(Leanderson Lima* – Manaus/AM) â A quarta edição do relatório âCumplicidade na destruiçãoâ se autoexplica por seu tÃtulo completo: âComo mineradoras e investidores internacionais contribuem para a violação dos direitos indÃgenas e ameaçam o futuro da Amazôniaâ. Divulgado pelas organizações Articulação dos Povos IndÃgenas do Brasil (Apib) e Amazon Watch, na manhã desta terça-feira (22), o relatório evidencia que a mineração está longe de ser uma atividade artesanal, como defende o presidente Jair Bolsonaro (PL). Ela avança âvorazmenteâ sobre terras indÃgenas e unidades de conservação e é bancada por grandes conglomerados que movimentam bilhões de dólares que recebem dinheiro de financiadores privados e públicos brasileiros e estrangeiros.
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Segundo o relatório da Apib e da Amazon Watch, até novembro do ano passado, foram identificados 2.478 pedidos de mineração ativos sobrepostos a 261 terras indÃgenas no sistema da Agência Nacional de Mineração (ANM), o que é proibido por lei. Tais processos estão em nome de 570 mineradoras, associações de mineração e grupos internacionais que ârequerem explorar uma área de 10,1 milhões de hectares, quase o tamanho da Inglaterraâ, alerta.
O relatório nomina nove das maiores mineradoras em atuação na Amazônia: Vale, Anglo American, Belo Sun, Potássio do Brasil, Mineração Taboca e Mamoré Mineração e Metalurgia (as duas do Grupo Minsur), Glencore, AngloGold Ashanti e Rio Tinto. E mostra que gestoras de capitais como BlackRock, Vanguard e Capital Group â com sede nos Estados Unidos â investiram US$ 14,8 bilhões nas mineradoras com interesses em Terras IndÃgenas (TIs). As instituições financeiras brasileiras Previ (Caixa de Previdência de Funcionários do Banco do Brasil) e o Bradesco injetaram outros US$ 11,8 bilhões nas empresas de mineração.
Vale e a Anglo American, citadas no relatório, afirmaram recentemente que não teriam mais interesse em atuar em TIs. Porém, a Apib e a Amazon Watch verificaram que milhares de requerimentos minerários (a primeira etapa para explorar um mineral no Brasil) seguem ativos, portanto válidos, na base de dados da ANM.
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Veja o que já enviamosPara lideranças indÃgenas ouvidas pela Amazônia Real, o relatório deixa claro um falso discurso das empresas, mostrando na prática que elas continuam incentivando o garimpo na região amazônica. âEu analiso como uma farsa, uma mentira que as empresas inventam. Porque eles falam uma coisa e, por trás, eles armam outra, armam as mentirasâ, afirmou a coordenadora da Associação IndÃgena Pariri, e vice-coordenadora da Federação dos Povos IndÃgenas do Estado do Pará (Fepipa), Alessandra Korap Munduruku.
âEssa questão de dizer: âAh, estamos protegendo a floresta, estamos preocupados com as mudanças climáticasâ, isso é uma mentira. à uma farsa porque eles querem o dinheiro financiado pelos bancos para destruir o nosso território. Território que tem povo, tem floresta, tem rio, tem criança e muita lutaâ, pontua Alessandra, liderança constantemente ameaçada por causa de sua luta contra garimpo, hidrelétricas e atividades de extração de madeira nas terras indÃgenas na bacia do Rio Tapapós.
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Outros bancos privados internacionais como Crédit Agricole (França), Bank of America e Citigroup (Estados Unidos), Commerzbank (Alemanha) e SMBC Group (Japão) também aparecem no relatório âCumplicidade na destruiçãoâ. O levantamento mostra, por meio de cinco exemplos, que as violações praticadas por algumas mineradoras seguem em ritmo acelerado no último ano, âcom forte apoio do governo Bolsonaro e contando com financiamento do grande capital internacionalâ.
Mineradoras, garimpos e artimanhas
Os 2.478 requerimentos minerários ativos na ANM estão em nome de 570 mineradoras, associações de mineração e grupos internacionais. Quase metade desses pedidos (1.085) são para explorar ouro na Amazônia. Embora o número total de requerimentos tenha despencado quase pela metade, em relação ao terceiro relatório, as empresas estão se valendo de artimanhas para continuar a atividade mineradora.
âMesmo com o anúncio da desistência de requerimentos feitos pela Vale e pela AngloAmerican, muitos pedidos foram redesenhados para áreas nos limites das terras indÃgenas, o que segue trazendo os impactos negativos da mineração para os territóriosâ, diz a coordenadora executiva da Apib, Sônia Guajajara.
O relatório indica que a ANM está refazendo o polÃgono da região pretendida pelas empresas mineradoras, na prática excluindo a área sobreposta a uma TI. Porém, nesse novo traçado o garimpo fica bem no entorno das áreas que deveriam ser protegidas. âEssa manobra tem feito com que pedidos até então parados na ANM voltem a tramitar e que a agência comece a publicar autorizações de pesquisa em nome das mineradorasâ, diz o relatório. Esse truque permite à s empresas se desvencilhar da acusação de que atuam em áreas protegidas.
Por meio de uma parceria com o portal InfoAmazonia, responsável pelo projeto Amazônia Minada, o relatório traz como uma novidade em sua quarta edição um painel interativo online com os requerimentos protocolados junto à ANM. O mapa interativo mostra, de forma cristalina, como se dá o avanço do garimpo na Amazônia. âEm relação à s terras indÃgenas, tais corporações atuam com sede de lucro insaciávelâ, diz Sônia Guajajara.
âOs povos indÃgenas jamais colocarão o lucro acima da vida. Desde 2020, com a apresentação do PL 191/2020, manifestamos inúmeras vezes, junto à s instituições públicas e à sociedade, nosso não para esse projeto de morteâ, afirma a liderança indÃgena, lembrando dos crimes dos rios Doce e Paraopeba, contaminados pelos rompimentos de barragens de rejeitos de minério. âTragédias anunciadas que poderiam ter sido evitadas. Lançamos o relatório na luta para evitar que histórias de morte como essas se repitamâ.
Impactos para indÃgenas e quilombolas
Nos cinco estudos de caso do relatório, são apontados em detalhes os impactos e violações protagonizados por mineradoras em áreas protegidas. Sônia Guajajara explica que os casos estão relacionados à s mineradoras Vale, Anglo American, Belo Sun, Potássio do Brasil, Mineração Taboca e Mamoré Mineração. Segundo ela, a Vale possui projetos que afetam povos indÃgenas e outros povos e comunidades tradicionais ao longo do Brasil. Há os projetos Onça Puma e S11D, os quais exploram nÃquel e ferro junto aos territórios dos povos Xikrin e Kayapó, contaminando o Rio Cateté com metais como chumbo, mercúrio, manganês, alumÃnio e ferro.
âEm relação aos quilombolas de Oriximiná, estes são afetados por uma subsidiária da Vale, a Mineração Rio do Norte, que contamina cursos dâágua do Rio Trombetas. Os Pataxó e Pataxó Hã-Hã-Hãe de Minas Gerais sofrem com a dificuldade de acesso à água, após o rompimento da barragem em Brumadinho, que afetou o Rio Paraopebaâ, explica Sônia.
Em relação à Anglo American, explica a deputada, um dos principais impactos já existentes é a construção do mineroduto Minas-Rio, o qual possui 525 quilômetros e utiliza quantidades imensas de água para transporte de minério de ferro. âO resultado é a escassez de água que sofre o povo Pataxó da Terra IndÃgena Fazenda Guarani, em razão da contaminação e destruição de nascentes. Em relação à Belo Sun, sua pretensão com o Projeto Volta Grande pode ser a maior área de exploração de ouro a céu aberto do mundoâ, diz.
Para Sônia, há riscos reais de que a sua implementação cause a morte do Rio Xingu, destruindo os igarapés que o alimentam. âSeria o ecocÃdio de uma região indispensável para a vida no planeta Terra como conhecemos. Em relação à Potássio do Brasil, o Projeto Potássio Autazes violou os direitos de consulta livre, prévia, informada e consentida do povo Mura e de outros povos indÃgenas da regiãoâ, assinala.
Apoio do governo Bolsonaro
O Projeto de Lei 191/2020, de autoria do governo federal, quer tirar a autonomia indÃgena de seus territórios. Neste PL, o Executivo quer a ârealização da pesquisa e da lavra de recursos minerais e hidrocarbonetos e para o aproveitamento de recursos hÃdricos para geração de energia elétrica em terras indÃgenas e institui a indenização pela restrição do usufruto de terras indÃgenasâ. O projeto que contradiz os pilares da Constituição de 1988, no que diz respeito aos povos indÃgenas, aguarda a criação de comissão temporária.
O relatório destaca a voracidade que o setor vem mostrando em direção aos territórios indÃgenas, desde a chegada de Bolsonaro à Presidência da República. Ainda durante a campanha, em 2018, Bolsonaro deixava claro sua polÃtica antiambiental e contrária aos direitos dos povos indÃgenas. Por várias vezes, ele fez questão de dizer que seu governo não demarcaria um centÃmetro de terra indÃgena.
Outra estratégia governamental para passar por cima dos direitos indÃgenas é a votação da tese do marco temporal, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que delibera sobre a questão do direito à terra ou não pelos povos originários. O julgamento foi suspenso no dia 20 de setembro de 2021, quando o ministro Alexandre Moraes pediu vistas do processo. De lá para cá, Moraes já devolveu o processo â procedimento que deixa o caso novamente apto a voltar à pauta, mas um novo julgamento ainda não foi remarcado.
Para Alessandra Korap Munduruku, a pauta anti-indÃgena se apresenta em várias frentes no governo Bolsonaro. â(Essa articulação) já está acontecendo. Você vê em alguns jornais os próprios parentes, denunciando a morte de crianças por causa de garimpo, vê nos jornais parentes denunciando a desnutrição das crianças, o Ãndice muito alto de mercúrio (nos rios) e parece que a vida do povo não importa, parece que importa é só dinheiro para elesâ, alerta.
âJá existem vários invasores dentro dos territórios. O papel do governo seria retirar esses invasores. E eles não fazem. Eles fazem é incentivar. Eles estão contaminando o rio, trazendo doenças, drogas, prostituição, armas. Essas empresas prometem empregos, como se a gente estivesse atrás de empregos. A gente está atrás de direitos. Queremos que nossos direitos sejam respeitados e que os povos sejam ouvidosâ, frisou.
Divulgação internacional
A diretora do Programa Brasil da Amazon Watch, Ana Paula Vargas, falou quais serão os próximos passos após a divulgação do relatório. âO próximo passo é continuar ao lado da Apib e de outros parceiros, como a Aliança Volta Grande do Xingu, na definição de estratégias para ações de campanhas para manter os territórios indÃgenas como áreas livres de mineração e projetos de grande infraestruturaâ, disse Vargas.
De acordo com a diretora, em 2021, ao lado da Apib e dos Munduruku, foi iniciada uma campanha que resultou no anúncio de desistência da Anglo American dos pedidos de exploração em seu território. âVamos continuar monitorando esta empresa e manter nosso apoio à s comunidades locais da Volta Grande para que a Belo Sun não consiga iniciar suas atividades e ameaçar uma região que já sofre com os impactos de Belo Monte. Além disso, a Amazon Watch vai continuar apoiando o movimento indÃgena e as comunidades tradicionais para pressionar financiadores que investem em empresas ligadas a violações de direitos humanos e destruição da floresta amazônicaâ, diz.
Um dos passos na luta pela preservação ambiental é levar as denúncias contidas no relatório âCumplicidade na destruiçãoâ à comunidade internacional. Reconhecer e fomentar o papel fundamental dos territórios indÃgenas para a conservação da floresta e dos estoques de carbono e da biodiversidade â que mantém a regulação climática global â é um dos primeiros passos, segundo Sônia Guajajara.
âà preciso que os impactos socioambientais e as violações de direitos humanos que a mineração causa sejam denunciados junto à comunidade internacional, em todos os espaços possÃveis. Boa parte dos lucros, dos produtos, não permanecem no Sul global. Mas o sofrimento gerado pela ganância, sim. à preciso que haja conscientização do problema que os povos indÃgenas enfrentam e engajamento nas campanhas que puxamos a fim de gerar pressão pública sobre as instituições estatais, para que fortaleçam as polÃticas públicas de proteção socioambiental, e sobre as corporações, para que não sejam coniventes com a destruição da vida para saciar sua fome de riquezaâ, finaliza Sônia Guajajara.
Ana Paula Vargas, da Amazon Watch, informou que as entidades vão iniciar uma estratégia de divulgação na imprensa internacional, com foco direcionado para os diferentes paÃses sede dos financiadores. âTambém produzimos um hotsite com depoimentos em vÃdeos das comunidades impactadas pela mineração para ampliar suas vozes e mostrar o impacto da mineração na vida dessas pessoas. Um longo trabalho, quase de formiguinha⦠Mas como elas, somos muitas e muitos, e estamos organizados nessa luta em defesa dos direitos indÃgenas e da Amazôniaâ, finalizou.
Mineradoras contestam
Após a publicação da reportagens, mineradoras citadas contestaram as denúncias feitas pela Apib e pela Amazon Watch. A AngloGold Ashanti afirmou, em nota, “que não opera e não tem interesse em operar” em Terras IndÃgenas. “Na década de 1990, a produtora de ouro solicitou requerimentos de pesquisa mineral em diversas regiões no paÃs. Três dessas áreas posteriormente foram demarcadas como Terras IndÃgenas (TIs), o que levou a companhia a desistir das mesmas. A decisão foi protocolada junto à Agência Nacional de Mineração (ANM) no final da década de 1990. No entanto, como não houve atualização do processo no sistema da ANM, a AngloGold Ashanti ratificou a retirada do requerimento de pesquisa em 21 de junho de 2021. Atualmente, os investimentos da empresa no Brasil estão concentrados basicamente na expansão de suas minas localizadas em Minas Gerais e Goiás”, prosseguiu a nota.
A Vale anunciou também que desistiu de todos os seus pedidos de mineração em terras indÃgenas. “Como já amplamente informado, a Vale não possui nenhum requerimento em terra indÃgena no Brasil. No ano passado, a empresa anunciou a desistência de todos os seus processos minerários em TIs no paÃs (o que inclui requerimentos de pesquisa e lavra). Os pedidos de desistência foram protocolados na Agência Nacional de Mineração (ANM) ao longo de 2021. Essa decisão se baseia no entendimento de que a mineração em TIs só pode se realizar mediante o Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI) dos próprios indÃgenas e uma legislação que permita e regule adequadamente a atividade. A Vale reforça ainda que está à disposição para esclarecer todos os pontos com a Apib e a Amazon Watch\”, afirmou a empresa, em nota.
*Leanderson Lima é jornalista com 18 anos de experiência profissional no Amazonas e vencedor do Prêmio Petrobras de Jornalismo de 2015, com a reportagem âChute no preconceitoâ
