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Veja o que já enviamos(Colaborou AlÃcia Prager) Na entrada de LuÃs Eduardo Magalhães pela rodovia BR 020, um gigantesco silo de armazenamento de soja da transnacional Cargill não deixa dúvida de que chegamos ao centro da nova fronteira agrÃcola brasileira.
Em 2000, o municÃpio do Oeste da Bahia se emancipou do vizinho e também grande produtor de soja Barreiras para se expandir com independência. Em 17 anos, a população quadruplicou para 83 mil habitantes. à uma das cidades que crescem mais rapidamente no Brasil, atraindo pequenos agricultores fugindo das secas do semiárido ou atrás de melhores condições de vida e fazendeiros buscando prosperar. Â
De um pequeno distrito rural, LuÃs Eduardo Magalhães se tornou uma potência nacional do agronegócio. Chegou à quarta posição do PIB per capita da Bahia e ao 20º no PIB do Agronegócio do Brasil. Por isso, seu desenvolvimento é direcionado para suprir ao setor. A rodovia que o corta tem cara de nova; caminhões e pickups são a maior parte dos veÃculos na via; da pista, se vê inclusive a placa para um dos sete aeródromos particulares da cidade. Â
Mas basta deixar a rodovia e começar a transitar pelas ruas da cidade para as contradições se tornarem aparentes. Apesar dos velozes crescimento econômico e urbanização, são poucas as ruas asfaltadas, rara a vegetação nas calçadas, e nenhum o espaço público de convivência, como praças, por exemplo. O saneamento é visivelmente precário, e o hospital público mais próximo está em Barreiras, a 90 km de distância.
âLuÃs Eduardo Magalhães é o principal polo agrÃcola regional. Tem infraestrutura de serviços, investimentos internacionais e um aparato institucional difÃceis de se equipararâ, explica o professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, Clóvis Caribé, que acompanha o progresso do Oeste baiano desde os anos 1980. âA região se transformou rapidamente, mas com um desalinhamento enorme das questões sociais e ambientaisâ.
Vegetação sumindo
Barreiras primeiro, e LuÃs Eduardo Magalhães em seguida, estão estrategicamente posicionados na região e se tornaram provedores de serviços e bens agrÃcolas aos estados de Maranhão, Tocantins, Piauà e Bahia – conhecidos pelo setor como Matopiba. Estes estados testemunham a rápida expansão de fazendas em meio a um acelerado desmatamento do Cerrado – um bioma que guarda 5% da biodiversidade mundial e oito das 12 bacias hidrográficas brasileiras, mas que está sendo convertido no Eldorado do agronegócio.
O avanço agrÃcola rumo ao norte do paÃs já impacta a bacia do Rio das Ondas, que abastece LuÃs Eduardo Magalhães e Barreiras (antes uma cidade só), apontou um estudo produzido por diferentes instituições brasileiras. Em 1984, apenas 5,3% da vegetação nativa ao redor da bacia tinham sido removidas. Três décadas depois, o desmatamento já derrubara 48,5% – ou 2.705 quilômetros quadrados – da cobertura natural do local.
A bacia é um importante recurso hÃdrico para ambas as cidades – não apenas para abastecer os moradores, mas para suprir as hidrelétricas e os grandes sistemas de irrigação das fazendas. O desmatamento diminui a infiltração da água, reduzindo a recarga do aquÃfero Urucuia, o que, por sua vez, prejudica a manutenção do nÃvel dos rios e riachos, especialmente durante a seca sazonal, acrescenta o estudo.
Eldorado frustrado
Na beirada da BR 020 está Santa Cruz, mais antigo e maior bairro de LuÃs Eduardo Magalhães. Este é o principal destino de imigrantes pobres, especialmente de áreas rurais, em busca do paraÃso da soja. Muitos que chegaram são pequenos agricultores em busca de melhores oportunidades, mas carentes de qualificação ou chances de entrar na produção mecanizada do setor. Hoje, muitas destas pessoas continuam a enfrentar a pobreza e o desemprego.
Dois anos atrás, Ernesto José de Souza, 43 anos, deixou o emprego numa fazenda de Indianápolis, em Minas Gerais, na esperança de uma vida melhor. âPensei que teria mais trabalho aquiâ, diz. Ele não conseguiu trabalhar numa colheita no novo endereço e, por isso, vende picolés a R$ 2 pelas ruas de Santa Cruz. Sua esposa ficou em casa: âà ainda mais difÃcil encontrar emprego para as mulheresâ.
Uma história parecida é contada por Jandielson Rosa da Silva, 36 anos, que chegou há apenas cinco meses e já planeja retornar para a cidade natal de Brejo Cruz, na ParaÃba, a 1.618 km de LuÃs Eduardo Magalhães: âNinguém está empregando mais aqui.â Â
Silva pegou um empréstimo de R$ 3.000 para a viagem e, quando chegou, alugou uma casa em Santa Cruz por R$ 400, valor alto para o seu padrão de vida. Por isso, a residência de dois cômodos é compartilhada com dois amigos que tentaram a sorte com ele.
âEu acreditei que as coisas seriam melhores, mas estão pioresâ, diz Silva, apoiando-se sobre uma pilha de toalhas de mesa e redes que tem tentado vender no bairro, com pouco sucesso. Em vez disso, coleciona dÃvidas – e memórias da famÃlia: âTenho muita saudade delesâ, diz Silva, que não encontra a  mulher e dois filhos desde que se mudou para a Bahia.
Apesar da crise econômica e da taxa de desemprego brasileira que atinge 12,2%, LuÃs Eduardo Magalhães abriu novos postos de trabalho em 2017. Mas especialistas têm notado uma nova tendência no campo: o agronegócio tem pago mais, porém empregado menos. Novas tecnologias reduziram a oferta de empregos informais e temporários (ocupados especialmente por pequenos agricultores) e aumentado a da força de trabalho especializada.
Isso é uma realidade no caso do Oeste da Bahia, onde a agricultura é altamente mecanizada. âHá menos empregos na agricultura moderna, porque as pessoas precisam falar inglês, saber conduzir tratores grandes, lidar com as novas tecnologias…â, explica Caribé.
A maioria das ofertas da cidade do agronegócio está, portanto, nos serviços, em especial os que abastecem os produtores e distribuidores de grãos que fincaram raÃzes por lá. Não à toa o municÃpio rural tem, na verdade, 90% de população urbana. No centro, franquias de alimentação e roupas de grife dividem espaço com lojas de equipamentos de segurança e produtos agrÃcolas.
Violento como o Iraque
Santa Cruz também é conhecido como âIraqueâ por causa da violência constante. Não há muitas estatÃsticas disponÃveis para a cidade, mas a imprensa local com frequência publica notÃcias sobre assassinatos. E quem vive em Santa Cruz sente de perto os conflitos do tráfico de drogas.
âMinha filha quase foi morta por um homem envolvido com o tráfico há alguns anosâ, diz Pedro José Santana, 59 anos, que se estabeleceu em Santa Cruz em 2010. Pequeno agricultor, Santana chegou com quatro filhos e esposa. Encontrou trabalho, mas também angústias. âNo campo não tinha essa violência todaâ. Foi de emprego a emprego em fazendas e, hoje, não aguenta mais o peso da colheita, por isso vende caldo de cana.
âHá muitas mortes lá para cima, muito tráfico, muitos moleques roubando celularesâ, acrescenta Josiane Bezerra, 25 anos, apontando para o final da rua principal do bairro. Sua famÃlia chegou de Irecê em 2003, quando ela era criança. Seus pais fugiram da seca na esperança de encontrar chuva para plantar comida. Nos anos 2000, tanta gente deixou a cidade rural do semiárido baiano que há até lojas com o nome da cidade em Santa Cruz.
A amiga Ariana Nunes tem a mesma idade e origem. Hoje ambas trabalham numa loja de roupas baratas na rua principal. âNão quero me mudar, não quero trabalhar no campo. Gosto daqui, mas não tem muito o que fazerâ, diz Nunes.
Com as poucas opções culturais da cidade, as amigas encontraram no Cerrado a sua área de lazer. âTem várias cachoeiras. Preferimos as Pedras, Alcides, Coqueirosâ¦â, começa a listar.
Melhoria de indicadores sociais
Os indicadores sociais do municÃpio melhoraram. Isso inclui aumento do acesso à educação e à saúde; um Ãndice de desenvolvimento humano (IDH) considerado alto; e a redução da desigualdade, embora o nÃvel seja elevado, de 0,62, acima do Ãndice brasileiro, de 0,52.
âEssas regiões no Matopiba enxergam o agronegócio como a única chance de desenvolvimento que eles jamais terãoâ, diz o engenheiro agrônomo, Fernando Sampaio, diretor-executivo da âEstratégia Produzir, Conservar e Incluirâ, iniciativa para expandir a produção e sustentabilidade do agronegócio em Mato Grosso. âEu conheci o Sul do Piauà e o Oeste baiano há 25 anos. Onde há agronegócio, o dinheiro circula, as pessoas vivem melhorâ, acrescenta.
Já o estudo do grupo de pesquisa Climate Policy Initiative mostra que as cidades de Matopiba cobertas pelo Cerrado – que são o principal alvo do avanço agrÃcola – tiveram desempenho econômico melhor do que os municÃpios localizados fora do bioma. A expansão agrÃcola dos municÃpios do Cerrado, diz a pesquisa, gerou aumento de 37% no PIB per capita e crescimento de 10% no consumo de bens de consumo duráveis, como televisores e geladeiras, e de acesso à energia elétrica. Não foi constatado impacto no acesso a água ou esgoto.
Em LuÃs Eduardo Magalhães, apenas 18% das famÃlias têm esgotamento sanitário adequado, abaixo da média nacional – já pequena – de 43%. A prefeitura até instalou o esgotamento sanitário em Santa Cruz, dizem os moradores, mas o sistema ainda não funciona.
Há clÃnicas, mas não há hospital público, apenas postos de saúde. Fazendeiros comentam por lá que o melhor hospital é o avião, conta Clóvis Caribé. Enquanto isso, em Santa Cruz, quem precisa de atendimento tem a rodovia BR 020 como única opção. âSemana passada um conhecido morreu na estrada indo para o hospital (em Barreiras)â, diz Tatiana Alves, 23 anos.
Desenvolvimento contraditório
âEu fico intrigado com estes indicadores sociais. Você só precisa andar um pouco para perceber como este desenvolvimento é fantasioso. De cima você mostra uma realidade, mas aqui embaixo você percebe que estamos indo na direção erradaâ, diz Valney Rigonato, professor da Universidade Federal do Oeste da Bahia, que mora numa rua sem asfalto em Barreiras, mas cujo aluguel é mais alto do que o de muitas capitais, ele afirma.
Nessas cidades, especialmente em LuÃs Eduardo Magalhães, até os bairros de classes média e alta têm pouca pavimentação. Ao lado de Santa Cruz está Jardim ParaÃso, onde, de cima de muros altos, câmeras de segurança resguardam pickups e casas de dois andares. Ãrvores ou asfalto são raridades ali também.
A prefeitura de LuÃs Eduardo Magalhães foi contactada diversas vezes, mas não se posicionou. Mas como especialistas ressaltam, isso não é uma particularidade da cidade. O agronegócio tende a impulsionar o crescimento populacional, trazendo ganhos econômicos e urbanização em áreas rurais. No entanto, na sequência, não implanta um plano de desenvolvimento ou aplica os recursos gerados pelo setor. A área cresce desordenadamente, com impacto ao meio ambiente, concentração fundiária e especulação imobiliária.
Um artigo com base nos exemplos de LuÃs Eduardo Magalhães e Barreiras mostra o aumento da segregação e das desigualdades entre as áreas urbanas. Enquanto bairros como Jardim ParaÃso testemunham a especulação imobiliária, Santa Cruz continua crescendo de maneira informal e precária.
âLuÃs Eduardo é a nova Wall Street da sojaâ, diz Deusdete Santiago, ex-vendedor de agrotóxicos da Monsanto e hoje dono de uma grande loja de ferramentas agrÃcolas no centro de Barreiras. âMas o dinheiro grande não fica aqui, segue para São Paulo ou para o exteriorâ, acrescenta. E da mesma forma que o dinheiro se vai da cidade, a esperança de futuro melhor de muitos migrantes também se esvai.
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