Texas abaixo de zero: onda de frio chama a atenção para crise climática

A cidade de Bentonville, no Arkansas, coberta de neve em 17 de fevereiro de 2021 | Foto de Paulo Basso Jr.

Negacionistas se manifestam em redes sociais e especialistas explicam que temperaturas extremas são efeito de mudanças no clima do planeta

Por Paulo Basso Jr | ODS 13 • Publicada em 5 de março de 2021 - 08:10 • Atualizada em 8 de março de 2021 - 10:45

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A cidade de Bentonville, no Arkansas, coberta de neve em 17 de fevereiro de 2021 | Foto de Paulo Basso Jr.

Na gélida noite de 14 de fevereiro de 2021, Dia dos Namorados nos Estados Unidos, o clima no telejornal 40/29 do canal KHBS/KHOG, afiliado da rede ABC, não era de romance. Com os termômetros apontando -17ºC, o noticiário dedicou quase toda sua programação a alertas sobre a onda de frio incomum que assolaria a região noroeste do Arkansas, assim como diversas outras áreas do país, nos dias seguintes.

Recomendações não faltaram. “Reduzam o máximo possível o aquecimento interno das residências para não sobrecarregar a rede, evitem usar energia elétrica desnecessária, deixem as torneiras gotejando água para que os canos não congelem, não dirijam, não saiam à rua com as crianças”. Até mesmo banhos deveriam ficar em segundo plano. Comércio, escolas, fábricas e repartições públicas manteriam as portas fechadas por tempo indeterminado. A maioria dos hospitais trabalharia em horários restritos, apenas para atender emergências.

Enquanto me atentava a tudo isso e, também, a como identificar indícios de hipotermia no corpo, demonstrados graficamente em uma reportagem do telejornal, um estampido ecoou na porta que leva ao meu quintal. Acendi a luz do pátio e observei um passarinho encolhido, encostado à madeira, tentando se proteger dos ventos congelantes que zumbiam entre os galhos secos das árvores adiante. Abriguei-o da melhor forma que pude, diminuí o sistema de aquecimento interno e fui dormir, de jaqueta e gorro, me enfiando embaixo de três cobertores e esperando pelo pior. Em uma região que, nessa época do ano, registra temperaturas médias entre 7ºC e 1ºC (no pico do inverno, em janeiro, elas giram entre 4ºC e -1ºC), a previsão para os dias seguintes, 15 e 16 de fevereiro, era de máxima de -14ºC e mínima de -22ºC.

Isso já seria suficiente para o Arkansas vivenciar a maior onda de frio desde 1983, mas foi pior: os termômetros atingiram -26ºC (como comparação, um freezer residencial costuma operar em -18ºC). Durante o auge da nevasca, chequei por curiosidade como andavam as coisas no Alasca e me surpreendi: a capital do estado, Juneau, registrava -12ºC.

Apesar de não estar acostumado ao frio que atinge as áreas do norte dos EUA no inverno, nem preparado para isso, o Arkansas até que se saiu bem. No noroeste do estado, onde vivo, praticamente não houve quedas de energia. Parte por ser uma região com densidade demográfica relativamente baixa e parte por nevar algumas vezes por ano no pedaço, o que implica na existência de uma rede mais robusta de abastecimento elétrico e hidráulico.

Na prática, meu maior problema durante a onda de frio foi ter de limpar a bagunça feita por algumas garrafas de bebida que estavam armazenadas em uma geladeira na área externa e estouraram. Fora isso, as maiores tarefas foram proteger plantas, armazenar da melhor maneira possível a água dispensada pelas torneiras forçosamente abertas e socorrer alguns vizinhos que insistiram em sair de casa e atolaram seus carros nos quase 40 cm de neve acumulados no chão.

Sorte diferente tiveram os moradores do Texas, estado mais ao sul e famoso pelo clima quente, onde a temperatura chegou a -17ºC, com sensação térmica de -24ºC. A começar pela camada de gelo nas estradas que provocou uma colisão envolvendo mais de 100 veículos em Forth Worth. Problemas provocados pela falta de energia e água afetaram cerca de cinco milhões de pessoas. Foi a maior queda forçada de abastecimento da história dos EUA.

Rio congelado no noroeste do Arkansas em 19 de fevereiro: temperatura chegou a -26°C no estado | Foto de Paulo Basso Jr

Colapso no Texas: caos no estado sem energia nem água

Em Houston, a maior cidade do Texas, um conhecido ficou sem energia elétrica por 12 horas. Em Austin, a capital, uma amiga aproveitou para tirar fotos de piscinas com águas congeladas e pessoas esquiando nas ruas como se estivessem em Aspen, no Colorado. Conversei com Ézio Vicente, paulistano proprietário de uma companhia de construção e reforma em Dallas. “No norte da cidade, onde moro, cortaram a ‘força’ na madrugada do dia 15. Daí até o dia 18, ela voltava apenas por alguns minutos, a cada oito horas. Consegui me alojar na casa da minha irmã, mas muita gente teve que procurar abrigos públicos”, diz.

O brasileiro afirma ter trabalho como nunca durante estes quatro dias atendendo a chamados relacionados a canos de água que estouraram em casas e apartamentos, tanto da população mais simples quanto de milionários. Isso até acabar o estoque de matéria-prima nas lojas de material de construção, tamanha foi a procura por itens básicos de hidráulica.

Vicente explica o que ocorreu: “Nos lugares mais frios, a rede de abastecimento e as próprias residências e empresas contam com protetores térmicos que impedem que o encanamento congele e, consequentemente, estoure. É algo simples, como camadas de isopor. O Texas nunca investiu nisso por ser um lugar mais quente. Diante das condições excepcionais, o sistema entrou em colapso e só restou às administradoras interromper o fluxo de água.”

A rede elétrica do estado enfrentou crise semelhante. Diversas usinas movidas a gás natural e provedoras de energia eólica e nuclear sofreram interrupções de funcionamento por conta das condições extremas de temperatura. Poços de gás congelaram e canos de distribuição estouraram, algo que já havia ocorrido pelo mesmo motivo, mas em níveis bem menores e sem que soluções fossem aplicadas, em 1989 e 2011. Diante dos painéis de medição com indicadores cada vez mais vermelhos, foi necessário cortar o abastecimento. E assim grande parte da população padeceu, sem aquecimento, sem água e no escuro.

Rede elétrica do Texas saturada e desconectada do restante do país agravou a situação

Dezenas de pessoas morreram. Animais, centenas. Em Houston, um estabelecimento que armazenava vacinas para covid-19 enfrentou apagão, forçando os funcionários a distribuírem mais de oito mil doses. Muitas foram para o lixo. Em todo o estado, moradores começaram a checar suas contas de luz e, mesmo sem fornecimento adequado, notaram que o valor do quilowatt-hora durante a onda de frio havia saltado de US$ 0,12 para até US$ 9.

Aqui, cabe ressaltar uma particularidade da rede elétrica do Texas. Enquanto praticamente todos os estados americanos contam com sistemas interligados, com a possibilidade de venda e distribuição de energia para os vizinhos, a terra dos caubóis tem uma estrutura independente, cuja explicação histórica é complexa, mas está relacionada à relutância em pagar taxas federais. Assim, quando uma crise surge, não há para quem passar o chapéu.

Via Twitter, Joshua Rhodes, pesquisador associado à Universidade do Texas em Austin, ressaltou a importância de o estado rever conceitos e se conectar rapidamente à rede nacional. Há ainda outras medidas sendo cobradas por técnicos às autoridades, como o uso da tecnologia para distribuir melhor a demanda entre cidades ou mesmo bairros que precisam de mais ou menos energia. O grande problema é que tudo isso, assim como proteções físicas para o sistema, custa muito dinheiro e, sobretudo, cacife político, já que parte do valor costuma ser transferido em taxas para a população. Além do que, é verdade, são raras as crises relacionadas à temperatura no Texas, o que não justificaria, para muitos, grandes aportes.

“Até hoje, injetar grandes quantias na rede elétrica texana para protegê-la de extremos seria mais ou menos o mesmo que investir em uma loja de roupas de neve na região. Não teria retorno”, diz Ézio Vicente. “Mas os texanos estão acostumados a catástrofes, como furacões. O que vejo aqui são condições de buscar melhorias por conta própria. Há um consciente coletivo de que as causas são naturais e todos têm de enfrentá-las”, acredita.

O que parte considerável da comunidade científica alerta, porém, é que há uma probabilidade cada vez maior de crises relacionadas a temperatura extremas ocorrerem com mais frequência nas regiões de latitude média. Indícios apontam que, de forma geral, haverá mais calor do que frio, mas ambos em níveis fora da média. Por isso, é preciso renovar o sistema rapidamente, e por um motivo simples: independentemente do preço a ser pago, vidas serão poupadas.

Depois da nevasca: trilha em Bentonville, Arkansas, em 20 de fevereiro | Foto de Paulo Basso Jr

Mudança de ventos: tempo é diferente de clima

As paisagens cobertas de neve do Texas, do Arkansas, da Louisiana, do Alabama e de outros estados americanos que costumam ter invernos mais amenos deram palco aos negacionistas da crise climática. Até um post de 2017 do ex-presidente Donald Trump no Twitter foi resgatado e compartilhado à exaustão, inclusive no Brasil: “O que diabos está acontecendo com o aquecimento global? Por favor, volte depressa. Precisamos de você!?”, diz o texto.

Esse tipo de lógica carece de argumentos científicos. Alguns jornais logo demonstraram, mais uma vez, a diferença entre tempo e clima. Enquanto o primeiro é pontual e corresponde às condições atmosféricas registradas em um período curto, o segundo tem um recorte histórico maior, de 30 ou mais anos, que retrata o panorama dos padrões de tempo de determinada região. Assim, frentes frias ocasionais não invalidam dados que apontam a ocorrência de uma crise provocada pelo aumento progressivo da temperatura na Terra.

Evidências que vão ao encontro dessa tese podem ser consultadas na página dedicada ao clima do site da Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), que indica que o planeta está, em média, 1,18ºC mais quente do que antes da Revolução Industrial, no século XIX. Ou ainda que os últimos 40 anos registraram as temperaturas mais altas da história moderna, com aceleração ainda mais acentuada entre 2016 e 2020.

John Schwartz, repórter especializado em clima do The New York Times, vai além. Ele ressalta que explosões repentinas de frios árticos em locais distintos, como a que ocorreu no sul dos EUA, estão diretamente relacionadas a crise climática. De forma resumida, o ar gelado concentrado no topo da Terra, o chamado vórtice polar, é mantido ali por correntes de vento. Com o aquecimento do Hemisfério Norte, elas estão enfraquecendo, o que provoca ondas disformes e permite que o ar do Ártico se espalhe.

Schwartz destaca que uma atmosfera mais quente tende a reter mais umidade proveniente dos oceanos. Isso levaria a chuvas mais consistentes que, combinadas a temperaturas mais baixas, estariam resultando em mais tempestades de neve. Temporadas de incêndios florestais mais longas provocadas por ambientes mais quentes e secos, e furacões mais destrutivos seriam outros eventos relacionados à crise climática. Tudo isso, além de uma provável recorrência de explosões do vórtice polar, segundo o especialista do New York Times, vem sendo discutido pela ciência. O que está em fase mais sólida, de acordo com Schwartz, é a relação entre ações humanas e mudanças climáticas que levaria a essas condições.

Um dos relatórios mais amplos e atuais publicados sobre o assunto é o do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (da sigla em inglês IPCC), que data de 2019 e tem atualização prevista para 2022. Ao analisar o impacto de fenômenos naturais como a erupção de vulcões ou o El Niño, provocado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, pesquisadores do mundo inteiro apontam que o aumento da temperatura média registrado no último século não seria possível sem o nível exponencial de queima de combustíveis fósseis, poluição industrial e difusão de atividade pecuária.

De forma conclusiva, o estudo do IPCC prega que, caso o aquecimento do planeta provoque uma média de temperatura superior a 1,5ºC em relação ao período pré-industrial, o mundo terá de se habituar a catástrofes climáticas. Parece exagero imaginar que um dia neve no Rio de Janeiro, mas há quem defenda que isso é cada vez mais possível. E se o Texas não está preparado para o frio extremo, o que esperar de cidades tropicais?

Enquanto escrevia este texto, o climatologista Carlos Nobre, presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, discursava no evento online Expert ESG 2021, promovido pela XP Investimentos. Para ele, vivemos uma emergência climática provocada diretamente pelos 40 bilhões de toneladas de gás carbônico depositados anualmente na atmosfera (em 2006, esse número era de 29 bilhões). Cerca de 70% é provocado pelo uso de combustíveis fósseis para gerar energia. De acordo com o especialista, o aumento médio superior a 1ºC na temperatura da Terra é alarmante e se o cenário não mudar a ponto de beirar a emissão zero de gases de efeito estufa até 2050 os desastres naturais serão cada vez mais frequentes.

A Nasa indica que a temperatura da Terra já é, em média, 1,18ºC superior à do final do século XIX. Fui ao site deles ver as recomendações para um mundo mais sustentável. A lista é imensa e inclui conservar e proteger os recursos hídricos por meio de eficiência, reutilização e gerenciamento de águas pluviais, eliminar o desperdício, aumentar a reciclagem, apostar na engenharia civil sustentável, apoiar meios de transportes elétricos e, acima de tudo, investir na descarbonização energética por meio de opções renováveis, principalmente solar e eólica.

O recado está dado. E embora a percepção dos brasileiros de que as mudanças climáticas estejam sendo provocadas pela ação humana seja maior que a dos americanos, parece que ele não serve apenas para o Texas ou o Arkansas.

Paulo Basso Jr

Jornalista paulista radicado no Arkansas, EUA. É sócio-proprietário da Entre Aspas Comunicação, agência de conteúdo responsável pelos sites Rota de Férias, 33Giga e Busca Voluntária, além de prestar serviços de edição para especiais, guias e livros publicados pela revista Viaje Mais. Viaja com prazer, mesmo diante dos trabalhos mais inusitados, e é membro da GreenPress, Rede de Turismo Consciente gerida por formadores de opinião.

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