A âcaixa d´água do Brasilâ está secando. Esse apelido não é ocasional. Conhecido por abrigar oito dentre as 12 principais bacias hidrográficas do paÃs, o Cerrado está sofrendo com a falta de chuvas. à medida que o desmatamento avança no segundo maior bioma brasileiro â e também no primeiro, a Amazônia -, alguns rios estão literalmente sumindo do mapa. A perda de superfÃcie de água natural no bioma já atingiu 76% dos municÃpios do Cerrado.
Leu essa? Cerrado: 81% do desmatamento concentrado em cinco bacias hidrográficas
Cidades como São Desidério, com 33 mil habitantes no Oeste da Bahia, está entre os 1.092 municÃpios do bioma que vêm perdendo seus corpos de água, na mesma proporção que cresce as áreas ocupadas por fazendas de grãos, comodities como soja, algodão e milho â foi o municÃpio que mais desmatou o Cerrado em 2023, ano em que o bioma superou a Amazônia em área desmatada.
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosTrechos de rios, como o Uruçuà Preto, no PiauÃ, e o Peixe, em Goiás, não são mais vistos por satélite. à que córregos onde se costumava nadar não existe mais. O que era água, hoje é terra seca. A área de superfÃcie de água natural do Cerrado diminuiu pouco mais da metade (53,4%) em 38 anos, atingindo 696 mil hectares na comparação do ano de 2023 contra 1985.
Os trechos de corpos água que desapareceram estão na região do Matopiba, principal zona agrÃcola brasileira, que reúne áreas do Maranhão, Tocantins, Piauà e Bahia. Não à toa, o Oeste da Bahia, onde está São Desidério, entrou para o mapa mundial por conflitos de água.
O âPanorama da SuperfÃcie de Ãgua do Brasilâ, série do MapBiomas Ãgua, que está na sua terceira edição, foi esmiuçado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), um dos parceiros da rede. Para a pesquisadora do Ipam, Rafaella Almeida Silvestrini, é âgrande o risco de uma séria crise hÃdricaâ. à que “a diminuição da vazão dos rios no Cerrado nos últimos anos, devido à s altas taxas de desmatamento no bioma, pode impactar o abastecimento hÃdrico de cidades, a produção de energia elétrica e a agropecuáriaâ. Outros fatores que aumentam o risco de uma crise hÃdrica é a irrigação intensiva, a erosão e degradação do solo e as mudanças climáticas.
A diminuição da vazão dos rios no Cerrado nos últimos anos, devido à s altas taxas de desmatamento no bioma, pode impactar o abastecimento hÃdrico de cidades, a produção de energia elétrica e a agropecuária
Em 2023, o Cerrado teve a maior superfÃcie de água desde 1985: 1,6 milhão de hectares ou 9% do total nacional â curiosamente, o maior valor registrado em 39 anos, por ser 11% acima da média histórica do bioma. Só que a grande dessa água é de origem antrópica, ou seja, estocada pelo homem, seja em hidrelétricas ou em reservatórios.
Para evitar perdas significativas, especialmente no perÃodo da seca, entre agosto e novembro, as fazendas de agronegócio costumam criar suas próprias alternativas: o âpiscinãoâ, reservatórios gigantes, que chegam a ocupar quatro hectares de área plantada.
O MapBiomas Ãgua constatou que apenas 37,5% do bioma estão cobertos por águas naturais. Os 62,5% restantes estão divididos entre hidrelétricas (828 mil hectares, o que significou 51,1% do bioma) e reservatórios (181 mil hectares, ou seja, 11,2% do Cerrado).
A redução da superfÃcie de água natural no Brasil é um problema multifacetado, causado por fatores como desmatamento, mudanças climáticas, uso insustentável dos recursos hÃdricos e crescimento urbano. Os efeitos dessa redução são amplos, impactando tanto a vegetação quanto a população, com consequências para a biodiversidade, segurança alimentar, geração de energia, saúde pública e estabilidade social. A adoção de práticas de conservação, gestão sustentável dos recursos hÃdricos e polÃticas ambientais rigorosas é crucial para mitigar esses impactos e garantir a disponibilidade de água para as gerações futuras
âA redução da superfÃcie de água natural no Brasil é um problema multifacetado, causado por fatores como desmatamento, mudanças climáticas, uso insustentável dos recursos hÃdricos e crescimento urbano. Os efeitos dessa redução são amplos, impactando tanto a vegetação quanto a população, com consequências para a biodiversidade, segurança alimentar, geração de energia, saúde pública e estabilidade social. A adoção de práticas de conservação, gestão sustentável dos recursos hÃdricos e polÃticas ambientais rigorosas é crucial para mitigar esses impactos e garantir a disponibilidade de água para as gerações futurasâ, analise Joaquim Pereira, pesquisador do MapBiomas Ãgua.
