(Felipe Werneck* – Glasgow) – Uma das principais arquitetas do Acordo de Paris, a diplomata francesa Laurence Tubiana disse, nesta segunda (08/11) durante a COP26 que protestos como o de sábado, em Glasgow, são uma prova de que âas coisas não vão bemâ. A marcha pelo clima reuniu, segundo os organizadores, 100 mil pessoas na região central da cidade. Na sexta-feira, outras 25 mil pessoas foram à s ruas numa greve do movimento Fridays For Future. A ativista sueca Greta Thunberg, 18, discursou dizendo que a conferência de Glasgow era a âCOP do greenwashâ.
Em entrevista coletiva, a veterana negociadora francesa voltou ao tema. âGreenwash é o novo negacionismo climático. à uma maneira de escapar do problema. à uma maneira de dizer: ânós estamos fazendo tudo, não se preocupemâ. A prova disso é a percepção que as pessoas têm. Se mais de 100 mil pessoas estão protestando lá fora é porque aqui dentro as coisas não vão bemâ, disse Tubiana, cobrando ação e honestidade. âPrecisamos reconciliar a fúria lá de fora com o business as usual [o cenário de sempre] aqui de dentro.â
Em resposta a uma pergunta sobre as NDCs apresentadas, a diplomata francesa citou a Austrália como um dos paÃses que âprometem maravilhas para 2050, mas não querem falar do que podem reduzir (de emissões) no ano que vemâ.
[g1_quote author_name=”Milagros de Camps” author_description=”Vice-ministra de cooperação internacional do Ministério do Meio Ambiente da República Dominicana” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Desde a adoção do Acordo de Paris, o G20 tem dado trilhões e trilhões de dólares de subsÃdio para combustÃveis fósseis, e muito menos para fundos climáticos da ONU
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Veja o que já enviamosA entrevista foi organizada pela Aosis (Aliance of Small Island States (- aliança dos pequenos paÃses ilha), no dia de Perdas e Danos da COP26. âTemos que abrir portas e janelas para que os paÃses em desenvolvimento, principalmente os localizados em ilhas e outros que vêm sofrendo com eventos climáticos extremos, tenham acesso a um mecanismo funcional para se reconstruÃremâ, declarou a diplomata francesa, hoje na European Climate Foundation.
Vice-ministra de cooperação internacional do Ministério do Meio Ambiente da República Dominicana, Milagros de Camps disse, ao lado de Tubiana, que está ouvindo âpalavras bonitasâ durante a COP26, mas que na prática a tática parece ser a de sempre: negar e atrasar. âPrecisamos de grande aporte financeiro para ações climáticas mais ambiciosas, acessÃvel aos paÃses em desenvolvimento, com empréstimos e doações. Precisamos forçar isso nas discussões financeiras. O último relatório das Nações Unidas é um choque de realidade sobre o aumento de temperatura no mundo. Mas para que pedir um relatório se vão ignorá-lo? Ignorar um problema não faz ele sumir.â
Camps afirmou que é inaceitável a promessa de U$ 100 bilhões anuais ainda não ter saÃdo do papel. âDesde a adoção do Acordo de Paris, o G20 tem dado trilhões e trilhões de dólares de subsÃdio para combustÃveis fósseis, e muito menos para fundos climáticos da ONUâ, disse. âPrecisamos melhorar a parte de financiamento, mas sem confundir com bondade. Orçamento compartilhado não é caridade.â
Nesta segunda, após a revelação de que mais de 500 lobistas da indústria fóssil estão credenciados para a COP â mais pessoas do que a maior delegação nacional, a do Brasil â, a secretária executiva da Convenção do Clima da ONU, Patricia Espinosa, disse que a conferência âadota uma abordagem inclusivaâ e que âé um direito soberano de todo governo credenciar como parte de sua delegação as pessoas que julgar convenientesâ, segundo a agência Bloomberg.
Obama e ministros na COP26
A COP26 entrou nesta segunda-feira no chamado âsegmento de alto nÃvelâ. à quando os ministros de Estado chegam para tomar as decisões polÃticas que os negociadores não conseguiram fechar na primeira semana.
Praticamente todos os temas ainda pendem de definição. Alguns mais adiantados, como a questão dos marcos temporais comuns, que já tem uma proposta de texto para decisão polÃtica (com nove opções). Outros com dificuldades esperadas, como o difÃcil Artigo 6, que trata da regulamentação dos mercados de carbono.
No domingo, a presidência britânica circulou um conjunto de itens de consenso do que seria o esqueleto da decisão principal de Glasgow, que fala em manter a meta de 1,5oC viva e em acelerar ambição â as ONGs reclamaram de ausências fundamentais no texto, como uma sinalização clara do fim dos combustÃveis fósseis e a menção à proposta feita pela Coalizão da Alta Ambição (formada por paÃses insulares e Europa) de aumentos anuais nas metas dos paÃses.
Para tentar animar a festa, o ex-presidente americano Barack Obama foi a Glasgow nesta segunda-feira e fez um longo discurso. Em mais de 40 minutos, Obama saiu distribuindo culpas: culpou a falta de maioria no Congresso pela pouca ação no clima em seus oito anos de mandato, disse que era âfrustrantes não ver os lÃderes de dois dos maiores emissores do mundo, a China e a Rússiaâ, na COP26 e prometeu liderança americana no processo, masâ¦
âMas vocês conhecem os fatos. Precisamos também da China e da Ãndia liderando esse assunto. Precisamos da Rússia liderando esse assunto. Da Ãfrica do Sul, da Indonésia e do Brasil liderando nesse assunto. Não podemos deixar ninguém de fora.â
Cobrado por jovens antes do discurso, Obama disse à plateia que o ativismo climático deve ser transformado em votos. âNão teremos planos climáticos mais ambiciosos dos governantes se eles não sentirem a pressão dos eleitoresâ, disse o ex-presidente.
*Felipe Werneck é jornalista, com especialização em meio ambiente pela COPPE/UFRJ, editor do Fakebook.eco e acompanha a COP26 pelo Observatório do Clima
