Pela segunda vez em três anos, o Brasil teve redução na superfÃcie de água em 2023 em comparação à média histórica, segundo o MapBiomas. O Pantanal foi o bioma que mais secou ao longo da série histórica, com a superfÃcie úmida ficando 61% abaixo da média em 2023. Houve perda de água em todos os meses de 2023 em relação a 2022, incluindo os meses da estação chuvosa, aponta o MapBiomas Ãgua, que lançou nova coleção de mapas e dados, cobrindo o perÃodo entre 1985 e 2023, nesta quarta (26/06). Os biomas estão sofrendo com a perda da superfÃcie de água desde 2000, com a década de 2010 sendo a mais crÃtica.
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O levantamento indica que A água cobriu 18,3 milhões de hectares do Brasil ou 2% do território nacional, em 2023. Corpos hÃdricos naturais respondiam por 77% da superfÃcie de água no paÃs em 2023; os outros 23% são antrópicos, ou seja, água armazenada em reservatórios, hidrelétricas, aquicultura, mineração, etc., que totalizam 4,1 milhões de hectares. Desse total, os grandes reservatórios, que são monitorados pela Agência Nacional de Ãguas, somam 3,3 milhões de hectares – um crescimento de 26% em 2023 em relação a 1985. Nos corpos hÃdricos naturais, a situação é outra: houve uma queda de 30,8% ou 6,3 milhões de hectares em 2023 em relação a 1985.
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Veja o que já enviamosA superfÃcie de água em dez estados, ou seja, um pouco mais de um terço (37%) das unidades federativas ficou abaixo da média histórica em 2023. âEnquanto o Cerrado e Caatinga estão experimentando aumento na superfÃcie da água devido à criação de hidrelétricas e reservatórios, outros, como a Amazônia e o Pantanal, enfrentam uma grave redução hÃdrica, levando a significativos impactos ecológicos, sociais e econômicos. Essas tendências agravadas pelas mudanças climáticas ressaltam a necessidade urgente de estratégias adaptativas de gestão hÃdricaâ, destaca Juliano Schirmbeck, coordenador Técnico do MapBiomas Ãgua.
Os casos mais severos ocorreram nos estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso onde fica o Pantanal: perda de superfÃcie de água de 274 mil hectares (-33%) e 263 mil hectares (-30%), respectivamente. No caso dos municÃpios, ficaram abaixo da média histórica mais da metade (53%, ou 2.925). O municÃpio de Corumbá (MS), considerada a capital do Pantanal, foi o que mais perdeu superfÃcie de água em 2023 em relação a média da série histórica: 261 mil hectares (-53%).
Pantanal: o bioma que mais secou
Em relação ao tamanho do próprio bioma, o Pantanal foi o bioma que mais secou ao longo da série histórica do MapBiomas Ãgua, que cobre o perÃodo entre 1985 e 2023. A superfÃcie de água anual (pelo menos 6 meses com água) em 2023 foi de 382 mil hectares – 61% abaixo da média histórica. “A corrente de água que vem da Amazônia, os chamados rios voadores, está diminuindo por causa do desmatamento na região. Outro problema é que no planalto, no entorno do Pantanal, muitas áreas estão sendo convertidas em pastagem ou em campos de soja. E isso aumentou muito o assoreamento da Bacia do Paraguai, porque está vindo muito sedimento. Tanto que o Pantanal está ficando mais raso. E tem um terceiro problema que é a destruição do pasto natural para ser substituÃdo pelo pasto plantado” explicou Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas.
O Pantanal está enfrentando um perÃodo de queimadas semelhante ou pior ao de 2020, considerado o mais grave da história. Até domingo (23/086, a área queimada já havia alcançado 627 mil hectares. Em 2020, ano em que um terço do bioma foi devastado, foram 4,5 milhões de área queimada. De acordo com projeções do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lasa/UFRJ), se a situação continuar assim, mais de 2 milhões de hectares de área do Pantanal podem ser queimados até o final do ano.
Houve redução da área alagada e do tempo de permanência da água. No ano passado, apenas 2,6% do bioma estava coberto por água. O Pantanal responde por 2% da superfÃcie de água do total nacional. O ano de 2023 foi 50% mais seco que 2018, que foi a última grande cheia no bioma. Em 2018, a água no Pantanal já estava abaixo da média da série histórica, que compara com os dados desde 1985. “Em 2024, nós não tivemos o pico de cheia. O ano registra um pico de seca, que deve se estender até setembro. O Pantanal em extrema seca já enfrenta incêndios de difÃcil controle”, ressalta Eduardo Rosa, do MapBiomas.
Amazônia e outros biomas
Mais da metade da superfÃcie de água do paÃs está na Amazônia: 62% do total nacional. Em 2023, o bioma apresentou uma superfÃcie de água de quase 12 milhões de hectares ou 2,8% da superfÃcie do bioma. Esse total representa uma retração de 3,3 milhões de hectares em relação a 2022. Em 2023, a Amazônia sofreu com uma seca severa: de julho a dezembro abaixo da média histórica do MapBiomas Ãgua, sendo outubro a dezembro registrando as menores superfÃcies de água da série. “Houve isolamento de populações e mortandade de peixes, de botos e tucuxis”, apontou Carlos Souza Jr., coordenador do MapBiomas Ãgua.
Em 2023 o Cerrado teve a maior superfÃcie de água desde 1985: 1,6 milhão de hectares ou 9% do total nacional. Esse total é 11% acima da média histórica no bioma. O ganho de superfÃcie de água se deu em áreas antrópicas, que ampliaram-se em 363 mil hectares â uma variação positiva de 56,4%. Os corpos de água naturais, por sua vez, perderam 696 mil hectares â queda de 53,4%.
Em 2023, os corpos de água naturais ocupavam 608 mil hectares do Cerrado ou 37,5% da cobertura de água do bioma e 9% do total nacional. Os 62,5% restantes ficaram divididos principalmente entre hidrelétricas (828 mil hectares; 51,1%) e reservatórios (181 mil hectares; 11,2%). “A partir de 2003, a área de superfÃcie de água destinada à geração de energia e ao abastecimento dos centros urbanos superou a área de água natural no Cerrado. No entanto, esses reservatórios são abastecidos pelos corpos de água naturais que têm sido reduzidos nas últimas décadas”, comenta Joaquim Pereira, do MapBiomas.
Após um longo perÃodo de seca, que se estendeu por sete anos, resultando em uma das maiores secas do Nordeste, desde 2018 é possÃvel observar uma tendência de acréscimo na superfÃcie de água na Caatinga e a consolidação de um ciclo mais chuvoso no bioma. Com isso, 2023 registrou uma superfÃcie de água de quase 975 mil hectares â 6% acima da média histórica e 5% do total nacional.
“Com base nos dados de 2023, em geral, no bioma Caatinga, estamos em um perÃodo de consolidação de um ciclo mais chuvoso, o que garante maior disponibilidade hÃdrica nas regiões mais secas do território brasileiro. Todavia, é preciso atentar para a existência de problemas de secas localizadas e que, apesar do ciclo chuvoso, os dados evidenciam uma tendência geral de redução da superfÃcie d’água, mesmo com o crescimento constante de reservatórios artificiais por todo o bioma”, comentou Diêgo Costa, do MapBiomas.
Dez por cento da superfÃcie de água do Brasil em 2023 ficam no Pampa: mais de 1,7 milhão de hectares ou 9,2% do território do bioma. A superfÃcie de água dos reservatórios do Pampa apresentou área 40% inferior do que a média da série histórica. âEm 2023, o Pampa teve o primeiro quadrimestre mais seco da série histórica. Os quatro primeiros meses de 2023 estiveram entre os cinco meses mais secos da sérieâ, comentou Juliano Schirmbeck. As cheias no Rio Grande do Sul, entre setembro e novembro, recuperaram a superfÃcie de água no Pampa, mas ainda assim ela se manteve 2% abaixo da média histórica.
A superfÃcie de água na Mata Atlântica em 2023 ficou 3% acima da média histórica, superando os 2,2 milhões de hectares ou 12% e segundo lugar do total nacional. A água responde por 2% da superfÃcie do bioma. âEm 2023 a Mata Atlântica registrou elevados nÃveis de precipitação em alguns municÃpios, levando a inundações em áreas agrÃcolas e deslizamentosâ, acrescenta Fernando Paternost, do MapBiomas. A Mata Atlântica é o bioma com maior superfÃcie de água antrópica, onde a área de superfÃcie de água em hidrelétricas e em reservatórios é maior do que a área de superfÃcie de água natural.
