Faça o teste. Digite a expressão âaquecimento globalâ na busca da sua página do Facebook. Muito provavelmente você será direcionado para a Central de Informações sobre a Ciência do Clima, lançada pela empresa em 2020 na Europa e nos Estados Unidos. âAs mudanças climáticas são reais. A ciência é inequÃvoca e a necessidade de agir fica mais urgente a cada diaâ, dizia o comunicado oficial do Facebook quando o projeto chegou ao Brasil em fevereiro deste ano. Logo no alto da página é possÃvel ver uma notÃcia desmentindo um boato antigo e muito divulgado nas redes: âCausa da mudança climática é amplamente aceita pela comunidade cientÃfica. Pelo menos 97% dos especialistas em clima publicados concordam que o aquecimento global é real e é causado pelos seres humanosâ. Ponto para Mark Zuckerberg.
Agora repita o teste, na mesma busca do Facebook. Desta vez use a expressão âaquecimento global não existeâ. O seu computador ou celular será inundado com vÃdeos, fotos e textos mostrando, de âforma inequÃvocaâ, que as mudanças climáticas são uma falácia. O argumento dos responsáveis pela rede social para seguir com essa hipocrisia é velho e já foi usado outras vezes em relação à s fake news eleitorais ou ao negacionismo das vacinas contra a covid-19: a liberdade de expressão e opinião.
No mês passado, Zuckerberg recebeu uma carta assinada por 13 grandes grupos ambientais, incluindo o Greenpeace e o Union of Concerned Scientists. Eles pediam que o Facebook se comprometesse mais efetivamente com o combate à desinformação climática, bloqueando as mentiras climáticas e divulgando relatórios com os dados das fake news: âA desinformação sobre mudança climática está se espalhando rapidamente pela plataforma de mÃdia social do Facebook, ameaçando a capacidade dos cidadãos e legisladores de combater a crise climáticaâ, alertaram os ambientalistas.
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Veja o que já enviamosTambém em março, em uma audiência no Congresso americano, Mark Zuckerbeg admitiu que a desinformação climática é âum grande problemaâ. No entanto, o Facebook segue se recusando a divulgar os números das mentiras climáticas. De acordo com a Avaaz.org, uma rede de mobilização social sem fins lucrativos, em fevereiro deste ano, quando quatro milhões de moradores do Texas, nos EUA, ficaram sem energia, a empresa não rotulou como mentirosas as postagens que diziam falsamente que âas falhas de turbinas eólicas foram a principal causa dos apagõesâ Os dez principais posts que promoveram alegações como esta geraram cerca de 16 milhões de visualizações. E nenhum deles recebeu rótulos de checagem de fatos. Uma pesquisa feita pela Bloomberg Green, em março, encontrou um punhado de grupos no Facebook com nomes sugestivos como âO aquecimento global feito pelo homem é uma farsaâ e âCrise climática? Não há crise climática!â
Oficialmente, o Facebook diz que age contra páginas, grupos e contas que repetidamente compartilham afirmações falsas. Quando os checadores de fatos classificam o conteúdo como falso, a rede social adiciona um rótulo de aviso e reduz a distribuição, mas não retira do ar. Segundo a empresa, mesmo âgrupos que repetidamente compartilham informações incorretas não são removidos, apenas deixam de ser recomendados pelo algoritmo do Facebookâ.
Enquanto a polêmica e a desinformação seguem soltas na timeline da rede social, internamente o Facebook anuncia medidas para combater o aquecimento global. A empresa se comprometeu a zerar as emissões lÃquidas de carbono em todas as suas operações globais e a utilizar 100% de energia renovável. Nos últimos três anos eles já teriam reduzido 93% das suas emissões de gases de efeito estufa e investiram oito bilhões de dólares em 63 projetos de energia eólica e solar.
Com a nova Central de Informações sobre a Ciência do Clima, os investimentos internos e o trabalho dos checadores, o Facebook acredita estar fazendo a sua parte no combate à desinformação e à crise climática. Zuckerberg e seus executivos seguem apostando na máxima de que são âapenas uma plataforma aberta para a livre expressão de ideiasâ ou que a âmelhor maneira de combater a desinformação é com mais informaçãoâ. Até agora, infelizmente, isso não tem funcionado muito.
