Facebook combate mentiras climáticas, mas tolera negacionistas

Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, presta depoimento no Comitê de Serviços Financeiros do Congresso americano. Foto Aurora Samperio/ NurPhoto/AFP. Outubro/2019

Na rede social, espaço criado para a ciência do clima convive com posts que negam o aquecimento global e a participação humana na crise climática

Por Agostinho Vieira | ODS 13 • Publicada em 20 de abril de 2021 - 10:08 • Atualizada em 22 de abril de 2021 - 16:46

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Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, presta depoimento no Comitê de Serviços Financeiros do Congresso americano. Foto Aurora Samperio/ NurPhoto/AFP. Outubro/2019

Faça o teste. Digite a expressão “aquecimento global” na busca da sua página do Facebook. Muito provavelmente você será direcionado para a Central de Informações sobre a Ciência do Clima, lançada pela empresa em 2020 na Europa e nos Estados Unidos. “As mudanças climáticas são reais. A ciência é inequívoca e a necessidade de agir fica mais urgente a cada dia”, dizia o comunicado oficial do Facebook quando o projeto chegou ao Brasil em fevereiro deste ano. Logo no alto da página é possível ver uma notícia desmentindo um boato antigo e muito divulgado nas redes: “Causa da mudança climática é amplamente aceita pela comunidade científica. Pelo menos 97% dos especialistas em clima publicados concordam que o aquecimento global é real e é causado pelos seres humanos”. Ponto para Mark Zuckerberg.

A Central de Informações sobre a Ciência do Clima, criada pelo Facebook para combater a desinformação climática. Foto Reprodução do Facebook

Agora repita o teste, na mesma busca do Facebook. Desta vez use a expressão “aquecimento global não existe”. O seu computador ou celular será inundado com vídeos, fotos e textos mostrando, de “forma inequívoca”, que as mudanças climáticas são uma falácia. O argumento dos responsáveis pela rede social para seguir com essa hipocrisia é velho e já foi usado outras vezes em relação às fake news eleitorais ou ao negacionismo das vacinas contra a covid-19: a liberdade de expressão e opinião.

No mês passado, Zuckerberg recebeu uma carta assinada por 13 grandes grupos ambientais, incluindo o Greenpeace e o Union of Concerned Scientists. Eles pediam que o Facebook se comprometesse mais efetivamente com o combate à desinformação climática, bloqueando as mentiras climáticas e divulgando relatórios com os dados das fake news: “A desinformação sobre mudança climática está se espalhando rapidamente pela plataforma de mídia social do Facebook, ameaçando a capacidade dos cidadãos e legisladores de combater a crise climática”, alertaram os ambientalistas.

Também em março, em uma audiência no Congresso americano, Mark Zuckerbeg admitiu que a desinformação climática é “um grande problema”. No entanto, o Facebook segue se recusando a divulgar os números das mentiras climáticas. De acordo com a Avaaz.org, uma rede de mobilização social sem fins lucrativos, em fevereiro deste ano, quando quatro milhões de moradores do Texas, nos EUA, ficaram sem energia, a empresa não rotulou como mentirosas as postagens que diziam falsamente que “as falhas de turbinas eólicas foram a principal causa dos apagões” Os dez principais posts que promoveram alegações como esta geraram cerca de 16 milhões de visualizações. E nenhum deles recebeu rótulos de checagem de fatos. Uma pesquisa feita pela Bloomberg Green, em março, encontrou um punhado de grupos no Facebook com nomes sugestivos como “O aquecimento global feito pelo homem é uma farsa” e “Crise climática? Não há crise climática!”

Oficialmente, o Facebook diz que age contra páginas, grupos e contas que repetidamente compartilham afirmações falsas. Quando os checadores de fatos classificam o conteúdo como falso, a rede social adiciona um rótulo de aviso e reduz a distribuição, mas não retira do ar. Segundo a empresa, mesmo “grupos que repetidamente compartilham informações incorretas não são removidos, apenas deixam de ser recomendados pelo algoritmo do Facebook”.

Enquanto a polêmica e a desinformação seguem soltas na timeline da rede social, internamente o Facebook anuncia medidas para combater o aquecimento global. A empresa se comprometeu a zerar as emissões líquidas de carbono em todas as suas operações globais e a utilizar 100% de energia renovável. Nos últimos três anos eles já teriam reduzido 93% das suas emissões de gases de efeito estufa e investiram oito bilhões de dólares em 63 projetos de energia eólica e solar.

Com a nova Central de Informações sobre a Ciência do Clima, os investimentos internos e o trabalho dos checadores, o Facebook acredita estar fazendo a sua parte no combate à desinformação e à crise climática. Zuckerberg e seus executivos seguem apostando na máxima de que são “apenas uma plataforma aberta para a livre expressão de ideias” ou que a “melhor maneira de combater a desinformação é com mais informação”. Até agora, infelizmente, isso não tem funcionado muito.

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. É um dos criadores do Projeto #Colabora.

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