Claudio Angelo*
As concentrações elevadas de gás carbônico na atmosfera poderão causar declÃnios cognitivos importantes nos seres humanos caso nada seja feito para cortar emissões. A análise é de um trio de pesquisadores americanos e é um dos primeiros estudos a apontar um efeito direto dos gases de efeito estufa sobre a saúde.
O grupo liderado por Kristopher Karnauskas, da Universidade do Colorado em Boulder, afirma que, no pior cenário de emissões, os nÃveis de CO2 na atmosfera estarão tão altos no final do século que a capacidade das pessoas de desenvolver raciocÃnios simples para tomada de decisões pode cair 25%. Para raciocÃnios complexos, que envolvam estratégia, o declÃnio é ainda mais acentuado: 50%.
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Veja o que já enviamosO estudo, publicado no periódico GeoHealth, lembra que em toda a história do Homo sapiens as concentrações de CO2 no ar jamais alcançaram valores sequer próximos dos que existem hoje. Nossa espécie tem cerca de 300 mil anos de existência e, segundo registros paleoantropológicos, passou por uma explosão cognitiva cerca de 100 mil anos atrás. Em todo esse perÃodo, as concentrações de gás carbônico na atmosfera jamais ultrapassaram 300 partes por milhão (ou seja, 300 moléculas de CO2 por milhão de moléculas de ar).
Desde a Revolução Industrial, as concentrações de CO2 na atmosfera ultrapassaram 411 partes por milhão. Hoje elas estão ao redor de 415 ppm â em áreas urbanas ela chega perto das 500 ppm. à a maior concentração em pelo menos 800 mil anos e, provavelmente, em 3,5 milhões de anos.
[g1_quote author_name=”Kristopher Karnauskas Shelly Miller e Anna Schapiro” author_description=”Pesquisadores da Universidade do Colorado” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]A redução na função cognitiva é um dos impactos ocultos da mudança climática, na qual o aquecimento não é apenas um intermediário; e ela se manifestará especialmente em salas de aula, escritórios, hospitais e no setor de transportes
[/g1_quote]O CO2 é tóxico para seres humanos. Em concentrações altas, causa asfixia e morte, mas também tem efeitos nocivos sobre o cérebro em concentrações menores. O gás atravessa a barreira sangue-cérebro e causa perda de oxigênio nos neurônios. Isso causa tontura, sonolência, confusão mental, ansiedade e declÃnio da percepção visual.
Karnauskas e suas colegas Shelly Miller e Anna Shapiro fizeram uma revisão extensa da literatura existente sobre efeitos do CO2 na saúde e encontraram vários estudos mostrando que, em ambientes fechados, como escolas e escritórios, as concentrações e CO2 chegam a ficar 400 ppm mais altas do que em lugares abertos. Vários trabalhos realizados desde a década de 1990 mostraram que essa overdose de gás carbônico por longos perÃodos tem impactos significativos na concentração, na capacidade de tomada de decisão e na habilidade de pensar estrategicamente â que envolve analisar diversas consequências de longo prazo possÃveis de uma determinada ação.
Os declÃnios mais significativos foram notados com concentrações mais altas â de 945 a 1.400 ppm. Coincidentemente, afirmam os pesquisadores, 930 ppm é o que os modelos do IPCC (o painel do clima da ONU) estimam que será a concentração de CO2 no planeta inteiro em ambientes abertos no fim deste século caso nada seja feito para reduzir emissões.
[g1_quote author_name=”Kristopher Karnauskas Shelly LMiller Anna Schapiro” author_description=”Pesquisadores da Universidade do Colorado” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O melhor jeito de evitar que os nÃveis de CO2 em ambientes fechados atinjam patamares prejudiciais à cognição humana é reduzindo emissões de gases de efeito estufa
[/g1_quote]O grupo então modelou o que aconteceria em ambientes fechados em vários cenários de emissão, com base nas concentrações futuras de ambientes abertos. O declÃnio da capacidade de decisão é linear com o aumento do CO2 , ou seja, a queda é gradativa. Mas o do pensamento estratégico se mostrou não-linear. Daà a primeira cair 25% no pior cenário, mas o segundo despencar pela metade. O efeito quase some em concentrações compatÃveis com o cumprimento do Acordo de Paris.
âAssim como a acidificação do oceano, a redução na função cognitiva é um dos impactos ocultos da mudança climática, na qual o aquecimento não é apenas um intermediário, e ela se manifestará especialmente em salas de aula, escritórios, hospitais e no setor de transportesâ, escrevem Karnauskas e colegas.
Mas atenção: isso não significa que a humanidade inteira ficará com o QI dos discÃpulos do Olavo de Carvalho. Os autores reconhecem que em alguma medida os humanos são capazes de se adaptar. Comandantes de submarinos, por exemplo, passam grandes perÃodos sob concentrações elevadÃssimas de CO2 e mantêm o foco. E a elevação nos nÃveis desse gás na atmosfera até hoje já teria bastado para produzir declÃnios de 8% a 13% na cognição humana, mas a tendência verificada desde o século passado é de aumento no QI, devido a fatores como nutrição e aumento do acesso à educação.
O que ocorrerá quando 10 bilhões de pessoas passarem 365 dias por ano expostas a alto CO2 , porém, é algo que demanda â urgentemente â investigação. âO melhor jeito de evitar que os nÃveis de CO2 em ambientes fechados atinjam patamares prejudiciais à cognição humana é reduzindo emissões de gases de efeito estufaâ, escrevem os autores.
