O Brasil tem, em média, três milhões de cabeças de búfalos, a maioria no Pará. Embora globalmente haja 19 raças desses animais, o paÃs tem apenas quatro: Mediterrânea, Jafarabadi, Carabao e Murrah. O búfalo tem origem indiana e é considerado um bicho tranquilo. Em 2022, a bubalinocultura contribuiu com R$ 39,7 milhões para o Valor Bruto da Produção (VBP) do Paraná.
A tilápia é uma espécie de peixe muito usada na dieta de moradores dos estados do Nordeste. De origem africana, ele representa 60,8% (R$ 3,5 bilhões) do valor da produção de peixes. No Brasil, o maior produtor de tilápia é o municÃpio de Nova Aurora, no Paraná. Em 2021, o VBP da produção de peixes em Nova Aurora ficou em R$ 163,5 milhões.
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Apesar de serem potencialmente necessários para a economia de algumas regiões, búfalos e tilápias estão na lista de Espécies Exóticas Invasoras, uma das cinco maiores causas de perda de biodiversidade em escala global. O dado é do Relatório Temático Sobre Espécies Exóticas Invasoras, Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, lançado recentemente pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), que agrega 120 especialistas. O estudo expõe, como percebemos, mais um dos enormes desafios da nossa era.
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Veja o que já enviamosAs espécies exóticas invasoras são introduzidas pela ação humana, intencionalmente ou não. Causam impactos nos âmbitos econômico, social e ambiental, além da saúde humana. Há também impactos positivos, mas a questão é que, enquanto os impactos positivos são para pequenos grupos, os impactos negativos atingem, quase sempre, toda a população. Como é o caso das epidemias. Vivemos atualmente uma epidemia de dengue no Brasil, causado pelo mosquito Aedes aegypti, espécie exótica trazido pelos navios negreiros.
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Segundo o Relatório, até o final de 2023 havia registro de mais de 500 Espécies Exóticas Invasoras no Brasil â 208 plantas e algas e 268 animais e um volume não determinado de fungos e microorganismos â um número em contÃnuo processo de atualização e que não para de crescer. Estima-se que, se o processo não for revertido, haja um aumento de 20 a 30% nesse número até o fim do século. Os peixes, como a tilápia e o tucunaré, têm cerca de 126 desses registros. Outros exemplos são o javali, o mexilhão-dourado, o sagui, que vieram de regiões longÃnquas, como Ãfrica e Sudeste Asiático.
Os dados dão conta ainda que, em 35 anos, entre 1984 e 2019, o prejuÃzo causado por apenas 16 dessas espécies foi de pelo menos US$ 105 bilhões. Não foram feitos cálculos para as outras espécies.
O Relatório foi feito por 73 autores brasileiros, de 40 instituições diferentes, e tem 300 páginas. A bióloga Michele de Sá Dechoum, professora adjunta do Departamento de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa Catarina, foi uma das acadêmicas que apresentou a publicação na entrevista coletiva do dia 1 de março. Segundo ela, foram três anos de trabalho:
âTemos Espécies Exóticas Invasoras (EEI) em todos os biomas, principalmente nos ambientes mais degradados, mas nem os ambientes conservados estão imunes, já que foram detectadas EEI em cerca de 30% das Unidades de Conservação, principalmente na Mata Atlântica. Há dados sobre plantas e animais, mas ainda não temos muito conhecimento sobre fungos e microorganismosâ, disse ela.
Das mais de 500 EEI, segundo o Relatório, 239 resultaram em 1004 registros de evidências de impactos negativos e só 33 positivos, pontuais e de curta duração. Entre os impactos negativos, o maior deles é o que causa danos à saúde humana:
âEspécies têm sido introduzidas em novos territórios desde as primeiras ondas de migração e deslocamento humano. Nas Américas, a introdução de Espécies Exóticas de forma intencional ou não intencional tem como marco temporal as Grandes Navegações e invasões europeias, a partir da segunda metade do século XV. Desde então, foram registradas diversas espécies que se ajustaram e se incorporaram a costumes regionais e à s comunidades biológicas sem, no entanto, terem seus impactos documentados de forma cientÃfica, diferentemente daquelas que se tornaram mais problemáticas, como o mosquito-da-dengue Aedes aegyptiâ, diz o Relatório.
Elas podem ser introduzidas, de forma não intencional, por exemplo, por pessoas que fazem trilhas em florestas e levam nas solas dos sapatos alguns micro-organismos. Portos, aeroportos, locais de grande fluxo de pessoas também podem ser reduto de espécies exóticas. Apesar de existir uma regulação para a importação de muitas dessas espécies, o comércio eletrônico muitas vezes consegue burlar, movimentando comercialização ilegal principalmente de plantas e de peixes para o aquarismo.
Regular é necessário
O fato de algumas espécies carismáticas integrarem listagens de Espécies Exóticas Invasoras é um problema. Um bom exemplo? Cães e gatos. Ou ainda primatas e outros mamÃferos e aves. Como é óbvio, isto âgera resistência do público em geral na aceitação de que possam ser um problema ambientalâ, diz o Relatório.
âDa mesma forma, espécies amplamente utilizadas em sistemas produtivos geram resistência de setores econômicos à adoção de medidas de controle ou responsabilidade por escapes e danos ambientais, econômicos e sociaisâ.
Implantar microchips em cães e gatos pode ser parte da solução para quem nem quer pensar na possibilidade de ficar sem seu pet. âà uma necessidade frente ao amplo registro de impactos derivados da entrada desses animais em áreas naturais, seja em função de predação de animais nativos ou do potencial de transmissão de doençasâ, diz o Relatório.
Situações absurdas, como transformar uma tartaruga tigre d´água em animal de estimação, exige regulamentação urgente. Outra atividade que requer regras é o paisagismo, já que âmais da metade das plantas exóticas invasoras presentes no Brasil foram introduzidasâ para este fim.
Vale registrar que um grande problema, nesses casos, é a transmissão de zoonoses.
âà facil, para a maioria da população, entender o desmatamento. Mas é dificil quando o prejuÃzo vem de espécies que têm valor afetivo e economico, o caso de saguis, da tilápia e até mesmo de cães e gatosâ, comentaram os especialistas na entrevista.
Mas nem sempre as espécies exóticas chegam de paÃses distantes. O tucunaré, por exemplo, tem como habitat natural a Bacia Amazônica, foi introduzido primeiro no Nordeste, depois no Sudeste e agora tem até no Rio Grande do Sul. A prática de pesca desportiva foi a responsável pela dispersão desse peixe, âum dos predadores de maior risco, porque extingue espécies por predaçãoâ.
Embora tenha 20% das espécies de peixes globalmente, a Região Amazônica foi alvo da introdução de 21 espécies exóticas. Mas, se comparadas com outras regiões, ela é menos invadida. A Mata Atlântica é a que sofre maior impacto.
Estudos mostram que as Espécies Exóticas invasoras têm mais capacidade de adquirir nutrientes do que as espécies nativas, o que as deixa em franca vantagem. Seus nutrientes podem vir de esgotos e da lixiviação de fertilizantes nos solos. As mudanças climáticas também podem não interferir na sobrevivência dessas espécies. O aumento da concentração de CO2, por exemplo, pode trazer vantagem para muitas delas.
O que fazer?
A sugestão dos analistas é incorporar o assunto na vida do cidadão comum, já que o conhecimento do problema pode ser o primeiro passo para a prevenção. Crianças devem saber desde cedo o que são espécies exóticas, o tema precisa ser incorporado no âmbito de polÃticas municipais, estaduais e federais de conservação da biodiversidade e de incentivo a sistemas produtivos.
âNo cenário futuro, que não pode ser distante, é preciso permear o tema a todos os nÃveis de gestão e de prática para mitigar impactos presentes e futuros de invasões biológicas e prevenir problemas crescentesâ, sugerem os pesquisadores.
Michele Dechoum lembrou que as polÃticas de governança, neste caso, à s vezes são equivocadas. Isto acontece, por exemplo, quando o governo incentiva a utilização de tilápias. Ou ainda, quanto há o estÃmulo para o afundamento de estruturas no mar, como navios, tanques, aviões, para incentivar o turismo náutico.
âSubstratos artificiais em ambiente marinho são porta de entrada de Espécies Exóticas Invasorasâ, disse ela.
Como se vê, a tarefa para se controlar a invasão dessas espécies exóticas é árdua. Não basta regular, é preciso que as pessoas estejam convencidas do mal que os pesquisadores apontam, sobretudo quando, para elas, as exóticas só tragam coisas boas.
Tempos difÃceis.
