Sinais do apocalipse e do final dos tempos ou consequências ainda reversÃveis da ação humana no planeta? Os eventos extremos estão cada vez mais frequentes e intensos, o que leva especialistas, inclusive, a fazerem alertas de um possÃvel colapso ambiental de grandes proporções. Mas, afinal de contas, como interpretar os efeitos e as causas das mudanças climáticas em relação à perspectiva religiosa e espiritual da vida? Como as diferentes religiões ou sistemas de crenças abordam a degradação ambiental e a crise climática? à possÃvel estabelecer um diálogo entre religião e clima que colabore para diminuir a desinformação e ansiedade climática?
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Na opinião do sociólogo e pesquisador do tema Frederico Salmi, inserir a questão religiosa nos debates sobre o futuro do planeta não somente é possÃvel, como é algo crucial para transformar a forma como as pessoas enxergam o meio ambiente. âQuando a gente vai falar de recursos da natureza, os termos importam. Então, é recurso da natureza eu chamar de água, mas os povos indÃgenas e algumas tradições africanas vão chamar de uma entidade vivaâ, explica o pesquisador do programa de pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro do grupo Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (Temas/UFRGS).
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Veja o que já enviamosEscritor, professor de história e babalaô no culto de Ifá, Luiz Antônio Simas explica que na visão das religiões afro-brasileiras, criadas no Brasil a partir de referências africanas – como o candomblé – e nas religiosidades indÃgenas, a natureza é vista como o próprio sagrado. âVocê sacraliza a sua relação com o rio, com a folha, com a árvore, você sacraliza a sua relação com o mar, com o vento, sacraliza a sua relação, portanto, com o meio ambiente, com aquilo que nos cercaâ, descreve Simas, que é neto da Mãe Deda, dona Ribeira Silva Rocha, iniciada em uma casa de santo vinculada à tradição do Xangô pernambucano.
A partir de suas vivências em terreiros e com os sistemas de organização do mundo afro-brasileiros, como o escritor define, Simas explica que os ritos destas crenças dependem da preservação ambiental: âEu costumo dizer que essas religiosidades, esses sistemas de organização do mundo, são naturalmente vinculados ao respeito à natureza, ao ambiente, à quilo que nos cerca, porque quando você destrói um rio, você a rigor está dissipando a energia do Orixá, está dissipando a energia do encantadoâ.
Nascido e criado na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, Marx Reis sempre teve sua trajetória atravessada por questões sociais, o que o levou a entrar para a ordem católica dos frades franciscanos. Atualmente, Frei Marx participa do Sefras, uma Ação Social Franciscana que atua no combate à fome e na defesa dos direitos humanos de comunidades vulneráveis. Durante suas experiências junto a essas comunidades, Marx percebeu diversas vezes a ligação entre as questões sociais e ambientais. Segundo ele, a interpretação feita pelas religiões cristãs da ideia de dominação do homem sobre a natureza é uma das razões para a forma predatória como a humanidade age em relação ao meio ambiente. âEssa dificuldade de pensar todo esse universo vai fazer com que a gente contribua no pensamento ocidental, com uma ideia de domÃnio sobre todas as criaturasâ, afirma o frei.
A atuação dos franciscanos é inspirada na figura de São Francisco de Assis, frade que viveu na Itália no século XII, e que ficou conhecido pela defesa dos animais e pela visão diferente com relação à natureza. âSão Francisco inaugura uma visão nova, dizendo que toda vez que a gente diminui a grandeza de todas as vidas, é como se tivesse sequestrado o louvor a Deusâ, pontua Marx.
Nos últimos anos, a questão ambiental passou a ser discutida com maior ênfase por diferentes setores da Igreja Católica, principalmente, depois do lançamento da encÃclica Laudato Siâ pelo Papa Francisco, uma série de textos e orientações sobre consumismo e desenvolvimento sustentável. âO Papa Francisco e, também nós franciscanos, começamos a dizer o seguinte: ou a gente muda de vida ou o sangue dos mais vulneráveis será nossa culpa, porque quem vai sofrer e quem mais sofre são os mais pobres. São os ribeirinhos que não têm para onde recorrer, são os indÃgenas que vão tomar água envenenada, são as mulheres de favela que vão ver suas casas sendo derrubadas sobre suas cabeçasâ.
A questão do fim do mundo ou o fim da humanidade
Segundo Frederico Salmi, as narrativas apocalÃpticas sempre estiveram presentes nas religiões âadâmicasâ (com origem a partir da figura de Adão), como o cristianismo, o judaÃsmo e o islamismo. Por outro lado, existem crÃticas a essa visão, feitas principalmente a partir dos povos originários e das religiões afro-brasileiras. Frederico Salmi cita como exemplo as obras âIdeais para Adiar o Fim do Mundoâ de Ailton Krenak e âA Queda do Céuâ de Davi Kopenawa. âQuando o céu está caindo, não deixa de ser uma referência direta a esse apocalipse, que é o fim do mundo, quando o céu vai cair. Então, aà você vê a fusão nessa narrativa religiosa, espiritualizada, de outras comunidadesâ.
O final do mundo, nesse caso, representaria a extinção da espécie humana, mas não necessariamente de todas as formas de vida no planeta. âTem uma lógica muito bonita dos povos indÃgenas: o Krenak usa isso, que somos comedores de montanhas. Porque a gente, como a gente não enxerga a montanha como uma entidade viva, supra, espiritualizada, eu vou lá e posso comer, porque é só uma coisa, para eu degustarâ, comenta Frederico Salmi.
O humano é que vai ser expelido desse ecossistema, por conta, em larga medida, de tudo que cometeu. Mas o mundo continua
Entre os efeitos da disseminação da crise climática e das narrativas apocalÃpticas, o professor da UFRGS menciona a ansiedade e a depressão climática, o que, de acordo com ele, leva a um estado de congelamento. âJá que o mundo vai acabar, então, acabou a minha própria vida, enquanto sujeito no mundoâ.
A partir de um outro lugar, Luiz Antônio Simas contextualiza o entendimento da destruição da vida a partir das crenças afro-brasileiras. âElas trabalham com a ideia de que se nós não cuidarmos do sagrado, a vida pode se extinguir. Isso é uma questão de responsabilidade. Então, a gente tem que dar uma resposta responsável a esse tipo de coisaâ. Segundo o escritor, essa perspectiva leva a uma atuação mais ativa na defesa da natureza/sagrado e torna essas religiões visceralmente ecológicas. âO humano é que vai ser expelido desse ecossistema, por conta, em larga medida, de tudo que cometeu. Mas o mundo continuaâ, complementa Simas.
Fé no Clima
Uma das questões levantadas por Frederico Salmi é como as religiões podem ajudar a combater a desinformação climática. âComo eles podem ajudar a ter informação cientÃfica qualificada para uma ampla parcela da sociedade, nos seus diferentes nichos religiosos?â. Sobre isso, o professor cita como exemplo positivo do diálogo entre religião e clima, a iniciativa âFé no Climaâ. âA religião não é neutra, ela tem uma posição polÃtica no mundo, e na questão climática, agora ela começa a se posicionar de maneira diretaâ, afirma Salmi.
Criado pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser), o projeto reúne pessoas de diferentes religiões, cientistas e representantes dos povos originários em prol da defesa do meio ambiente e da justiça climática. âEla é muito benéfica, porque ela busca juntar os diferentes para discutir uma questão de maneira qualificada. Todo mundo no mesmo espaço, pautando como é que a gente vai evitar o fim do mundoâ, comenta o sociólogo da UFRGS.
De acordo com o pesquisador, esses diálogos têm o potencial de estimular a troca de conhecimentos e visões de mundo, principalmente a partir dos saberes e tradições dos povos originários e afro-brasileiros. âSe eu entender que o rio é um ser vivo, na visão da matriz africana e dos indÃgenas no Brasil, muda a minha relação com o outro e com o mundoâ. Como resultados, Frederico Salmi cita a possibilidade de buscar direitos para a natureza. âPor isso que alguns paÃses na América Latina já colocaram na sua Constituição, estou falando de Equador, Colômbia e BolÃvia, reconhecendo os direitos da natureza. Isso é religioso, é uma entrada pelo âmbito religioso, que faz diferença direta na vida das pessoasâ, explica.
Luiz Antônio Simas defende a necessidade de reconstrução da relação do ser humano com o mundo, algo que, segundo ele, deveria ser ensinado nas escolas, mas não na ideia de buscar a conversão das pessoas para as religiosidades afro-brasileiras e indÃgenas, e sim como alternativa para evitar a destruição da vida humana. âEu acho que a gente precisa, eu vou falar uma coisa aqui, que muita gente já falou, muito preto velho já falou, muito caboclo já falou, mas a gente precisa se desumanizarâ. Simas explica que esse desumanizar está ligado a ideia de que a existência humana só faz sentido se integrada ao meio ambiente.
âEntão, a rigor é você derrubar essa casa e usar a construção de uma outra ideia de casa, outra ideia de moradia. à ousar uma outra relação com o planeta, é ousar uma outra relação com os seres e com as comunidades, porque senão, a gente vai assistir mais uma destruição, não da Terra, mas mais uma destruição dessa forma de vida que a gente temâ, atesta o escritor ao lembrar que em diversos momentos da história do planeta, outras extinções em massa já aconteceram.
Pautar a defesa da vida no planeta a partir da religião
Marx Reis relaciona a religiosidade com as questões culturais que fazem parte da sociedade. De acordo com o frei, mesmo que uma pessoa não pratique uma religião, diferentes aspectos da sua vida vão ter relação com as crenças predominantes na sociedade, exemplo disso são as celebrações e festas realizadas em datas como o Dia de Iemanjá e o dia de Nossa Senhora Aparecida. âTodas elas, a cristã, a judaica, a islâmica e as de matriz africana, todas têm uma responsabilidade, porque aglomeram sujeitos que constroem tecidos sociaisâ, explica Marx, para quem as religiões precisam assumir compromissos com a defesa da vida e a justiça ambiental.
âà justo nós pegarmos um pedaço de madeira, derrubar e botar o rosto de Nossa Senhora, acender vela e acabar com a Amazônia pela exploração dos altares, das imagens, das catedrais? Não, não é justoâ. Na visão do frade franciscano, as religiões possuem poder e influência inclusive em debates polÃticos, como foi durante as eleições presidenciais brasileiras no confronto entre Lula e Bolsonaro, com direito a participação de um suposto padre em um debate eleitoral.
Frederico Salmi vai na mesma direção de pensamento, o sociólogo aponta que para existir uma mudança real na sociedade, as religiões precisam assumir seu papel nas discussões polÃticas, como um caminho para pautar polÃticas climáticas em contraponto ao modelo neoliberal e extrativista. âNão dá para não discutir crise climática sem discutir a premissa, por exemplo, da liberdade absoluta. A liberdade absoluta é um engodo para garantir a manutenção do capitalismo. Então, se a religião consegue pautar isso, no sentido de, vamos discutir liberdade religiosa como respeito à visão do outro, desde que essa visão do outro, essa liberdade, não permita que ele me destruaâ.
à justo nós pegarmos um pedaço de madeira, derrubar e botar o rosto de Nossa Senhora, acender vela e acabar com a Amazônia pela exploração dos altares, das imagens, das catedrais? Não, não é justo
Outro exemplo da força polÃtica da religião no Brasil, a Frente Parlamentar Evangélica (FPE) reúne 132 deputados e 14 senadores, de acordo com levantamento feito pelo Iser e divulgado pela Agência Pública. As igrejas que mais possuem representantes são a Assembleia de Deus, Batista e Universal do Reino de Deus. De acordo com o professor da UFRGS, assim como existem evangélicos que defendem o agronegócio, existem evangélicos que defendem a vida como premissa básica, o que vai ao encontro da defesa do clima. âSerá que eles vão começar a discutir a vida acima de tudo? O Laudato Siâ mostra que sim, existe um primeiro movimento. Fé no Clima é outro indicativo que mostra que simâ.
O sociólogo explica que a questão da vida não é discutida pelo sistema de organização capitalista, mas no âmbito religioso sim, por isso, as religiões, independente de suas diversidades, podem ajudar a pautar uma transformação no capitalismo por meio da defesa da vida. âO ser humano está chegando no limiar de se auto-extinguir. E a religião tem muito para contribuir nesse lugar, principalmente para discutir a vida como premissa organizativa do social versus a premissa do acúmulo de capital, recurso material acima da vida. Essa é uma discussão importante e a religião tem muito a agregar nelaâ, destaca Frederico Salmi.
Sobre as pautas e polÃticas que as religiões podem ajudar a transformar, Marx Reis destaca três pontos principais: o direito à terra, – não somente para produzir, mas para a vida plena das comunidades, a exemplo das indÃgenas e quilombolas; o direito à alimentação saudável e que não dependa da degradação ambiental; e âpor último, nós temos que mudar a concepção que a gente tem de que a floresta e a vida como um todo seriam uma fera selvagem. A vida e a natureza são frágeis e podem ser desequilibradasâ. Segundo o frei, essa mudança de atitude passa também por exercer de forma um pouco mais aguerrida a fé em defesa de todas as formas de existência.
