O passado da Volta Grande do Xingu está sendo desvendado e recriado com fragmentos de 25 sÃtios arqueológicos do perÃodo pré-colonial. Os achados das escavações estão na área da mineradora Belo Sun, em Senador José PorfÃrio, no Pará. Seis destes sÃtios serão impactados e, possivelmente, vão desaparecer em meio a exploração de ouro – o empreendimento teve sua Licença de Operação suspensa, recentemente, pelo Ministério Público Federal do Pará. Cerca de 200 mil fragmentos já foram coletados,  catalogados e passam por um processo de recuperação e reconstituição. Ao final dos estudos, este tesouro arqueológico será enviado para a Fundação Casa de Cultura Marabá.
à a primeira vez que uma pesquisa arqueológica ocorre na região da Volta Grande. Séculos de história podem ajudar a entender a movimentação dos povos tradicionais e o processo de ocupação da Amazônia desde o século XVII. Depois de sete anos de escavações, a quantidade de fragmentos impressiona – é como caminhar pela história, bem guardada entre a natureza densa da Floresta Amazônica. Boa parte do material descoberto, no entanto, continua onde está, o que pode revelar mais detalhes sobre a vida e os povos da região, em projetos futuros.
VÃnculos amazônicosÂ
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Veja o que já enviamosOs pesquisadores conseguiram identificar, através dos objetos coletados, que a região conhecida como Acampamento Verena, formava, possivelmente, um aldeia densa e extensa, com muitos objetos considerados de valor. Além disso, detectou-se a existência de uma rede de relacionamento entre as tribos do médio Xingu e Baixo Amazonas, colocando em xeque a ideia de que as tribos indÃgenas viviam relativamente isoladas e apenas em pequenas comunidades.
[g1_quote author_name=”Antônio Kallil,” author_url=”geólogo da Belo Sun Mineração” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]A quantidade de fragmentos impressiona em toda a região. Você caminha sobre cacos, pequenos utensÃlios, fica impossÃvel recuperar e catalogar todo o material
[/g1_quote]Um dos argumentos que fortalece a teoria foi a descoberta, pela primeira vez na região do Médio Xingu, de um muiraquitã (objeto de significado mÃtico, muitas vezes obtido por pessoas de alto status dentro das sociedades pré-históricas, que funcionava como um talismã). Até então, este tipo de objeto só havia sido encontrado na região do Oeste paraense, o que demonstra, para os pesquisadores, uma movimentação entre os povos. A descoberta deste objeto, segundo os especialistas, indica a existência de algum nÃvel de hierarquização social e mesmo polÃtica, além de redes de trocas entre as regiões do médio Xingu e o Baixo Amazonas.
âA quantidade de fragmentos impressiona em toda a região. Você caminha sobre cacos, pequenos utensÃlios, fica impossÃvel recuperar e catalogar todo o materialâ, explicou Antônio Kallil, geólogo da Belo Sun Mineração, a frente do trabalho nos sÃtios arqueológicos na área da mineradora.
Dos 25 sÃtios identificados, apenas os seis deles estão na área diretamente impactada pela mineradora. Os outros sÃtios podem fazer parte da continuação dos estudos, caso a região abrigue outras áreas de exploração futuramente, o que não está descartado.  Neste momento, a empresa Inside Consultoria (contratada pela mineradora Belo Sun) está realizando todo o processo de catalogação e de recuperação de algumas peças, tentando remontar de forma mais precisa as sociedades que habitavam a região. Do conjunto de peças descobertas, destacam-se cacos cerâmicos (em maior quantidade), fragmentos lÃticos de pedra polida, pedra lascada, lâminas de machado e afiadores ou polidores.
Dúvidas e incertezas entre os moradores
Toda a movimentação de pesquisadores na região chamou a atenção dos moradores de vilarejos próximos as terras de Belo Sun, suscitando indagações sobre as descobertas, o real valor das peças ou mesmo o que foi encontrado. Fala-se em tesouros, peças extremamente valiosas, que estariam sendo retiradas pela companhia. A Belo Sun, no entanto, explica que todas as peças catalogadas estão sendo analisadas e os objetos recuperados.
Para facilitar o entendimento sobre os estudos arqueológicos, foi desenvolvido um projeto envolvendo estudantes, professores e a parte da população das áreas mais próximas ao empreendimento, visando apresentar o material recuperado e o que representam no resgate histórico/cultural para os povos da Volta Grande.  Alunos foram levados aos sÃtios arqueológicos e puderam acompanhar o trabalho dos pesquisadores e conferir as peças resgatadas. O material e as conclusões iniciais dos estudos estão agrupados em um livro, “Estudos Arqueológicos e Educação Patrimonial no Projeto Volta Grande“, que foi distribuÃdo para instituições culturais e educativas.
âA obra reúne informações que vão desde a ocupação histórica da área da Volta Grande, passa pelos trabalhos de prospecções, resgate, salvamento dos sÃtios, descrições das peças e da composição quÃmica de onde esses sÃtios foram encontradosâ, explica Antônio Kallil.
Agora, é torcer para que o trabalho não pare por aÃ, já que existe um patrimônio histórico/cultural inestimável nas terras amazônicas, o que pode ajudar a entender melhor a historia dos povos tradicionais e da ocupação da região mais rica do planeta.
