No último dia oito de outubro, três novos estudos sobre a Amazônia brasileira foram publicados em uma edição especial da tradicional revista cientÃfica inglesa Philosophical Transactions da Royal Society B. Um deles, âQuantifying immediate carbon emissions from El Niño-mediated wildfires in humid tropical forestsâ revelou que as consequências dos incêndios florestais na Amazônia, nos anos de 2015 e 2016, resultaram em emissões de CO2 três a quatro vezes maiores do que as estimativas feitas até então. O estudo foi realizado numa área de 6,5 milhões de hectares de floresta amazônica brasileira.
[g1_quote author_name=”Erika Berenguer” author_description=”Cientista da Universidade de Oxford” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]No geral, nossos resultados combinados destacam a importância de os incêndios florestais serem considerados nas polÃticas brasileiras de conservação e mudanças climáticas. Com modelos climáticos projetando um futuro mais quente e seco para a bacia amazônica, os incêndios, provavelmente, se tornarão mais generalizados
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Veja o que já enviamosO resultado da pesquisa cai como uma bomba no já tenso cenário ambiental, onde o lÃder na corrida presidencial diz que vai acabar com o Ministério do Meio Ambiente e interromper as demarcações de terras indÃgenas. Se o Brasil, com Ministério do Meio Ambiente, IBAMA, ICMBio e organizações ambientais de olho no que acontece por lá é o paÃs que mais mata defensores da Amazônia, o que acontecerá quando todas essas organizações, institutos e autarquias forem extintos ou perderem poder?
Os pesquisadores das Universidades de Lancaster e Oxford, na Inglaterra, entre eles a cientista brasileira Erika Berenguer, realizavam uma pesquisa de campo quando ocorreu um dos piores incêndios florestais que a Amazônia viu em uma geração. Erika estava no Pará e testemunhou o grave incêndio ocorrido na região de Santarém, no final de 2015, um dos epicentros daquele ano do El Niño.
âOs incêndios descontrolados dos sub-bosques das florestas tropicais úmidas durante as secas extremas são uma fonte grande e mal quantificada de emissões de CO2. Estes incêndios consumiram, completamente, resÃduos de folhas e detritos lenhosos finos, enquanto que, parcialmente, queimaram detritos lenhosos grosseiros resultando em altas emissões imediatas de CO2. Essa análise cobre uma área de apenas 0,7% do Brasil, mas a quantidade de carbono perdido corresponde a 6% das emissões anuais de todo o paÃs em 2014â, revela o pesquisador, Kieran Withey, da Universidade de Lancaster.
Do território pesquisado, quase um milhão de hectares eram de florestas primárias e secundárias queimadas durante o El Niño de 2015 e 2016, área equivalente a metade do tamanho do estado de Sergipe. A região corresponde a menos de 0,2% da Amazônia brasileira, mas esses incêndios converteram-se em emissões imediatas de mais de 30 milhões de toneladas de CO2.
 Boa notÃcia â só que não
Em outro estudo, âDrought-induced Amazonian wildfires instigate a decadal-scale disruption of forest carbon dynamicsâ, liderado pela cientista brasileira da universidade de Lancaster, Camila Silva, foram pesquisadas 31 áreas queimadas na Amazônia brasileira. O resultado mostrou que mesmo depois de 30 anos de um incêndio, aparentemente, as florestas “recuperadas” ainda têm 25% menos carbono do que as florestas primárias onde não ocorreu interferência do homem.
Na análise de Camila, âincêndios em florestas tropicais úmidas podem reduzir significativamente a biomassa florestal por décadas, aumentando as taxas de mortalidade de árvores de grande porte e alta densidade de madeira (como a castanheira ou o mogno) que armazenam maior quantidade de biomassa em florestas antigas. Nosso trabalho demonstrou que os incêndios florestais diminuem ou retardam significativamente a recuperação pós-fogo das florestas amazônicas.â
PolÃticas públicas para conter o desmatamento e controlar os incêndios florestais
No terceiro estudo, que envolveu um time de nove pesquisadores coordenado pela cientista brasileira Erika Berenguer, das universidades de Oxford e Lancaster (Tree growth and stem carbon accumulation in human-modified Amazonian forests following drought and fire) foram avaliados, pela primeira vez, os impactos da ação do homem e das secas e de incêndios causados pelo El Niño no crescimento das árvores e na acumulação de carbono. Uma das descobertas é que, após os incêndios, as árvores sobreviventes cresceram significativamente mais do que aquelas localizadas em florestas não queimadas, independentemente de interferência humana anterior. Em média, as árvores nas áreas queimadas cresceram 249% mais do que as árvores nas florestas afetadas pela seca e não pelo fogo. Embora a taxa de crescimento seja uma boa notÃcia, esse grande aumento parece ser uma resposta relativamente de curto prazo. A densidade da madeira é um fator importante, pois ajudou os cientistas a explicarem a diferença de crescimento entre árvores de florestas queimadas e não queimadas, com árvores de baixa densidade de madeira que crescem significativamente mais em locais queimados.
âNo geral, nossos resultados combinados destacam a importância de os incêndios florestais serem considerados nas polÃticas brasileiras de conservação e mudanças climáticas. Com modelos climáticos projetando um futuro mais quente e seco para a bacia amazônica, os incêndios, provavelmente, se tornarão mais generalizados. O contÃnuo fracasso em incluir os incêndios florestais nas polÃticas públicas ocasionará incêndios em intervalos mais curtos, com as florestas sendo incapazes de recuperar seus estoques de carbonoâ.
No mês passado, a AssociaçaÌo Nacional dos Servidores da Carreira de Meio Ambiente (ASCEMA) divulgou a Carta Aberta em Defesa do Meio Ambiente, assinada pela associação e outras entidades ambientais. Os servidores repudiavam as crÃticas do candidato a presidente lÃder nas pesquisas ao Instituto Chico Mendes de ConservaçaÌo da Biodiversidade (ICMBio) e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais RenovaÌveis (IBAMA). âO ICMBio e o IBAMA saÌo instituiçoÌes com a missaÌo de salvaguardar o patrimoÌnio ambiental do paiÌs, conforme previsto na ConstituiçaÌo Federal de 1988. As açoÌes de fiscalizaçaÌo desses oÌrgaÌos se pautam por criteÌrios teÌcnicos, seguindo a legislaçaÌo ambiental vigente no Brasilâ, dizia um trecho da carta.
Até o inÃcio dos anos 2000 os cientistas observavam que havia grande ocorrência de incêndios em anos onde as taxas de desmatamento eram altas. Ou seja, mais desmatamento, mais incêndios. Por volta de 2010, essa relação mudou. Apesar da queda no desmatamento, as ocorrências de incêndio continuaram altas. Os estudos, então, apontaram para o aumento dos incêndios em anos de seca extrema. A combinação de desmatamento e seca extrema pode ocasionar incêndios incontroláveis. âCom as taxas de desmatamento aumentando, as chances de incêndio vão ser muito maiores. Precisamos fortalecer as nossas instituições ambientais e, de forma alguma, desafetar as nossas unidades de conservação. Isso é extremamente importanteâ alerta a cientista Erika Berenguer.
