Criação de novos impostos globais sobre as emissões de carbono e reformas das instituições internacionais para ajudar a financiar ações contra as alterações climáticas foram as propostas centrais da Declaração de Nairóbi, o documento final da primeira Cúpula do Clima da Ãfrica, que chegou ao fim nesta quarta-feira, na capital do Quênia. âEsta declaração servirá de base para a posição comum de Ãfrica no processo global de alterações climáticasâ, afirma o documento. âNenhum paÃs deveria ter de escolher entre as aspirações de desenvolvimento e a ação climáticaâ.
Com o financiamento climático como foco principal, a Declaração de Nairóbi constituirá a base da posição de negociação da Ãfrica na COP28, a Cúpula do Clima da ONU, marcada para novembro nos Emirados Ãrabes, de acordo com o presidente queniano William Ruto, anfitrião da reunião e responsável pelo anúncio do documento final. âA descarbonização da economia global é também uma oportunidade para contribuir para a igualdade e a prosperidade partilhadaâ, aponta o texto aprovado por unanimidade pelos lÃderes africanos após três dias de discussão.
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Como a declaração final da Cúpula da Amazônia, realizada no começo de agosto em Belém, o documento assinado pelos chefes de Estado na primeira Cúpula do Clima da Ãfrica reflete também a falta de consenso entre os paÃses que defendem as energias renováveis e aqueles que defendem que os combustÃveis fósseis â e especialmente o gás â são necessários para o desenvolvimento económico.
De acordo com as Nações Unidas, a Ãfrica contribui apenas com cerca de 2% a 3% das emissões globais de carbono, mas é o que mais sofre com as alterações climáticas. Eventos climáticos extremos como secas â no Chifre de Ãfrica â e inundações â em partes da Ãfrica Central e Ocidental â tornaram-se mais frequentes nos últimos anos. Por isso, a declaração apela aos maiores emissores mundiais de gases com efeito de estufa e aos paÃses mais ricos para que cumpram as suas promessas – destacando em particular a promessa não cumprida de 100 mil milhões de dólares em financiamento climático anual para as nações em desenvolvimento, feita há 14 anos.
Nosso entendimento comum tornou-se claro: a Ãfrica não é apenas o berço da humanidade, é, de fato. o futuro. Exigimos condições justas para que os nossos paÃses tenham acesso ao investimento necessário para desbloquear o potencial e traduzi-lo em oportunidades
A Declaração de Nairóbi também reivindica que os lÃderes mundiais se unam em torno de um imposto global sobre as emissões de carbono. No seu discurso de conclusão da cúpula, William Ruto criticou a âconfiguração injusta de quadros institucionais multilaterais que colocam perpetuamente as nações africanas em desvantagem devido a um financiamento dispendiosoâ. Durante a reunião, o presidente queniano William Ruto citou propostas da União Europeia para um imposto sobre transações financeiras (FTT) em 2011, que nunca obteve a aprovação unânime do Conselho Europeu necessária para se tornar lei, e poderia ser, potencialmente, um modelo para esse imposto global.
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Veja o que já enviamosApesar dos graves impactos da crise climática no continente, Ãfrica recebe apenas cerca de 12% do financiamento de que necessita para fazer face, segundo pesquisas. Além disso, os paÃses africanos reclamam que são forçados a pagar custos de empréstimos cinco a oito vezes superiores aos dos paÃses ricos, o que conduz a recorrentes crises de endividamento, impedindo a ampliação dos gastos para responder à s mudanças climáticas. A declaração propõe, portanto, a reforma do sistema financeiro global que obriga as nações africanas a pagar mais para pedir dinheiro emprestado e apela a que a vasta riqueza mineral do continente seja colhida e processada em Ãfrica.
Precisamos de apelos fortes e claros por reparações e mudanças, em vez de declarações mornas e contraditórias. à hora de os lÃderes mundiais e as instituições financeiras investirem trabalho e dinheiro para garantir que a Ãfrica tenha uma transição justa para as energias renováveis, em vez de ficar presa a mais combustÃveis fósseis
Durante os debates da Cúpula Climática da Ãfrica, governos e investidores privados comprometeram milhares de milhões de dólares em iniciativas verdes, incluindo um compromisso de 4,5 mil milhões de dólares (cerca de 4,2 mil milhões de euros) por parte da COP28 de Novembro, anfitriã dos Emirados Ãrabes Unidos (EAU). Mas a declaração alerta que desbloquear o crescimento verde em todo o continente ânuma escala que possa contribuir significativamente para a descarbonização da economia globalâ exige um aumento maciço do financiamento. âNa cúpula, o nosso entendimento comum tornou-se claro: Ãfrica não é apenas o berço da humanidade, é de fato. o futuroâ, disse o presidente Ruto na terça-feira (05/09). âExigimos condições justas para que os nossos paÃses tenham acesso ao investimento necessário para desbloquear o potencial e traduzi-lo em oportunidades.â
No mesmo dia, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que a energia renovável poderia ser âo milagre africanoâ se o continente conseguisse criar uma aliança com paÃses desenvolvidos, instituições financeiras e empresas tecnológicas para impulsionar o progresso. O clima da região é particularmente adequado para a geração de energia solar. âDevemos todos trabalhar juntos para que Ãfrica se torne uma superpotência de energia renovávelâ, disse Guterres.
Ativistas africanos fazem crÃticas
As reações à Declaração de Nairóbi não foram unânimes, com muitas ONGs africanas fazendo crÃticas ao documento. âA declaração é uma decepção e pressagia um resultado triste para a COP28â, disse Nnimmo Bassey, fundador da Fundação Saúde da Mãe Terra (Homef – Health of Mother Earth Foundation). âEstamos particularmente chocados com o fato de, apesar da declaração reconhecer que 60% da população em Ãfrica é de pequenos agricultores, não ter dito nada sobre apoiá-los e melhorar a prática da agroecologia, que é uma verdadeira solução climáticaâ, acrescentou Bassey durante entrevista da Assembleia Popular do Clima, que reúne ONGs com foco em justiça climática, questões ambientais e soberania alimentar.
No mesmo tom, Muhammed Lamin Saidykh, da Climate Action Network,  sublinhou âa preocupação de que algumas soluções climáticas sejam impulsionadas por interesses ocidentais” – que podem não beneficiar o continente e sua população. âà crucial que Ãfrica dê prioridade à construção de sistemas de energia renovável, electrificação, infra-estruturas e tecnologiasâ, disse Lamin.
Qualquer solução que permita a continuidade dos negócios da indústria de combustÃveis fósseis e que enfatize a limpeza em vez de fechar fontes de energia suja está fadada ao fracasso e causará ainda mais danos ao meio ambiente e à s comunidades
Conselheira Sênior para Ãfrica da Oil Change International, organização com foco em transição energética, Thuli Makama cobrou mais ousadia dos lÃderes dos paÃses do continente. âA União Africana precisa discutir a descolonização do setor energético de Ãfrica. Precisamos de apelos fortes e claros por reparações e mudanças de sistema neste momento crÃtico, em vez de declarações mornas e contraditórias”, criticou a advogada. âà hora de os lÃderes mundiais e as instituições financeiras investirem trabalho e dinheiro para garantir que Ãfrica tenha uma transição justa para as energias renováveis, em vez de ficar presa a mais combustÃveis fósseisâ.
CrÃticas semelhantes foram feitas por Maimoni Mariere Ubrei-Joe, do Programa de Justiça Climática e Energia, Amigos da Terra Ãfrica. âEsta Declaração de Nairobi carece destas ideias e poderia ser apenas mais um belo documento a caminho das prateleirasâ, afirmou o ativista queniano. âQualquer solução que permita a continuidade dos negócios da indústria de combustÃveis fósseis e que enfatize a limpeza em vez de fechar fontes de energia suja está fadada ao fracasso e causará ainda mais danos ao meio ambiente e à s comunidadesâ, acrescentou Ubrei-Joe.
O Greenpeace Ãfrica cobrou a falta de menção “à eliminação progressiva dos combustÃveis fósseis na Declaração de Nairobi”. Lily Odarno, diretora da ONG Força-Tarefa do Ar Limpo, disse que a cúpula teve um âfoco estreito nas finançasâ e o documento final não abordou suficientemente os desafios mais amplos que os africanos enfrentam. âExistem muitas metas sem uma estrutura viável para alcançá-las, por isso esperamos ver muito mais detalhes na COP28, em Dubaiâ.
Outros analistas foram menos céticos. âO impacto das alterações climáticas é muito real para Ãfrica. Por isso existe a urgência da situação, penso que onde há vontade, há um caminho.â , disse Serah Mekka, diretora executiva para Ãfrica da ONE Campaign, à emissora Al Jazeera. Kevin Juma, da The Nature Conservancy, apelou por uma ação imediata. âJá foram feitos anúncios antes sobre a entrega de financiamento climático ao Sul Global no valor de 100 mil milhões de dólares por ano â isso foi há 14 anos. Portanto, penso que o que precisa de ser feito é traduzir esses compromissos e anúncios em ações tangÃveis no terrenoâ, disse Juma
