Mais um relatório sobre o aquecimento do planeta foi divulgado hoje. Desta vez, o trabalho feito pelos pesquisadores do Global Carbon Project e da Universidade de East Anglia (UEA), na Inglaterra, revelou que as emissões globais de carbono devem atingir a maior alta de todos os tempos em 2018. O aumento projetado de 2,7% supera o do ano passado, que foi de 1,6% e foi causado pelo crescimento no uso de petróleo e gás. A notÃcia serve como mais um apelo à s lideranças mundiais que estão reunidas na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 24), em Katowice, na Polônia. Em 2015, no chamado Acordo de Paris, 195 paÃses, entre eles o Brasil, se comprometeram a limitar o aquecimento da Terra em 2ºC até o fim do século. Meta cada vez mais difÃcil de ser alcançada. Mais afinal, o que essa história de mudanças climáticas tem a ver com o nosso dia a dia? O que diz sobre cada um de nós?
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]Passados quase cinquenta anos desde que o mundo começou a discutir o aquecimento global, ficamos com três certezas. A primeira é de que tirando algumas lideranças folclóricas, não há mais dúvidas de que o planeta está esquentando. A segunda, igualmente lamentável, diz respeito aos avanços em busca de uma solução, todos muito tÃmidos. Fora o crescimento insuficiente de energias limpas como a eólica, a solar e a biomassa, quase nada aconteceu. Por fim, a triste constatação: os mais pobres, paÃses e pessoas, é que vão pagar a fatura
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosPessoalmente, sempre que vejo um novo relatório como este lembro da clássica série âPlaneta dos Macacosâ. Em especial da cena da Estátua da Liberdade enterrada na praia. A saga, que começou no final dos anos 60, estava mais preocupada com os conflitos nucleares do que com qualquer questão climática, mas essa imagem não me sai da cabeça. Passados quase cinquenta anos desde que o mundo começou a discutir o aquecimento global, ficamos com três certezas. A primeira é de que tirando o folclórico e irresponsável Donald Trump e o não menos folclórico e irresponsável Capitão Jair Messias, não há mais dúvidas de que o planeta está esquentando. A segunda, igualmente lamentável, diz respeito aos avanços em busca de uma solução, todos muito tÃmidos. Fora o crescimento insuficiente de energias limpas como a eólica, a solar e a biomassa, quase nada aconteceu. Por fim, a triste constatação: os mais pobres, paÃses e pessoas, é que vão pagar a fatura. E isso tem tudo a ver com ética. Muita gente pensa, mas não fala: âSe não é comigo, com a minha famÃlia ou com o meu paÃs, dane-seâ. Seria só mais um sinal de egoÃsmo, se fosse verdade. Mas não é, logo, trata-se apenas de burrice.
Um recente relatório do insuspeito Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que, até o final do século, as mudanças climáticas vão provocar perdas de até 10% do Produto Interno Bruto (PIB) dos paÃses mais pobres. Entre as nações afetadas aparece o Brasil, com o seu desmatamento crescente e a sua agropecuária improdutiva. O problema é que as projeções do FMI se baseiam em cenários conservadores, com aumentos médios de temperatura da ordem de um grau centÃgrado, quando, na verdade, os mais otimistas já falam em 3ºC.  Logo, os danos serão muito maiores. Passamos os últimos 200 anos consumindo combustÃveis fósseis (petróleo, carvão e gás) como se fosse água. Esses gases de efeito estufa estão acumulados na atmosfera, retendo radiação solar. E ficarão lá, no mÃnimo, por mais cem anos, mesmo que a humanidade faça bem o seu dever de casa, o que está longe de acontecer.
Sendo assim, não nos resta muita coisa além de acompanhar os efeitos das mudanças climáticas e torcer para que o número de vÃtimas seja o menor possÃvel. Outro estudo do mesmo FMI estima que 60% da população mundial vivam em paÃses nos quais o aquecimento se dará de forma mais intensa, como Haiti, Gabão e Bangladesh. Sem contar as já infelizmente famosas nações insulares, como Kiribati e Tuvalu, que tendem a desaparecer. As consequências das mudanças climáticas nessas regiões vão desde a redução na produção agrÃcola até o crescimento das epidemias, passando por redução de investimentos, fome, aumento dos conflitos, secas, enchentes e pressão migratória. Essa é uma previsão para o futuro? Não. Basta olhar as secas na Ãfrica, as tempestades na Ãsia e os furacões no Caribe para saber que é real e que está acontecendo hoje.
Isso é tudo muito triste, mas é tudo muito longe também. Não vai afetar o Brasil, essa terra abençoada por Deus. Certo? Errado. Nos últimos anos, o Nordeste brasileiro registrou algumas das secas mais severas da história, as enchentes no Sul e as ressacas no litoral paulista também fazem parte desse enredo. E por falar em enredo, vem aà o verão, o Carnaval, as chuvas intensas e as tragédias. O Brasil tem dois milhões de pessoas vivendo em áreas de altÃssimo risco. Uma pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) prevê que a elevação do nÃvel do mar provocada pelo aquecimento global pode levar ao desaparecimento de áreas como a Ilha de Marajó, na região Norte, e a Favela da Maré, no Rio de Janeiro.
O presidente eleito Jair Bolsonaro já se declarou mais de uma vez contrário ao Acordo de Paris e cético em relação ao aquecimento global. Suas razões, em tese, seriam econômicas. O principal papel do Brasil nessa história é preservar as suas florestas, em especial a Amazônia. Bolsonaro acha que a Amazônia ainda é uma fronteira agrÃcola a ser explorada. As gavetas e os arquivos digitais da Embrapa estão repletos de estudos e análises mostrando que isso não é verdade. à perfeitamente possÃvel e desejável que a agricultura e pecuária cresçam, tornem-se mais produtivas sem que seja necessário derrubar uma árvore sequer. O discurso do novo governo é um retrocesso claro, para o Brasil e para o mundo. O aquecimento global não é uma questão menor e nem um problema distante. Ele faz parte da nossa vida e está tornando o mundo ainda mais desigual. E de pobreza e desigualdade a gente entende bem.

Agostinho, parabéns pelo artigo. Achei que ficou ótimo – claro, simples, direto, cheio de bons exemplos e números interessantes. Keep the good work
Obrigado, Jorge. Abrs