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[g1_quote author_name=”Ronaldo Bastos Francini Filho” author_description=”Professor da UFPB” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosNessa região de interesse da indústria petrolÃfera ocorrem algumas das correntes marinhas mais fortes do mundo. Essa peculiaridade transformaria um vazamento de óleo nas águas profundas da foz do rio Amazonas em uma grande catástrofe ambiental
[/g1_quote]Apoiados pelo Greenpeace em duas expedições cientÃficas realizadas em 2017 e 2018, a bordo do navio Esperanza, os pesquisadores brasileiros descobriram que essa extensão de corais tem inúmeras espécies ainda desconhecidas. Muitas estão sendo catalogadas. Eles assinaram um artigo com cientistas ligados à organização ambientalista, que logo após ser publicado na revista Frontiers in Marine Science, uma referência em estudos marinhos, alcançou grande repercussão internacional. Foram cerca de 400 mil visualizações e downloads dois dias após ser divulgado, em abril do ano passado. Na publicação foram relatadas as estimativas da região estudada, muito mais ampla, profunda e complexa do que discutido anteriormente, assim como as perspectivas e ameaças relacionadas aos seus recursos naturais.
Ronaldo Bastos Francini Filho, professor associado do Departamento de Engenharia e Meio Ambiente da Universidade Federal da ParaÃba (UFPB) e um dos autores do estudo, explica que nessa região de interesse da indústria petrolÃfera ocorrem algumas das correntes marinhas mais fortes do mundo. Essa peculiaridade transformaria um vazamento de óleo nas águas profundas da foz do rio Amazonas em uma grande catástrofe ambiental. âAs ferramentas de mitigação sugeridas pelas empresas em caso de vazamento (boias de contenção na superfÃcie e uso de dispersantes de óleo) jamais funcionariam no cenário localâ, alerta. A opção por dispersantes âfaz com que o óleo vá para o fundo e saia da vista humana, mas é comprovadamente letal para larvas de diversos organismos marinhosâ, acrescenta.
Com base nesses e em outros argumentos cientÃficos o Ministério Público Federal no Amapá recomendou ao Ibama que indeferisse a licença ambiental à empresa francesa Total que pretendia explorar petróleo na foz do rio Amazonas. O órgão ambiental acatou a recomendação e negou a licença após confirmar inconsistências no processo de licenciamento e os riscos envolvidos.
Thiago Almeida, especialista em Clima e Energia do Greenpeace considera que os estudos realizados foram fundamentais para embasar a tomada de decisão pelo órgão ambiental. Ele conta que além de acompanhar esse processo, o Greenpeace promoveu uma grande campanha de mobilização contra a petrolÃfera francesa pelo mundo, incluindo protestos durante uma reunião de acionistas da empresa em Paris, no ano passado. Também foi lançada uma petição online que somou mais de dois milhões de assinaturas.
Apesar do desfecho dessa ação de mobilização, Almeida informou que o Greenpeace continua atento à s ameaças que envolvem os corais da Amazônia, tendo em vista que a British Petroleum (BP) já manifestou interesse em explorar blocos de petróleo que devem entrar em oferta este ano nessa região. Segundo o ambientalista, esse tipo de atividade é incompatÃvel não somente pelos impactos ambientais de grandes proporções que poderia causar, mas também por colocar em risco os modos de vida e a sobrevivência de populações tradicionais que dependem diretamente dos seus recursos naturais. A economia regional e a segurança alimentar que giram em torno do pescado existente em abundância também estariam ameaçadas, conforme alerta. Por essas e outras razões protestos contra a empresa petrolÃfera britânica já foram realizados pela organização ambientalista. Uma petição online também está aberta à s assinaturas pelos internautas.
Mais estudos ainda são necessários, afirmam os cientistas
Apesar da importância das informações já divulgadas sobre a região de corais da Amazônia, Carlos Eduardo de Rezende, professor do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), outro autor do estudo, considera que ainda são necessárias muitas expedições com profissionais de diferentes áreas do conhecimento para que seja possÃvel avançar nas investigações. âAinda não temos a real dimensão da amplitude desta descoberta, pois nos falta apoio por parte das agências de fomento, além de equipamentos adequados para acessar todas as informações necessáriasâ, afirma.
Segundo o pesquisador, a Petrobras já demonstrou muita competência em explorar petróleo em áreas profundas e ultraprofundas no Brasil. âNo entanto, as pesquisas oceanográficas no nosso paÃs ainda são muito incipientes por falta de embarcações devidamente equipadasâ, pondera. Por esse motivo, Rezende ressalta que o conhecimento brasileiro em termos de ciências do mar está mais restrito à s áreas rasas e que, muitas vezes, há dependência de embarcações estrangeiras ou até mesmo de apoio da Petrobras, durante os projetos de licenciamento ambiental.
Paralelamente à tentativa de estabelecimento de novas parcerias, o professor Francini Filho ressalta que ainda há uma grande quantidade de dados, obtidos durante a última expedição, em fase de análise ou de elaboração de publicação. Ele argumenta que, apesar das peculiaridades que envolvem o processo de pesquisa, a equipe tem trabalhado arduamente para que o embasamento cientÃfico possa subsidiar ações de conservação da natureza em tempo hábil. O pesquisador exemplifica que, no caso recente da negativa do Ibama à solicitação de licença ambiental para exploração de petróleo em um dos blocos da região, ele mesmo encaminhou os resultados das pesquisas ao Ministério Público.
Recomendações cientÃficas devem apoiar ações de conservação da natureza
 Fabiano Thompson, professor do Instituto de Biologia e da Coppe da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), outro autor do estudo, ressalta que a pesquisa fornece as linhas de base para o entendimento da estrutura e funcionamento deste sistema complexo. Para o pesquisador, é importante considerar que, além de conter a maior extensão de recife de corais do Brasil, a região amazônica comporta o maior sistema de mangues e a maior floresta tropical do mundo.
Sobre a importância das descobertas cientÃficas, Thompson destaca a elevada presença de biodiversidade ainda pouco conhecida. âExistem dezenas de espécies novas de esponjas e outros invertebrados que estão sendo catalogadas apenas agora.â Ele observa, ainda, que os estados do Pará e do Amapá são os principais produtores de pescado do Brasil, razões que sinalizam com a relevância de definições de estratégias para a conservação desse patrimônio natural.
Para o professor Francini Filho, apesar de sua importância ecológica, além de abarcar projetos ambiciosos para exploração petrolÃfera, a região pesquisada apresenta uso intenso e crescente por grandes frotas de pesca artesanal e industrial, assim como concentra grande tráfego marÃtimo para escoamento de produtos como a soja. âNesse cenário, e diante das ameaças crescentes das mudanças climáticas, é urgente a adoção do princÃpio da precaução (orientado pelo direito ambiental internacionalmente)â. O pesquisador também considera fundamental impulsionar o conhecimento cientÃfico para que se possa subsidiar a aplicação de ferramentas de planejamento que permitam conciliar as atividades econômicas com a conservação da biodiversidade, âde preferência com um processo participativo que envolva todos os usuáriosâ.
Tendo em vista a importância da atividade pesqueira na Amazônia e a falta de acompanhamento de desembarque de pescado no Brasil, o professor Francini Filho ainda enfatiza que esse serviço seria essencial para informar como as frotas pesqueiras da região utilizam os recifes e se os seus processos de capturas são sustentáveis ou não.
Ciência e ativismo ambiental somando esforços
 A aproximação com o Greenpeace começou em 2016, após a publicação de um artigo assinado por uma equipe de pesquisadores brasileiros, sobre os corais da Amazônia, na revista Science Advances. O trabalho já sinalizava para a importância do sistema pesquisado, mas os investigadores sabiam que precisariam de mais suporte tecnológico para avançar em resultados. Até então, o trabalho tinha contado com apoio de navio da Marinha do Brasil. Nas expedições de 2017 e 2018, além da logÃstica garantida pelo Esperanza, o suporte da organização ambientalista incluiu um submarino que permitiu filmar pela primeira vez a região, a 90 metros de profundidade. Mas há partes dessa extensa área que podem chegar a 500 metros.
O professor Carlos Eduardo de Rezende considera que o artigo cientÃfico publicado em 2018 teve um grande impacto, devido à capacidade de divulgação dos resultados desta pesquisa pelo Greenpeace. Apesar de reconhecer a importância do apoio recebido da organização ambientalista, Francini Filho enfatiza: âApós mais de 20 anos na luta ambiental, aprendi que apenas com ciência de qualidade, publicada em periódicos de alto impacto, conseguimos combater projetos destrutivos e subsidiar ações de conservação com sucessoâ. Seguindo uma linha de raciocÃnio semelhante, Fabiano Thompson opina: âO ideal é que o estado cumpra o seu papel no que tange à s ciências do mar, fomentando os avanços e não deixando a ciência à mÃngua.â
O professor Rezende, ainda demonstra preocupação com o cenário ambiental brasileiro e complementa o alerta: âEu diria que esta área está sob um eminente risco não somente pela atividade de exploração de petróleo, mas pelo pouco caso com que as questões ambientais têm sido tratadas no Brasilâ.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”none” size=”s” style=”solid” template=”01″]12/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse perÃodo, a importância das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil.
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