No dia 23 de setembro, os satélites do Inpe (instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostravam que o avanço do fogo no Pantanal ainda não tinha atingido a Estação Ecológica Taiamã – área de mais de 11 mil hectares, composta por campos alagados, onde vivem 131 espécies de peixes e 267 espécies de aves, além de onças-pintadas, ariranhas e cervos. A chuva da semana anterior ajudou a conter os incêndios. Entretanto, seis dias depois, no dia 29, as imagens do Inpe registraram que o fogo já atingia 27% da Estação Ecológica. Pesquisadores alertam que o bioma ainda está muito ameaçado pelo fogo. “As duas próximas semanas serão crÃticas no Pantanal porque a previsão é de muito calor, baixÃssima umidade e nenhuma precipitação”, afirmou o coordenador substituto do Programa Queimadas, do Inpe, em audiência pública, nesta quarta (30/09) na Câmara dos Deputados.
[g1_quote author_name=”Claumir César Muniz” author_description=”Biólogo e pesquisador da Universidade Estadual do Mato Grosso” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Em 10 anos, o bioma perdeu 16% de sua vegetação. O Pantanal está encolhendo. E tem cada vez mais e mais áreas à mercê do fogo.
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Veja o que já enviamosNo mesmo debate, o biólogo professor da Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat), fez questão de destacar que os focos de incêndio ainda estão espalhados pelo Pantanal. “à preciso ainda reforçar o combate este ano e também começar a se preparar para o ano que vem. Não podemos delegar o controle das queimadas à s chuvas”, apontou o pesquisador. De acordo com o Inpe, a chuva em todo o Pantanal só deve chegar em meados de agosto. “Até lá, teremos temperaturas acima de 40 graus, com sensação térmica de 50 nas cidades e uma umidade sempre abaixo de 30%. à uma combinação terrÃvel para o combate ao fogo pois qu Claumir César Muniz,alquer fagulha se transforma em chamas”, explicou Setzer.
Ilha localizada em área de encontros de águas no Rio Paraguai, a área da estação ecológica, que abriga uma base de pesquisas da Unemat, teve 3,1 mil dos seus 11,6 mil hectares atingidos pelo fogo. “As árvores de mata alagada, como a do Pantanal, não têm a mesma capacidade de regeneração das árvores do Cerrado. Será preciso um trabalho para recuperar a vegetação perdida para o fogo”, frisou a bióloga e professora Solange Ikeda Castrillon, também da Unemat, que participa, na Taiamã, do PELD (Projeto Ecológico de Longa Duração) Pantanal. “Todo o bioma é riquÃssimo em biodiversidade e ainda é impossÃvel avaliar o impacto dessa temporada de incêndios”, acrescentou a pesquisadora na audiência pública promovida pela comissão externa da Câmara sobre o enfrentamento das queimadas.
O engenheiro florestal VinÃcius Silgueiro, coordenador do Núcleo de Inteligência Territorial do ICV (Instituto Centro Vida), alertou para a situação das áreas protegidas, ainda mais crÃtica pelas dificuldades de acesso. âOs incêndios esse ano no Pantanal têm consumido grandes áreas em um intervalo de poucos diasâ, disse VinÃcius Silgueiro, acrescentando, que, no caso da Estação Ecológica Taiamã, o acesso só pode ser feito por via fluvial ou aérea. âIsso indica a necessidade de priorização e máximo esforço no combate a essa frente de incêndioâ, destacou o coordenador do ICV.
O instituto vem alertando ainda para o estrago feito pelo fogo no Parque Estadual Encontro das Ãguas – entre os municÃpios de Poconé e Barão do Melgaço, em Mato Grosso – que teve pouco mais de 100 mil hectares, 93% da sua área total. O parque é considerado o maior refúgio nas Américas de onça-pintada, espécie sob risco de extinção. De janeiro até o dia 20 de setembro, o parque registrou 471 focos de calor; em 2019, não foi registrado foco algum.
[g1_quote author_name=”Alberto Setzer” author_description=”Coordenador substituto do Programa Queimadas do Inpe” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Temos mais de um mês sem chuva, temperaturas na faixa de 40 graus, nenhuma precipitação prevista, umidade relativa abaixo de 25%: qualquer pessoa sabe que, riscou o fósforo, a vegetação vai queimar
[/g1_quote]A pesquisadora Solange Ikeda Castrillon alertou que os incêndios florestais no Pantanal estão afetando não apenas a fauna e a flora mas também boa parte da população. “Comunidades ribeirinhas estão evitando beber água do Rio Paraguai e seus afluentes com medo dos resÃduos das queimadas que estão caindo nos rios. E há uma mobilização para levar água aos animais que estão morrendo de sede com a falta de chuva e a seca nos rios e lagoas”, disse a professora da Unemat, defendendo a necessidade de recuperação das cabeceiras dos rios. “O Pantanal é uma grande área de planÃcie úmida que é encharcada pela água dos rios que nascem no Planalto. Mas o desmatamento e outras ações humanos estão afetando a vegetação nas cabeceiras dos rios que precisam ser conservadas”, acrescentou Solange durante a audiência pública.
O pesquisador Claumir César Muniz, também da Unemat, destacou que os números recordes de incêndios e de seca registrados em 2020 representam uma tendência que ameaça a região. “Em 10 anos, o bioma perdeu 16% de sua vegetação. O Pantanal está encolhendo. E tem cada vez mais e mais áreas à mercê do fogo. São queimadas provocadas pelos humanos. Precisamos usar a ciência para conter a devastação e prevenir os incêndios”, destacou o biólogo no debate promovido pela Câmara.
Chefe da Divisão de Previsão do Tempo e Clima do Inpe, a meteorologista Izabelly Carvalho da Costa explicou que o ano de 2020 teve precipitação abaixo da média desde março. “Tivemos um ano muito seco e a previsão é que, pelo menos, nos próximos 10 dias não haja chuva no Pantanal, principalmente no Mato Grosso. A previsão é de muito calor e de umidade muita baixa”, explicou a pesquisadora do Inpe. âA estação chuvosa só deve começar realmente em meados de outubroâ, acrescentou, frisando ainda que a previsão para próximo trimestre é de um volume de chuvas novamente abaixo da média na região.
O coordenador substituto do Programa Queimadas destacou o ano de fogo no Pantanal. de janeiro até 30 de setembro, houve aumento de 195% no número de queimadas detectadas no Pantanal comparando com o mesmo perÃodo de 2019. âO aumento é de quase 200% e devemos levar em conta que, em 2019, já houve um aumento de mais de 320% em relação a 2018â, afirmou Alberto Setzer. âEm 2020 o número de focos já ultrapassou qualquer outro ano que tÃnhamos registrado na série histórica, desde 1998â, alertou.
Setzer mostrou mapas com os focos de incêndio no Pantanal no fim de semana. âSão centenas de quilômetros de frente de fogo que deveriam ser combatidas. Para isso, hoje, contamos com centenas de brigadistas, heróis na verdade, que estão tentando o possÃvel para controlar isso. Mas nós precisarÃamos de milhares – na verdade, dezenas de milhares de pessoas – para conseguir enfrentar o fogo em área tão extensa, com distância de centenas de quilômetros entre os vários locais onde o satélite indica as queimadasâ, avaliou o coordenador, voltando a alertar para os próximos dias. âTemos mais de um mês sem chuva, temperaturas na faixa de 40 graus, nenhuma precipitação prevista, umidade relativa abaixo de 25%: qualquer pessoa sabe que, riscou o fósforo, a vegetação vai queimarâ, destacou.
