Enquanto 556 rodovias continuavam bloqueadas, dez dos 54 aeroportos do paÃs paravam sem combustÃvel, frotas de ônibus eram reduzidas nas principais capitais, manifestantes ocupavam as vias de 25 estados e aulas e cirurgias permaneciam suspensas em escolas, universidades e hospitais, uma cidade no sul do Brasil driblava os efeitos da greve dos caminhoneiros, que completou oito dias nesta segunda-feira (28/5). Na pequena Rio Fortuna, em Santa Catarina, de apenas 4.606 habitantes, a vida seguia sem atropelos: as escolas e a unidade de saúde funcionaram normalmente e o transporte escolar das crianças, feito pela prefeitura, também foi mantido. Pelo menos até o dia 30 não há risco de faltar combustÃvel para conduzir os alunos.
[g1_quote author_name=”Luiz Henrique Roecker” author_description=”Produtor Rural” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Creio que o pessoal vai tentar beneficiar o leite produzindo queijo artesanal para o consumo das próprias famÃlias. Mas como a população é pequena e todos são próximos, acredito que o leite também vai ser distribuÃdo à população
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Veja o que já enviamosO paÃs enfrenta desabastecimento nos supermercados de várias capitais, com prateleiras vazias nas seções de frutas, legumes, verduras e carne. Já em Rio Fortuna, a 14 ª cidade do paÃs em renda domiciliar per capita, começa a faltar apenas  gás de cozinha e leite de caixinha nos mercados, o que não chega a ser um problema, pois a cidade é uma das grandes produtoras de leite de Santa Catarina. Pelo contrário: pode ser que a greve faça sobrar leite.
Quem explica as razões é a engenheira agrônoma Marcela Padilha, da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), empresa pública do governo de Santa Catarina que tem como objetivos a pesquisa e a promoção da competitividade dos produtores rurais. âAs vacas precisam ser ordenhadas todos os dias para que mantenham sua vida útilâ, explica. âA questão é que talvez as indústrias de laticÃnios não tenham como ir buscar o leite dos produtores devido à falta de dieselâ, prossegue. âEntão, pode ser que sobre leite porque ele vai continuar sendo retirado. A solução será dar aos porcos, fazer queijo ou distribuir ao pessoalâ, indica a engenheira. âà até mais saudável do que o de caixinhaâ, completa.
No municÃpio, onde 65% dos habitantes moram na zona rural, é comum também plantar o que se come e criar animais para o próprio consumo. Como a famÃlia Roecker, produtora de leite. O casal Roseli e Luiz Gonzaga, de 48 e 53 anos e o filho Luiz Henrique, de 24, cultivam sua própria horta, onde há batata, aipim, couve, laranja, pêssego e ameixa, entre outras frutas e verduras. Galinhas e gado para consumo próprio também são criados por eles.  O hábito dos moradores da cidade é mais uma razão para espantar o fantasma do desabastecimento de alimentos.
Luiz Henrique se preocupa com a possÃvel falta de combustÃvel para escoar a produção de leite, bem como a falta de ração para os animais. âMas estão todos cientes de que é um mal necessário, pois já vÃnhamos há algum tempo com lucros reduzidosâ, afirma o jovem produtor sobre a greve dos caminhoneiros. “A esperança é que essa paralisação traga frutos positivos, como a diminuição dos combustÃveis”. O movimento mostrou o fracasso das entidades sindicais que tentaram falar pela categoria. Em Rio Fortuna, entretanto, a palavra de ordem é união. Na noite de segunda-feira (28/05), houve uma marcha na rua principal da cidade em apoio aos caminhoneiros convocada espontaneamente por WhatsApp. Uma das moradoras fez uma transmissão ao vivo pelo Facebook. Luiz Henrique afirma que, caso haja a interrupção do escoamento do leite, o excedente será muito grande. âCreio que o pessoal vai tentar beneficiá-lo produzindo queijo artesanal para o consumo das próprias famÃliasâ, supõe. âMas como a população é pequena e todos são próximos, acredito que o leite também vai ser distribuÃdo à populaçãoâ, afirma. Mesmo sem selo de certificação – pois o produto é produzido apenas como matéria-prima para as indústrias de lacticÃnios – parte dele também deve ser vendido localmente.
A orientação na prefeitura, administrada pelo prefeito Lindomar Balmann, do PSD, é manter todos os serviços básicos até dia 30/5, quando uma nova reunião de avaliação será realizada. Até mesmo os encontros da terceira idade, promovidos pela Secretaria de Assistência Social, estão garantidos. âVamos segurar até o limite. Por enquanto, as escolas têm merenda e há combustÃvel para transportar os alunosâ, afirma a assessora de imprensa da prefeitura, Késsia Meurer. Como o ensino é 100% público, todas as escolas estão funcionando. Apenas o transporte de pacientes para outros municÃpios ficou restrito aos casos graves: hemodiálise, radioterapia, quimioterapia e emergências. Rio Fortuna é mais um ingrediente para se entender o complexo enredo da crise que parou o paÃs.
