Um pacto social para proteger nossos corais

Os corais despertam curiosidade e encantamento, mas nem sempre são compreendidos. Foto Arquivo BrBio

Pesquisadores apontam caminhos para a conservação marinha no Rio

Por Cristina Chacel | ODS 14ODS 4 • Publicada em 23 de junho de 2019 - 08:04 • Atualizada em 23 de junho de 2019 - 16:13

Compartilhe

Os corais despertam curiosidade e encantamento, mas nem sempre são compreendidos. Foto Arquivo BrBio
Os corais despertam curiosidade e encantamento, mas nem sempre são compreendidos. Foto Arquivo BrBio

Eles têm o poder de surpreender os humanos. Despertam curiosidade e encantamento, mas nem sempre são compreendidos. Alguns cientistas dizem que são como pequenos monstros marinhos, porque incorporam, como uma quimera, diferentes formas de vida. Tem esqueleto mineral, estrutura de calcário, se desenvolvem como animais, na forma de pólipos, que se abrem em flor, e, como os vegetais, fazem a fotossíntese em simbiose com algas em seu tecido. Não raro são comparados a pedras preciosas, que vivem nas melhores regiões costeiras do planeta. Assim são os corais, frágeis e vivendo sob constante ameaça. Seu maior inimigo, claro, é homem. Durma-se com este paradoxo.

Leia mais reportagens da série #100diasdebalbúrdiafederal

A comunidade científica gera muito conhecimento através das pesquisas, mas a população pouco usa. É preciso que ele seja disseminado e que haja troca de experiências. Por isso, funcionamos como uma ponte entre a ciência e a sociedade civil

Simone Oigman Pszczol
bióloga

À tona, os pesquisadores vão chegando aos poucos, roupas leves, coloridas, displicentes, no bom sentido do termo. São, em sua maioria, biólogos marinhos com mestrado, doc e pós doc em Ecologia. Gente cheia de disposição, na faixa entre os 30 e os 70 anos, que trai o entusiasmo no brilho dos olhos à simples menção da palavra corais. Assim mesmo, no plural. Todos titulares de extensos currículos lattes e de pesquisas densas em universidades de renome, com destaque para as dos Rio de Janeiro – UFRJ, UFF e Uerj, parceiras das atividades. Há também veterinários, geógrafos, advogados, educadores, arquitetos, gestores, indicando que o assunto, aqui, é transdisciplinar.

Simone Oigman Pszczol, bióloga e diretora executiva do BrBio. Foto divulgação

Estamos em Búzios, em uma dessas pousadas simpáticas e confortáveis, mas nada luxuosa, próxima à praia da Ferradura, escolhida para sediar o “SEMINÁRIO ECORAIS: DIALOGA BÚZIOS – SUBSÍDIOS PARA A CONSERVAÇÃO MARINHA 2018”. O encontro é promovido pelo Instituto Brasileiro de Biodiversidade, ou BrBio, oscip que estuda o ambiente coralíneo da badalada cidade praiana da região dos Lagos que nos anos 60 seduziu Brigitte Bardot. Os pesquisadores trabalham ali há 18 anos, recolhendo informações e produzindo subsídios que contribuíram para fundamentar a criação, em 2009, da Área de Proteção Ambiental Marinha de Armação de Búzios e do Parque Natural Municipal dos Corais da Armação dos Búzios.

A proposta pedia fôlego: dois dias de mergulho nos dilemas envolvendo a conservação do patrimônio de corais de Búzios e do Brasil. Dilemas mais políticos que científicos, o que transforma essa gente muito estudiosa em militantes da causa ambiental. Proteger corais não é tarefa de curto prazo e aí reside o primeiro obstáculo enfrentado pelos cientistas. Os projetos financiados duram, em média, dois, três anos, de acordo com os prazos fixados nos editais. De modo que de tempos em tempos eles concluem uma etapa e há um gap até que possa ser retomado. Neste intervalo, muitas vezes equipes acabam desmobilizadas e estruturas, desmontadas.

Este foi um dos problemas abordados nos dois dias do encontro em Búzios. Além da sustentabilidade e continuidade dos projetos de pesquisa, a pauta socioambiental impõe enfrentar desafios das medidas e práticas de conservação do ambiente, a articulação e a cooperação da academia com o poder público, seus gestores, e com o terceiro setor, os planos de manejo e gestão, o complexo relacionamento com as comunidades, os programas de educação ambiental, o ordenamento do turismo, estratégias de comunicação e debate com a sociedade. Uma pauta de dura negociação em busca de um modelo de desenvolvimento que contenha o crescimento desordenado e conjugue a saúde humana à saúde ambiental.

“A comunidade científica gera muito conhecimento através das pesquisas, mas a população pouco usa. É preciso que ele seja disseminado e que haja troca de experiências. Por isso, funcionamos como uma ponte entre a ciência e a sociedade civil”, observa a bióloga Simone Oigman Pszczol, fundadora e diretora executiva do BrBio, mestre de cerimônia do encontro e articuladora de uma rede de 14 universidades e mais de 90 profissionais, entre participações e apoios aos ambientes coralíneos do país.

Uma das espécies de coral, conhecido como “cérebro saudável”. Foto Arquivo BrBio

PROJETO ECORAIS. Tudo começou no ano 2000, a partir da pesquisa científica de Simone Pszczol sobre a saúde dos corais da Armação dos Búzios. O estudo gerou informações sobre os organismos que vivem em ambientes coralíneos, lixo marinho, pressão humana sobre a fauna e flora e regeneração dos corais, indicando uma situação crítica: um terço dos costões rochosos de Búzios encontrava-se sob estresse ambiental alto ou muito alto, por conta do lixo originário dos hábitos dos usuários das praias, dos barcos de passeio e da atividade da pesca.

A pesquisa, inicialmente financiada pelo WWF Brasil, CNPq e Capes, com o apoio da Secretaria de Meio Ambiente de Búzios e dos comerciantes locais, inspirou a demarcação do Parque Natural dos Corais de Búzios. A unidade de conservação municipal protege um relicário no lado Norte da península, da praia da Tartaruga à praia de João Fernandinho, uma faixa de dez praias, com três núcleos principais: Tartaruga, Bardot e João Fernandes. Um tesouro relevante menos pela diversidade do que pela singularidade. Encontram-se ali identificadas 53 espécies de corais. Não são muitas as variedades, considerando-se que no Caribe vivem mais de 70 espécies e na região do Pacífico são centenas.

Os corais de Búzios, entretanto, destacam-se pelo fato de serem endêmicos. Só existem na costa brasileira, o que os torna ainda mais preciosos para o conhecimento humano e o desenvolvimento de pesquisas, como as já existentes no campo dos fármacos, por exemplo, que indicam possuírem algumas espécies propriedades importantes para o tratamento de doenças graves, como o câncer. Lá se encontram, em extensas áreas, fato incomum em costões rochosos, o coral-estrelinha (Siderastrea Stellata), espécie que se regenera muito lentamente. Uma plataforma mono específica de mais de 300 anos.

Cristina Chacel

Jornalista e escritora, atuou nos principais jornais do Rio de Janeiro. Há 20 anos trabalha como freelance, com criação de textos jornalísticos e institucionais e projetos sociais e solidários. É autora de dezenas de livros, entre eles "Rio de cantos mil", com fotos de Custodio Coimbra.

Nota da redação: Cristina Chacel morreu em 2020.

Newsletter do Colabora

Nossa newsletter é enviada de segunda a sexta pela manhã, com uma análise do que está acontecendo no Brasil e no mundo, com conteúdo publicado no #Colabora e em outros sites.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *