmissão e distribuição. Um sistema mais distribuÃdo tende a ser mais resiliente
Apesar de defender os investimentos em energia eólica e solar, o estudo destaca que o Estado brasileiro deve planejar e orientar a expansão das energias renováveis “sem que, no entanto, repita-se o modelo historicamente adotado para o setor, pelo qual os Povos IndÃgenas e Comunidades Tradicionais são invariavelmente violados na garantia de seu direito territorial”. Esse modelo já vem causando conflitos em áreas de implantação de usinas eólicas, principalmente, e solares no Nordeste. “O processo de aprovação e licenciamento deve assegurar a aplicação de salvaguardas que garantam os direitos territoriais e a consulta livre prévia e informada aos Povos IndÃgenas e Comunidades Tradicionais”, disse Carol Marçal, coordenadora de projetos do Instituto ClimaInfo, presente à apresentação do estudo.
Para os pesquisadores, apesar de já haver uma preocupação do poder público e a incorporação de cenários no processo de planejamento do setor elétrico, não existem ações concretas suficientes e nem o desenvolvimento de polÃticas públicas necessárias para lidar com a magnitude do problema. “Se a dinâmica das alterações do clima não é considerada adequadamente, todo o planejamento do sistema de geraçaÌo de energia fica vulneraÌvel e comprometido. Trabalhar com seÌries histoÌricas ou sinteÌticas de precipitação significa esperar um volume de chuva meÌdio que pode naÌo ocorrer”, destacou Lincoln Muniz Alves.
O estudo lembra que a localizaçaÌo geograÌfica, a integraçaÌo do sistema de transmissaÌo e as caracteriÌsticas individuais das usinas hidreleÌtricas estaÌo diretamente relacionadas com a intensidade dos impactos que o sistema vai receber com as variações climáticas. A princiÌpio, quanto maior a interconexaÌo do sistema, melhor sua capacidade de contornar algum problema que venha a surgir a partir da compensaçaÌo permitida pelas diferentes variaçoÌes. “Vejo com muito bons olhos a evolução da geração distribuÃda de energia elétrica, o que garante maior independência individual ou regional das redes de transmissão e distribuição. Um sistema mais distribuÃdo tende a ser mais resiliente”, disse Marangon.
O professor defende investimentos em novas tecnologias para o armazenamento da energia, principalmente das fontes renováveis, para garantir a diversidade no sistema. “O Brasil tem abundância de ventos e sol para a geração de energia. Precisamos usar a tecnologia para aproveitar esse potencial”, argumentou. O estudo aponta que “promover a diversidade nos sistemas de energia, tanto em termos de produçaÌo de energia quanto de tipos de consumo de energia, aumenta a resilieÌncia desses sistemas”. Isso pode ser alcançado em termos de promoçaÌo da diversidade tecnoloÌgica, quando os fornecimentos tradicionais de energia (petroÌleo, gaÌs natural, carvaÌo, energia nuclear e hidroeleÌtrica) saÌo complementados com novas tecnologias de geraçaÌo de energia, a maioria relacionada a fontes de energia renovaÌveis. Esses novos tipos de tecnologias incluem tecnologias expansivas de energia solar, eoÌlica, geoteÌrmica, de biomassa e de energia oceaÌnica para geraçaÌo de energia.
Dimensionar impacto da crise climática
De acordo com os pesquisadores, o Poder Público pode se preparar para minimizar os impactos devastadores desse fenômeno tornando os sistemas mais adaptados para enfrentar essa realidade. “à possÃvel tornar o sistema elétrico mais resiliente a partir do mapeamento de suas vulnerabilidades”, enfatiza o estudo. Após esse mapeamento, “é necessaÌrio traçar um plano de resiliência e adaptação para o setor, com açoÌes concretas que visam minimizar os impactos das mudanças climaÌticas na geração e distribuição de energia eleÌtrica”, aponta o documento.
Nosso paÃs tem todas as condições de estar na vanguarda do movimento global de reduçaÌo de emissoÌes de gases de efeito estufa a partir da oferta de energia limpa e acessÃvel, mas precisamos ter o planejamento adequado para enfrentar esse desafio
Os pesquisadores defendem o desenvolvimento de metodologia para o dimensionamento das ameaças climaÌticas aÌs quais estaÌo sujeitas as usinas, com o consequente caÌlculo das vulnerabilidades tanto do ponto de vista local (do empreendimento propriamente dito) como sisteÌmico (da energia global gerada pelo sistema); estruturar um plano de resilieÌncia e adaptação, com base na metodologia para dimensionamento das ameaças e a partir da anaÌlise das ameaças e as suas possibilidades de ocorreÌncia; e construir uma maior reserva de potência no sistema interligado e um maior armazenamento de energia.
Também presente ao lançamento do estudo, o engenheiro Eduardo Barata Ferreira, ex-diretor do ONS (Operador Nacional do Sistema) destacou que as profundas mudanças sofridas na matriz energética nos últimos 40 anos. “O Brasil já teve 90% de sua energia produzida pelas hidrelétricas. Hoje, as energias eólica e solar têm uma participação maior e uma tendência de crescimento. E as mudanças climáticas estão acontecem em ritmo acelerado. à fundamental rever esse planejamento para garantir a segurança do sistema elétrico”, afirmou Barata. “EÌ importante o desenvolvimento de sistemas energeÌticos mais robustos e menos vulneraÌveis, necessidade que jaÌ vem sendo observada nos uÌltimos anos em funçaÌo dessas variações no clima e da redução de precipitaçaÌo em grande parte do paÃs”, acrescentou Marangon.
Para Carol Marçal, do ClimaInfo, organização que coordenou a produção do estudo, essas soluções possÃveis para minimizar futuras crises hÃdricas e energéticas devem ser parte da transiçaÌo energeÌtica do Brasil. “Nosso paÃs tem todas as condições de estar na vanguarda do movimento global de reduçaÌo de emissoÌes de gases de efeito estufa a partir da oferta de energia limpa e acessÃvel, mas precisamos ter o planejamento adequado para enfrentar esse desafio”, destacou.
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