Todos os anos, no mês de dezembro, o profeta da chuva José Erasmo Barreira, de 76 anos, do Distrito Cipó dos Anjos, em Quixadá, no Semiárido cearense, busca na mata um tatu fêmea prenha. Encontrar esse animal de barriga é um sinal de que o inverno vai ser bom: âHoje, encontrar um tatu é muito difÃcil. As coisas mudaram muitoâ, reclama o sábio.
Seu Erasmo sucedeu o seu pai como profeta da chuva no inÃcio dos anos 70, quando aprendeu a criar intimidade com a natureza. Sua missão é orientar a plantação dos agricultores, prevendo as chuvas e outros fenômenos climáticos. Ao longo de anos descobriu como acompanhar o curso dos ventos, o nascer e o pôr do sol, a disposição das estrelas, o comportamento de determinados animais e com isso, prever, a cada ano, se o inverno seria bom ou não. Em 1998, com a morte do pai, assumiu de vez as previsões, dando continuidade à tradição.
A história desses profetas se confunde com a trajetória de adaptação das famÃlias agricultoras à s caracterÃsticas climáticas da região, onde as chuvas, que variam entre 300mm e 700mm, se concentram em apenas quatro ou cinco meses do ano. De tão Ãntimos da natureza, eles já percebem os efeitos das mudanças climáticas e têm buscado adaptar suas observações.
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosA profetiza Francisca Narcisa da Silva, de 52 anos, moradora do Bairro Campo Velho, também em Quixadá, no Ceará, realiza previsões há dois anos. Ela, que sempre auxiliou o pai, este ano começou a atuar sozinha. Uma das suas experiências de previsão das chuvas envolve observar as borboletas amarelas, que costumam chegar aos montes à beira do açude Cedro, que fica na área rural do municÃpio: âNesses meses, a gente observa se as abelhas vão pousar na água e sair rápido, o que indica que o inverno vai ser bom.
Narcisa explica que se as abelhas pousam e permanecem na água é sinal de que o inverno vai ser de poucas chuvas. âElas gostam de ambientes quentes, então, se ficarem, é sinal de inverno secoâ, esclarece em tom didático. Desta vez, ela enfrentou dificuldades com essa experiência, pois além das borboletas não comparecerem no perÃodo esperado, o açude vem perdendo cada vez mais o seu volume de água. âCada vez que eu vou observar, ele [o açude] está mais longe. Está secandoâ, explica.
Tanto Erasmo quanto Narcisa passam meses observando os sinais da natureza para, no mês de janeiro, compartilharem os resultados das suas previsões. Em julho, o profeta observa se as flores do pé de Cumarú seguram o fruto. âSe você olhar e ver que tem mais flor do que fruto, o inverno vai ser fracoâ, explica. Ele também vai em busca da casa do pássaro Maria de Barro, uma ave tÃpica da Caatinga, mas que é comumente conhecida como João de Barros. âSe ela fizer a porta da casa virada para o sol poente, tem inverno, agora, se a porta for construÃda para o nascente, nem espere pela chuvaâ, informa. O sol poente indica que o perÃodo chuvoso vai encontrar caminho para reinar.
A habilidade de identificar os sinais da natureza é adquirida, após anos e anos de observação. Muitos desses profetas são iniciados nestas experiências pelos pais ou pessoas mais velhas. A atividade exige concentração e esforço. Narcisa conta que, como de costume, acordou na madrugada do último dia 20 de outubro para observar o curso do Vento Norte. A ideia desta experiência é observar se esse vento chega com intensidade, sinalizando chuva.
âEu acordei à meia noite, fiquei uma hora e meia esperando, mas não senti o vento chegar. Após muito tempo, ele chegou, lento, sorrateiro, sinal de que não deve chover muitoâ, analisa Narcisa. O Vento Norte é uma corrente de vento que sopra do Sul na direção do Norte, sempre no mês de outubro. Muitos consideram que ele traz as chuvas. Para os profetas, se ele chegar por volta da 1h30 da madrugada com intensidade, é sinal de inverno com chuva. Mas isso não aconteceu este ano, quando, na verdade, como contou narcisa, ele demorou e quando chegou foi fraco e sorrateiro.
Mesmo com todas as dificuldades impostas pelos avanços da crise climática, Erasmo e Narcisa indicam que as análises realizadas até o momento sinalizam que o próximo inverno será de chuvas, mas não com intensidade. Eles afirmam que dependem de outras observações, a serem realizadas no mês de dezembro, para completar as previsões.
Os efeitos do El Niño
Usando outro método cientÃfico, o professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), Humberto Barbosa, identificou os mesmos problemas que os profetas: pouca chuva e aumento da temperatura.
Ele explica que essa previsão preliminar é resultado do impacto do El Niño e da erupção do vulcão Hunga Tonga-Hunga Ha’apai, em janeiro de 2022, na Indonésia. A erupção injetou umidade na estratosfera, segunda maior camada da atmosfera terrestre. âO planeta está mais quente, o que leva a diminuição de chuva no lugar onde chove menos, justamente o caso do Semiáridoâ, explica.
Barbosa conta que é preciso esperar até dezembro, pois quanto mais próximo da chegada do inverno se realiza as previsões, maiores são as chances de ser assertivo. Geralmente, o inverno no Semiárido ocorre entre os meses de janeiro a junho ou fevereiro a maio. âAté o momento, vamos ter redução de chuva e aumento da temperatura. A nossa esperança é que essa massa de ar seco e as altas temperaturas que dominam o Atlântico Sul se dispersem para mudar esse quadro,â explica.
O pesquisador observa que âtanto os cientistas comprometidos com o meio ambiente, quanto os profetas da chuva, há tempos, alertam para o avanço dos efeitos das mudanças climáticasâ. Para ele, já está claro que as mudanças do clima não são problemas apenas ambientais, mas âeconômicos, sociais e de saúde públicaâ, complementa.
Com os perÃodos chuvosos mais intensos, aumenta o volume de doenças, os preços dos alimentos sobem e as pessoas que ainda não têm acesso à água ficam ainda mais vulneráveis à s enfermidades. Essa é a razão pela qual ele defende que a sociedade e o poder público se organizem para conter esses efeitos. âAno que vem é um ano eleitoral. Muitos polÃticos costumam usar isso [a seca] como argumento polÃtico para ganhar votos. Eu espero que, tanto a sociedade quanto o poder público escutem a ciência e os profetas e ajam para conter o avanço dos efeitos das mudanças climáticasâ, conclui.
Quando esperou pelas borboletas à s margens do açude Cedro e elas não chegaram, Narcisa conta que anotou o que viu e chegou a uma conclusão: âa natureza pede socorro.â Ela afirma que pretende repetir a experiência no ano seguinte para confirmar se, de fato, houve uma mudança no comportamento dessa espécie. âEu acredito que tudo isso seja porque se está produzindo muito lixo, fazendo queimadas, o homem está provocando issoâ, opina.
Sempre no dia 6 de janeiro, os profetas do Semiárido se reúnem para compartilhar o resultado das suas observações no Encontro de Guardadores de Sementes e de Experiência, em Orós, no Ceará. Há trinta anos, esse evento se repete e além de ser um momento de confraternização e valorização da prática, é bastante esperado por centenas de famÃlias que guiam as suas plantações pelas sábias palavras dos profetas.
Em tempo: O cientista, referência em estudos sobre aquecimento global, Carlos Nobre, previu, em entrevista ao portal Brasil 247, que âo Nordeste sofrerá uma seca intensa entre fevereiro e maio de 2024â. Ele atribui essa previsão à s fortes temperaturas no Oceano Atlântico ao Norte da linha do Equador, que também foram responsáveis pela seca na Amazônia.
