Aos 92 anos, o cacique Raoni não quer briga. Desde que puxou a orelha do ex-ministro do Interior Mário Andreazza, lá pelos idos dos anos 1980, quando liderava a luta pela demarcação da terra de seu povo, a maior autoridade indÃgena brasileira e uma das mais reconhecidas internacionalmente não aparece mais em público armado e nem pintado para a guerra.
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Todas as vezes que deixa a Terra IndÃgena Capoto Jarina, onde vive à s margens do Rio Xingu, no Mato Grosso, circula em missão de paz.  Em suas aparições públicas, usa seu inconfundÃvel cocar de penas amarelas, um colar caiapó e, obviamente, o inseparável ornamento no lábio inferior, o botoque. Apesar de ter aprendido português com os irmãos Villas-Boas, Raoni faz questão de, em público, falar na sua lÃngua. Seu neto Beptuk Metuktire costuma acompanhá-lo nas viagens, fazendo a tradução.
Na Semana do Meio Ambiente, Raoni esteve no Museu do Amanhã, no centro do Rio de Janeiro, para lançar o minidocumentário âO chamado do cacique: herança, terra e futuroâ. O filme é uma celebração a sua jornada de luta. âNão vou desistir e vou continuar lutando até quando o meu corpo resistirâ, já avisou Raoni Metuktire, lÃder da etnia Kayapó, em diferentes oportunidades. O cocar que usou na turnê que fez com o cantor Sting, em 1989, foi vendido para Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), órgão que faz a gestão do museu, mas, antes do inÃcio da apresentação do filme, Raoni entregou uma réplica do acessório indÃgena ao diretor-geral do IDG, Ricardo Piquet.
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Veja o que já enviamosO filme de Lucas Ramos é uma prova da sua resistência. Gravado em julho de 2023, na aldeia Piaraçú, no Mato Grosso, quando o cacique se reuniu com representes de diferentes povos indÃgenas em prol do futuro do planeta, ficou claro que Raoni se mantém na defesa da sobrevivência dos povos indÃgenas.
âPor tudo que cacique Raoni viu nessas nove décadas de vida, ele estaria no direito de ser revoltado, mas, há bastante tempo, ele vem falando exatamente o contrário. Tem tido, vamos esquecer o passado e olhar para o futuroâ, comenta Paulo Moutinho, pesquisador sênior do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), instituição que patrocinou o documentário junto com o Instituto Raoni.
Preservar as terras indÃgenas não significa apenas proteger os direitos desses povos, o que está prevista na Constituição. Ã, sobretudo, garantir âa sobrevivência do planetaâ, salienta Moutinho. Cerca de 100 a 150 bilhões de toneladas de carbono estão armazenados na floresta Amazônica, o equivalente a emissão global de gases de efeito estufa que deixou ser emitido em uma década. âEsse volume está preservado dentro da floresta pelo esforço de grande parte dos povos indÃgenas, dos quilombolas, dos extrativistas…â, comenta.
Destaque na produção de algodão, milho e soja no Mato Grosso, estado onde vive Raoni, o agronegócio deveria rever sua posição. Muitos empresários do setor costumam defender a falsa ideia de que âé muita terra para pouco Ãndioâ. Mal sabem eles, explica Moutinho, que o maior investimento do negócio deveria ser justamente a preservação das terras indÃgenas, porque são os povos originários, ao protegerem a floresta, que garantem âo ar condicionado do planetaâ.
âOs povos originários mantêm uma relação Ãntima com seus territórios e são essenciais para que o paÃs e o mundo se adaptem à s mudanças climáticas. Eles estão dispostos a contribuir com a soluçãoâ, analisa Ramos, diretor do documentário.
