(Teresa Anderson e Harpreet Kaur Paul*) – Em todo o mundo – de Grécia, Canadá e Alemanha à Ãndia, à China e à Ãfrica do Sul -, altas temperaturas, incêndios florestais e inundações sem precedentes destruÃram casas e ceifaram a vida de centenas de pessoas nas últimas semanas.
Como afirma o relatório histórico do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), é inequÃvoco: os extremos climáticos estão se tornando mais frequentes e intensos, e uma ação urgente em escala global é necessária para evitar a catástrofe climática.
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Mas, em uma série recente de importantes reuniões internacionais sobre o clima, os paÃses ricos mostraram relutância em propor o financiamento necessário para permitir que as nações em desenvolvimento enfrentem e respondam à crise climática.
[g1_quote author_name=”Yannick Glemarec” author_description=”Diretor-executivo do Fundo Verde para o Clima” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Costumávamos ter mais dinheiro do que projetos. Agora temos mais projetos do que dinheiro
[/g1_quote]Doze anos atrás, os paÃses ricos se comprometeram a fornecer US$ 100 bilhões por ano até 2020 para adaptação e mitigação do clima nos paÃses em desenvolvimento. Além de não cumprirem essa promessa, 80% dos fundos que apresentam são na forma de empréstimos ou financiamento privado, em vez de doações.
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Veja o que já enviamosAs reuniões do mês passado do conselho do Fundo Verde para o Clima (GCF), os ministros do clima do G20 e um grupo mais amplo de ministros do clima no Reino Unido repetiram esse padrão angustiante.
Em vez de anunciar metas financeiras claras, os paÃses ricos enganaram o mundo com promessas de âtrabalhar juntosâ para âentregar um planoâ para cumprir a promessa de US$ 100 bilhões.
Quando os observadores alertam que o financiamento do clima é essencial para uma Cop26 bem-sucedida, é porque os paÃses em desenvolvimento precisam urgentemente desses fundos para poder responder à crise climática – e porque o consenso não pode ser construÃdo sobre as fundações destruÃdas de promessas quebradas.
Mas na última reunião do GCF, o diretor executivo Yannick Glemarec disse aos membros do conselho do fundo: âCostumávamos ter mais dinheiro do que projetos. Agora temos mais projetos do que dinheiroâ.
à medida que os fundos se esgotam, o GCF, que foi criado para distribuir financiamento climático aos paÃses em desenvolvimento, está considerando a perspectiva de reduzir pela metade os fundos disponÃveis em 2022.
Para piorar as coisas, os paÃses vulneráveis ââtemem que suas propostas para projetos de adaptação estejam sendo rejeitadas pelo painel técnico do GCF com base no fato de que também poderiam ser classificados como projetos de âdesenvolvimentoâ. Eles dizem que o painel insiste em requisitos técnicos árduos e coleta de dados que os paÃses de baixa renda e pós-conflito simplesmente não podem atender.
Essa distinção artificial entre âadaptação climáticaâ e âdesenvolvimentoâ, e a falta de compreensão por parte dos paÃses desenvolvidos ricos estão criando mais obstáculos para aqueles que precisam urgentemente de apoio para adaptação.
O fracasso dos paÃses ricos em cumprir seus compromissos financeiros está deixando comunidades empobrecidas em apuros, pagando por uma crise com a qual menos contribuÃram.
Em Bangladesh, os impactos climáticos significam que até 2030 quase um milhão de pessoas enfrentarão o deslocamento todos os anos, mesmo se as metas do Acordo de Paris forem cumpridas – e o dobro, se não for. As emissões per capita de Bangladesh são cerca de um décimo das emissões da pessoa média no Reino Unido e trinta vezes menos do que nos Estados Unidos, no Canadá ou na Austrália.
O financiamento do clima será fundamental para que paÃses como Bangladesh aumentem a resiliência de plantações, terras e meios de subsistência a enchentes, secas e ciclones, e para apoiar os indivÃduos a enfrentar essas interrupções.
A adaptação não requer apenas investimento em infraestrutura, mas também proteção social na forma de garantias de emprego, reciclagem e requalificação para se adaptar, bem como moradia, alimentação e apoio financeiro para superar crises e prevenir o aumento da pobreza quando ocorre um desastre.
A mesquinha promessa de US$ 100 bilhões (e o fracasso em cumpri-la) deve ser vista no contexto dos custos prováveis ââda ação climática para mitigação, adaptação e tratamento de perdas e danos.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estima custos de US$ 1,6 trilhão a US$ 3,8 trilhões anuais apenas para a transformação dos sistemas de energia entre 2016 e 2050. A Comissão Global de Adaptação (GCA) estima que os custos anuais de adaptação são provavelmente de US$ 180 bilhões por ano entre 2020 e 2030. E a modelagem da Climate Analytics estima que os custos de perdas e danos induzidos pelo clima chegarão a cerca de US$ 300 bilhões até 2030 somente no sul global.
Comparado com os trilhões necessários a cada ano, os US$ 20 bilhões anuais em financiamento baseado em subsÃdios fornecidos pelos paÃses desenvolvidos destacam o abismo crescente entre necessidades cada vez maiores e promessas não cumpridas.
Sem mencionar o fato de que, a cada ano, US$ 40 bilhões a mais de riqueza flui da Ãfrica para o norte global – na forma de extração de recursos, evasão fiscal e reembolso de dÃvidas – do que é recebido na forma de ajuda, empréstimos e remessas.
Com a crise climática entrando em uma nova e perigosa fase de aquecimento e impactos, os paÃses ricos não devem apenas cumprir suas promessas, mas estabelecer novos compromissos que estejam de acordo com a necessidade real.
Caso contrário, o risco de uma seca no financiamento climático pode deixar a Cop26 – e o potencial de ações climáticas futuras – em crise.
*Teresa Anderson é coordenadora de PolÃtica Climática na ActionAid International; Harpreet Kaur Paul é consultor em PolÃtica Climática na ActionAid International
** Artigo publicado originalmente, em inglês, na Climate Home News
