Lembro-me de várias vezes quando era criança, enquanto estava no roçado “panhando acerola” com a minha famÃlia, dizendo que meu sonho era viajar e conhecer o mundo todo. Foi esse sonho que me fez entrar no curso de jornalismo e ser o primeiro de uma famÃlia de agricultores da cidade de Alhandra, na ParaÃba, a entrar na universidade. O primeiro a viajar de avião, o primeiro a sair do Brasil e em tantas outras coisas mais.
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Minha história de vida poderia facilmente ser usada como um exemplo de meritocracia do ââvocê só precisar se esforçarââ, mas não. Tudo o que já conquistei durante os meus 20 anos de vida foi graças ao esforço coletivo da minha famÃlia, à s polÃticas públicas que tive acesso e ao apoio incondicional dos meus professores que me ensinaram a sonhar e a ver o mundo além do que a minha realidade permitia.
Quando passei no vestibular, painho deu a ideia de eu tirar uma foto âvestido de agricultorâ, ou seja, com a roupa que eu estava usando naquele momento, anunciando o meu ingresso no ensino superior. E assim fizemos o registro. Pegamos um pedaço de papelão e escrevemos com um batom velho a frase: âDo roçado para a universidade, terceiro lugar em jornalismo na UFPB”.
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Veja o que já enviamosEu segurava uma enxada na mão, vestindo uma calça velha rasgada, uma camisa amarela de manga longa e as botas e o chapéu de palha do meu pai. A foto que está fixada no feed do meu perfil no Instagram até hoje. Ela serve como um lembrete de que, independente de onde eu vá ou da profissão que eu escolha seguir, aquela é a minha essência, a terra, a simplicidade, a famÃlia e a agricultura.
Nesse mesmo ano de 2021, comecei a fazer parte da coordenação da Articulação da Juventude Camponesa (AJC), uma associação que atua na região do litoral sul, várzea e agreste da paraÃba. Na AJC, desenvolvemos diversos projetos de mobilização polÃtica, fortalecimento da identidade camponesa, da agroecologia e da sustentabilidade em comunidades rurais e quilombolas.
Nunca perder oportunidade
Um dia, minha orientadora de iniciação cientÃfica compartilhou em nosso grupo de Whatsapp um link de um processo seletivo chamado âBolsa Climática Para Jovens Latino-Americanos (Financiamento Integral)ââ. Tratava-se do Latin American Youth Climate Scholarship (LAYCS), um projeto recém-criado que promove a participação de jovens pretos, pardos e indÃgenas de comunidades da América Latina em conferências climáticas da ONU. Eu não sabia bem o que era aquilo, mas sigo uma filosofia de vida que aprendi com a minha mãe, sempre arriscar e nunca perder uma oportunidade. Até porque, pessoas como eu não têm muitas, né?
Tudo o que já conquistei foi graças ao esforço coletivo da minha famÃlia, à s polÃticas públicas que tive acesso e ao apoio incondicional dos meus professores que me ensinaram a sonhar e a ver o mundo além do que a minha realidade permitia
Preenchi o formulário de inscrição contando sobre o meu trabalho na agricultura familiar e todas as ações de sustentabilidade e combate às mudanças climáticas que já havia realizado através da AJC. Dias depois, recebi por e-mail um convite para participar de uma entrevista on-line como parte da segunda fase do processo seletivo. E, com todo o meu poder de comunicação e convencimento, fui aprovado no processo seletivo.
Com essa bolsa climática, em junho, participei da SB58, uma conferência que acontece anualmente na Alemanha e que organiza a agenda das discussões da COP. No final de novembro, participei da COY-18, a maior conferência da juventude sobre mudanças climáticas da ONU e agora estou participando da COP28 e tudo isso, claro, graças ao apoio e financiamento do LAYCS.
Aqui em Dubai, a cada vez que falo com a minha famÃlia, lembro que foi no roçado onde tudo começou. De certa forma, estou representando os sonhos coletivos da minha famÃlia, da minha comunidade rural e outras tantas famÃlias brasileiras do interior. Espero cumprir as expectativas entregando uma cobertura humanizada, a partir do olhar de um filho do roçado.
